Este é o meu filho amado, em quem me comprazo, ouvi-o

 Ouvir a sua voz desinstala e leva a descer para junto do povo sofrido e tornar as relações do Reino de Deus presentes em suas lutas por vida em abundância, sem ufanismo ou triunfalismo (Mateus 17,9).

Neste domingo a liturgia nos propõe a reflexão sobre a transfiguração de Jesus. A narrativa apresenta Jesus transfigurado, sugerindo a experiência das comunidades, ali representadas por Pedro, Tiago e João, com Jesus ressuscitado.

Felizes os que são perseguidos por causa da justiça

Segundo os evangelistas, a cena da transfiguração está em meio aos anúncios da paixão. A intenção é mostrar como a cruz faz parte da vida de quem assume o projeto do Pai e lhe é fiel até as últimas consequências. A fidelidade a Deus e ao resgate da vida dos pobres contraria interesses religiosos, econômicos e políticos. Nesse sentido, a perseguição pelos poderes que governam este mundo é inevitável na vida de quem assume a causa do Reino e de sua justiça. Não é por acaso que a comunidade de Mateus incluiu a seguinte bem aventurança para quem é perseguido e julgado injustamente: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois quando vos injuriarem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós (…), pois foi assim que perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (Mateus 5,10-12). E Jesus sobe ao monte, simbolicamente um lugar privilegiado para encontrar-se com Deus, a fim de fortalecer-se e se manter fiel ao projeto do Pai.

A vitória de Jesus sobre a morte na cruz

Este relato é uma leitura pós-pascal e pretende narrar antecipadamente a vitória de Jesus sobre a morte na cruz, apresentando-o como o messias glorioso. É o que indicam o “seu rosto brilhante como o sol e suas roupas brancas como a luz” (Mateus 17,2). A ressurreição, a vitória sobre todos os poderes, é a vida em toda a sua plenitude que vence a morte. Nesse sentido, o martírio é uma possibilidade para as pessoas que se engajam de corpo e alma no testemunho das relações do Reino.

O fato se dá “seis dias” depois do acontecimento da narrativa anterior (Mateus 17,1). Essa referência aos seis dias quer mostrar que, tal como a criação em seis dias e o descanso de Deus no sétimo (Gênesis 1,1-2,4a), Jesus é a nova criatura, a vida nova. Ele vem trazer essa vida recriada para todas as pessoas que acolhem e aderem ao seu projeto. É por isso que Paulo escreve: “Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas. Eis que se faz uma realidade nova” (2 Coríntios 5,17).

“Moisés e Elias falavam com ele” (Mateus 17,3). Elias é o representante da profecia. Moisés faz lembrar não somente o êxodo, mas também todo Pentateuco, toda lei, que a tradição judaica atribuía a ele. Por um lado, a lei e os profetas, isto é as Escrituras todas, se cumprem em Jesus. Ou seja, o Nazareno dá continuidade à primeira aliança, levando-a a sua plenitude. Por outro lado, a comunidade de Mateus apresenta Jesus como um profeta que, tal como os profetas Elias (1 Reis 17,1) e Moisés (Deuteronômio 18,15), veio anunciar um novo êxodo de liberdade para seu povo. Jesus torna histórica a antiga esperança profética. Portanto, ele está em continuidade com as tradições do seu povo.

O fato de Jesus subir, acompanhado por Pedro, Tiago e João, “no alto de uma montanha” (Mateus 17,1), confirma esta perspectiva, pois é uma referência ao monte Sinai, no qual Deus deu a conhecer ao povo o seu projeto de vida e de liberdade, que Moisés registrou no decálogo (Êxodo 19-20). A tradição identificou a montanha da transfiguração com o monte Tabor. E Jesus é apresentado ao mundo como o novo Moisés que vem para resgatar a essência da lei, isto é, o amor que liberta e promove a vida de todos igualmente.

Ao propor ficar na montanha e construir “três tendas” (Mateus 17,4), Pedro revela sua cegueira e dureza de coração. Fazia pouco tempo que Jesus já tinha chamado a atenção para sua cegueira, acusando-o de cumprir a função de Satanás como pedra de tropeço no projeto de Deus (Mateus 16,22-23). No entanto, Pedro ainda não compreendera que a construção da justiça do Reino não permite privilégios, nem acomodação. Ser discípulo não é somente participar da glória de Jesus, mas é também carregar a sua cruz nas cruzes de tantos crucificados, gerando e defendendo a vida.

A “nuvem” (Mateus 17,5) é um dos símbolos privilegiados na Bíblia para falar da presença de Deus (Êxodo 13,21; 16,10; 34,5; 40,34-38; Números 12,5). E, tal como em Lucas o anjo dissera a Maria “o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra” (Lucas 1,35), agora desceu uma nuvem sobre a montanha, “cobrindo-os com a sua sombra”. É o Pai confirmando a missão do Filho. Da nuvem saiu uma voz que disse: “Este é meu filho amado, em quem me comprazo, ouvi-o”, da mesma forma como já havia anunciado por ocasião do batismo (Mateus 3,17; cf. Isaías 42,1). Jesus é o Emanuel, presença libertadora de Deus entre nós (Mateus 1,23).

Descer para junto do povo sofrido

Não é possível acomodar-se no alto da montanha, refugiando-se em uma espiritualidade desligada da vida de tantas pessoas crucificadas. Ouvir a sua voz desinstala e leva a descer para junto do povo sofrido e tornar as relações do Reino de Deus presentes em suas lutas por vida em abundância, sem ufanismo ou triunfalismo (Mateus 17,9). Mas ciente de que o seguimento humilde da prática libertadora de Jesus significa estar disposto a também sofrer as consequências da cruz.

Ildo Bohn Gass

Fonte: Site CEBI

 

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