A Conferência da Família Franciscana do Brasil: Ouvir Tanto o Clamor da Terra Como o Clamor dos Pobres. ” LS,49  

Frei Éderson convoca: É preciso voltar a Assis!

Aparecida (SP) – A convocação se ouviu com toda a força durante a tarde da última  quinta-feira, 3 de agosto, quando teve início no Centro de Eventos de Aparecida o Capítulo das Esteiras da Família Franciscana do Brasil. Este encontro é um momento celebrativo histórico: encerramento do ano jubilar dos 800 anos do Perdão de Assis, 50 anos de fundação da CFFB e 300 anos do encontro da Imagem de Nossa Senhora Aparecida no rio Paraíba.

O presidente da Conferência da Família Franciscana, Frei Éderson Queiroz, OFMCap, e o Conselho Diretor subiram ao palco para dar as boas vindas aos mais de mil participantes deste Capítulo, que entraram de mãos dadas para abraçar em círculos o grande salão do Centro, local onde ficarão até este domingo, tendo momentos celebrativos, formativos e principalmente de confraternização.

Este grande evento reúne os religiosos da Primeira Ordem (Frades Menores, Frades Menores Capuchinhos, Frades Menores Conventuais), da Segunda Ordem (Irmãs Clarissas), da Ordem Franciscana Secular (leigos), da Juventude Franciscana (leigos), da Terceira Ordem Regular (TOR), das Congregações e Movimentos simpatizantes de Francisco e Clara de Assis. O Arcebispo Dom Orlando Brandes presidiu a Eucaristia no encerramento deste primeiro dia e deu as boas vindas a todos os franciscanos e franciscanas.

Frei Vitório Mazzuco, OFM, fez a primeira palestra do evento e também insistiu: É preciso voltar a Assis.

“Com grande alegria, dou-lhes as boas vindas a esta feliz e história celebração dos 800 anos do Perdão de Assis e 50 anos de criação da CFFB. Transcorreram-se oitocentos anos em que aquela dúzia de frades tornou-se uma multidão e marcou um encontro em Assis para celebrar aquele que ficou conhecido como o Capítulo das Esteiras, pois também eles desejaram voltar a Assis. A voltar ao espírito das origens, a voltar ao encontro com Francisco e com Clara, a voltar à experiência inebriante do Cristo Pobre”, disse o presidente da CFFB.

Para Frei Éderson,  Assis é a nossa pátria espiritual. “É preciso voltar a Assis para compreendermos o humano que habita em nós, tão necessário de se conhecer a partir de Deus. É preciso voltar a Assis, para aprendermos com Francisco”, acrescentou frade capuchinho.

Assis, segundo ele, é o lugar de Francisco, lugar dos pobres, lugar dos sofredores, dos vulneráveis, pois eles têm a graça de infundir no nosso coração o Evangelho do Senhor. “É preciso voltar a Assis para compreendermos o que Francisco de Roma nos propõe na Evangelii Gaudium: uma Igreja de pobres, uma Igreja de enlameados na realidade sofrida da nossa gente, uma Igreja que seja hospital de campanha, isto é, aberta a todos aqueles que estão feridos e machucados nesta dura história da humanidade”, enfatizou.

Para o frade, é preciso voltar a Assis para compreendermos o que significa o cuidado com a Casa Comum, a nossa relação de fraternidade com a criação. “É preciso voltar a Assis para compreendermos o que significa levar ao mundo a misericórdia de Deus. Francisco, assim que encontrou com o Papa Honório e recebeu esse dom da indulgência, chegando a Assis, tomado de uma grande alegria, proclamou: ‘Quero mandar-vos todos ao paraíso!’. Essa é a nossa vocação, que Francisco de Roma nos recordou no dia 4 de agosto do ano passado na Porciúncula. Tomando as palavras do Poverello, ele disse que nós somos chamados a criar paraísos, onde o inferno insiste em prevalecer na vida humana”, recordou.

E voltar a Assis, significa, segundo o frade, olhar pela realidade do Brasil. “Não preciso dizer daquilo que ocorre no Brasil nesses últimos tempos, porque isso que ocorre no Brasil nesses últimos tempos é um apelo que nasce dos pobres, dos últimos, e que chega a este Capítulo despertando em nós a capacidade de indignação. O Brasil não tem dinheiro para a Previdência Social, não tem dinheiro para a educação, para a saúde pública, não tem dinheiro para programas assistenciais aos vulneráveis, mas tem dinheiro para comprar os legisladores, os juízes, e tantos outros”, denunciou, sob muitos aplausos.

E insistiu: “Esse Capítulo deve estar eivado de indignidade. Uma indignação deve tomar conta de nosso coração franciscano, pois estamos na casa da Mãe que rezou: derruba dos tronos os poderosos e eleva os humildes. Deve ser a nossa prece, deve ser o nosso pranto, deve ser a nossa litania nesses dias, aqui, guardados sobre o seu olhar”.

Voltar a Assis é também celebrar os cinquenta anos de criação da Família Franciscana do Brasil. “Ela é filha legítima do Concílio Vaticano II, que chamou a vida religiosa consagrada a voltar às origens, a beber nas fontes, a se redescobrir. Nós nascemos no Concílio enquanto Conferência, enquanto Família. E quando Francisco esteve em São Damião, o que ele ouviu do Crucificado? ‘Francisco não vês minha casa em ruínas? Vai e reconstrua a minha casa!’. Se a nossa sociedade precisa ser reconstruída, se a nossa Igreja, em muitos aspectos, precisa de ser reconstruída, se a vida religiosa consagrada precisa de um caminho de reconstrução, a Conferência da Família Franciscana do Brasil precisa ser reconstruída. Precisamos reconstruir os nossos laços de pertença, precisamos nos reconstruir para identificar o outro como irmão, precisamos nos reconstruir como conferência na compreensão da nossa interdependência. Por isso, esse Capítulo é também uma convocação a voltar a Assis e ouvir do Crucificado: ‘Vai e reconstrói a Família Franciscana do Brasil na sua compreensão, na sua interdependência, na sua missão profética, nesse sentido de pertença’”, convocou mais uma vez.

Frei Éderson encerrou lembrando que estamos na Casa de Nossa Senhora, a pobrezinha, que neste ano celebramos 300 anos. “Que aqui seja a nossa Porciúncula, lugar de ouvir, lugar de colocar o coração e lugar de onde seremos enviados em missão, para levar ao mundo a misericórdia de Deus”, completou.

FREI VITÓRIO

“A falta de esperança e desencanto do mundo não fazem parte da nossa proposta franciscana e clariana

Na primeira reflexão do dia, Frei Vitório Mazzuco falou sobre o tema e o lema do Capítulo: “Levar ao mundo a misericórdia de Deus” e “É preciso voltar a Assis!”.
Depois de explicar a origem da palavra Capítulo, Frei Vitório disse que não podemos voltar ao passado, mas podemos trazê-lo de volta até nós e atualizá-lo. “Francisco de Assis e Clara de Assis não são santos do passado, mas sim do presente. Eles puxam a nossa história para a frente e apontam um futuro de esperança. Eles são santos da utopia. A falta de esperança e desencanto do mundo não fazem parte da nossa proposta franciscana e clariana”, disse.

Segundo o frade, Assis é aqui, em tempos de guerras, tensões, violência urbana, governo paralelo do tráfico e um atentado moral que é o desgoverno ao qual estamos sujeitos. “Assis é aqui em meio a surpreendentes atentados terroristas, depressão ganhando espaço como uma grande síndrome moderna; a alienante busca de felicidade por meio das drogas; uma eclesiologia de freio de mão puxado, mas que começa a soltar-se aos poucos. Há 800 anos atrás, um mendigo chamado Francisco, adentra a estrutura eclesial e vai fazer um Papa sonhar; e hoje um Papa Francisco faz toda uma Igreja sonhar e andar soltando amarras”, acrescebtou.

“Voltar a Assis, tempo de Clara e Francisco, é retomar o tempo de humanizar um Deus e divinizar o humano. Se não, como se apaixonar pela Encarnação? Vamos voltar como peregrinação, conversão e indulgência, levando a Misericórdia”, propôs o frade, que refletiu muito sobre a misericórdia.

“A Misericórdia não é apenas uma lei moral ou ética, mas é uma virtude essencial para qualquer relacionamento. A Misericórdia, a Fraternidade e a Compaixão correm o risco de não serem entendidas se a comunidade mundial não for colocada em contato com a possibilidade de superar abismos enormes que nos separam, abismo culturais, abismos da intolerância, abismos da ausência de valores que impactam as diversas dimensões da vida. Diz o Papa Francisco: ‘Um dos graves problemas de nosso tempo é certamente a alterada relação com a vida’”, explicou.

Segundo Frei Vitório, Capítulo é o momento maior da Fraternidade! “Somos Família Francisclariana em Capítulo, isto é, no Revigoramento do Carisma, no reencantamento do Ideal. Não se compreende um Capítulo que não acolha a herança da inspiração originária. Capítulo é o grande acontecimento daqueles e daquelas que estão ligados por um laço, por um vínculo, por um Espírito Comum”, enfatizou.

Para ele, o Capítulo nos lembra que se a pessoa é decidida pela causa, pelo projeto de vida, fica uma pessoa limpa, segura, transparente, pura. “Por uma causa se faz irmão e irmã na mesma busca. O Capítulo é democrático. A democracia funciona se o projeto é decisivo. A democracia, no Capítulo, tem a sua fonte na fraternidade e na misericórdia que nos ajudam a nos doarmos para uma causa comum. Se não tem esse espírito, democracia vira burguesia e coisa indefinida. No Capítulo, se o projeto fundamental não está claro, torna-se um encontro qualquer. Se está claro, surge bons critérios, vestígios, passos, linhas e sendas para retomar a caminhada”.

Para Frei Vitório, o Capítulo das Esteiras renova e aprofunda a compreensão de Vocação. “Esteiras significam provisoriedade e abandono à Providência, que nos dará o que é necessário para a vida. Esteiras significam que somos servos e servas da simplicidade; que a bondade de Deus e o amor fraterno pulsam em tudo. Esteiras significam nossa habitação num caminho penitencial. Penitência não é restrição, mas libertação de coisas e apegos para uma disponibilidade maior em nossa capacidade de amar”, completou o frade.

Equipe de Comunicação do Capítulo

CARTA DE APARECIDA

Ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres. ” LS,49    

A Conferência da Família Franciscana do Brasil, celebrando o Capitulo Nacional das Esteiras, consciente de sua missão de “levar ao mundo a misericórdia de Deus”, dirige-se a todas as pessoas de boa vontade: àquelas que continuam acreditando em um mundo de justiça e fraternidade e àquelas que, em meio às contradições e crueldades de nosso tempo, vivem a dor da desilusão e da falta de esperança.

As partilhas realizadas nesses dias nos levam a afirmar: vivemos um verdadeiro Pentecostes. Neste sentido, o Capítulo nos chamou a um revigoramento do Carisma e nos levou a fazer memória da herança, da inspiração originária que deu início ao movimento franciscano. A experiência das esteiras nos leva a retomar nossa vocação enquanto peregrinos e forasteiros.

As bases nas quais foram construídas a nossa história estão marcadas pelo sangue dos pobres e pequenos, indígenas, mulheres e jovens negros, por um extrativismo desmedido e destruidor, por uma economia que exclui a maioria, por destruição de povos, culturas e da natureza. À luz do nosso carisma, compreendemos que se faz necessário construir um novo horizonte utópico que nos comprometa com a construção de um projeto de país com justiça e paz em respeito à integridade da criação.

Somos sensíveis ao grito dos empobrecidos e da Mãe Terra! É preciso agir com misericórdia para com eles e, com indignação diante desse sistema que exclui, empobrece e maltrata, e convocarmos a todos para se unirem à luta que hoje assumimos juntos: participar da reconstrução da Igreja com o Papa Francisco e reconstruir o Brasil em ruínas.

É chegado o momento de recolhermos nossas esteiras e as lançarmos sobre o chão das periferias do mundo, transformando continuamente nossa maneira de Ser, Estar e Consumir em reposta aos apelos do Papa Francisco.

A realidade ecológica e sócio-política-econômica do nosso país nos exige compromisso profético de denúncia e anúncio.  Assistimos, tomados de ira sagrada, à violação dos direitos conquistados, através de muitos esforços, empenhos e articulação pelo povo brasileiro. Por isso, não podemos deixar de nos empenhar junto aos movimentos sociais na luta “por nenhum direito a menos”, contra golpes, reformas retrógadas e abusivas conduzidas por um governo ilegítimo, um parlamento divorciado dos interesses da população e  uma justiça que tem se revelado fora dos parâmetros da equidade “que no lugar de fortalecer o papel do Estado para atender às necessidade e os direitos do mais fragilizados, favorece os interesses do grande capital”¹.

Dessa Cidade de Aparecida, Nossa Senhora, Padroeira do Brasil, resgatada das águas de um rio, hoje poluído e degradado, nos faz eleger dentre os diversos apelos um compromisso particular com a Irmã Água. Deste modo, nos empenharemos na construção de um processo de reflexão e ação em defesa da água como bem comum, que se dará através da participação da família em jornadas, fóruns e nas iniciativas de fortalecimento dos trabalhos ligados à promoção da Justiça e da Integridade da Criação.

Tudo isso acontece, irmãs e irmãos, porque São Francisco nos ensinou que nos momentos mais difíceis de nossas vidas devemos voltar à Casa da Mãe. Ele e seus irmãos voltavam, com frequência, à pequena igreja de Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula. Nós voltamos ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, neste 300 anos de caminhada com os pequenos desta terra.

“Óh Mãe preta, óh Mariama, Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão, que é comunismo. É Evangelho de Cristo, Mariama!”, ainda assim, invocamos suas bênçãos sobre toda a nossa família e sobre um Brasil sedento de “Paz – fruto da justiça, do bem e da Misericórdia de Deus”.

Conferência da Família Franciscana do Brasil – CFFB

Um Comentário

  • É tempo de reconstrução. Voltar a Assis significa embuir_Se do Espírito do Evangelho, o Espírito de Deus a partir da Senhora Pobreza e caminhar a cada dia na fé, na esperança e no Amor. Deus é louvado por todos homens e mulheres que vivem e acreditam no Amor!

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