Reflexões em torno de Comunidades Eclesiais de Base. Eduardo Hoornaert

Não é unicamente um ‘facho iluminando a história’, é também, principalmente, um ‘facho iluminando o futuro’.

As CEBs renascem. Não morreram e não morrerão enquanto tiver gente que se sinta interpelada por Jesus de Nazaré.

Eduardo Hoornaert

Nesses dias caiu-me nas mãos um livro que revisita uma experiência de Comunidades de Base de trinta e sete anos atrás. O interesse do livro não está unicamente na qualidade dessa memória, mas igualmente nas considerações acerca das adaptações necessárias a serem feitas para adequar melhor as CEBs ao contexto que estamos vivendo hoje. Trata-se do livro CEBs, um facho iluminando a história, coordenado por Manoel Beserra Machado e Océlio Teixeira de Souza, publicado pela Imprensa da Universidade Regional do Cariri em Juazeiro do Norte, no ano 2016 (ISBN 978-85-65425-27-8). Resultado de um mutirão de pessoas interessadas nessa memória e que atuou desde 2012, este livro conta as peripécias de Comunidades católicas de Base (CEBs) que operavam na paróquia de Quitaiús, distrito do Município Lavras da Mangabeira, sul do Ceará, e em Grangeiro, município da região do Cariri, entre 1977 e 1980. A experiência foi bruscamente interrompida pela intervenção do Bispo em 1980 e, como se verifica ao longo da leitura do livro, é principalmente o trauma causado por essa intervenção que impulsionou as pesquisas e reflexões contidas neste livro. Daí um livro particularmente instigante, não só porque relata um projeto do passado por meio de depoimentos dos próprios participantes, mas porque descreve o método de trabalho seguido pelo Padre Machado, o principal protagonista da história. Apresentar o método significa elaborar um texto propositivo, voltado para o futuro, não um puro relato.

Em meu comentário vou me concentrar principalmente na parte do livro escrita pelo próprio Padre Manoel Machado, publicado nas páginas 59-76, que me parece um excelente vade mecum para quem se dispuser hoje em trabalhar numa Comunidade de Base. Apresento o tema em quatro pontos ‘metodológicos’: ‘descobrir as portas de entrada na vida do povo’; ‘manter contato com outras experiências no mesmo sentido’; ‘formar Comunidades de Base’; ‘lidar com a ‘guerra simbólica’ que esse tipo de trabalho acarreta consigo’. Termino com algumas observações, escritas pelo teólogo Francisco de Aquino Júnior, acerca da necessidade de se atualizar o método das CEBs nos dias de hoje.

  1. A primeira coisa a se fazer por quem quiser trabalhar numa Comunidade de Base de tipo popular, escreve Machado, é ‘descobrir portas de entrada na vida do povo’ (p. 60). Isso faz com que, por baixo de práticas católicas tradicionais, ele vai descobrindo ‘expressões culturais escondidas’. Sob práticas como a Renovação do Coração de Jesus, o Mês de Maio, os Beatos, as Irmandades de Penitentes, a Lapinha, a Festa do(da) Padroeiro(a), endêmicas na cultura católica da região e cujo acompanhamento é um dever para qualquer vigário católico, ele descobre elementos menos ‘católicos’ como a samba do coco, a quadrinha junina, a capoeira, o maculelê, o reisado, benditos e ‘incelenças’, desafios e outras expressões da literatura de cordel. O Padre Machado descobre essas formas ‘escondidas’ ao andar pelos campos ‘a pé, de garupa de bicicleta, a cavalo, quase nunca de carro’ (p. 60). Ela fica matutando: como direcionar essas práticas da cultura popular ao Evangelho? Para ele é um desafio, uma ‘constante preocupação’ (p. 61).
  2. Não é que Machado desconhece a cultura da região, que é sua terra natal. Mas ele entende que precisa redirecionar essa cultura. Como fazer? Ele procura luzes junto à rede de iniciativas comunitárias que, por volta de 1978, começa a se estender pelo Nordeste, concretamente em Iguatu (CE), Crateús (CE), Propriá (SE), Juazeiro do Norte (CE), Esperantinópolis (MA), Aratuba (CE), Ponte dos Carvalhos (PE), Morro da Conceição (Recife, PE) e mesmo na longínqua São Félix do Araguaia (TO) (p. 67). Ele entende que a experiência em Quitaiús e Grangeiro não pode ficar isolada, mas tem de estar em contato com o amplo contexto ‘intereclesial’ das CEBs. O mesmo cuidado faz com que Machado procure, na medida do possível, ficar em contato com a ACR (Ação Católica Rural) de Recife, com o ISPAC (Instituto de Pastoral Catequética) de Salvador (donde lhe provém sua providencial colaboradora Ana Rosa) e com o CEHILA (Centro de Estudos de História da Igreja) Popular, donde lhe chegam os cantos ‘Eu acredito’, ‘Eu sou roceiro’ e outros, provenientes dos Encontros de Poetas Populares organizados pelo referido Centro. Além disso, ele não esquece de ficar em contato com iniciativas populares na própria diocese do Crato e procura ficar informado do que se passa em Juazeiro, no Crato, em Aurora, Lavras e Cedro. Nessas procuras de colaboração e troca de experiências, ele entra em contato com duas Irmãs Cônegas de Santo Agostinho (Annette Dumoulin e Ana Teresa) que vieram de fora e resolveram fixar residência em Juazeiro para trabalhar a partir da devoção popular ao Padre Cícero. A Irmã Anne Dumoulin, que escreve seu testemunho no livro (pp. 104-114), atua até hoje na região do Cariri. Em suma, a experiência eclesial de Quitaiús e Grangeiro repousa sobre um entrelaçamento de iniciativas, decerto provisórias, passageiras e imperfeitas, mas cujo valor está na metodologia. É ela, precisamente, que nos interessa na leitura deste livro.
  3. Ao assumir as paróquias de Quitaiús e Grangeiro, Machado opta resolutamente pela formação de Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), o que implica, em primeiro lugar, num processo de descentralização da vida litúrgica. Em vez de atuar a partir da Igreja Matriz, o Padre se mete a organizar a vida religiosa do povo em torno das Capelas espalhadas pelo território. As Capelas, lugares tradicionais de reza e missa, passam a abrigar, entre outros, encontros de leitura bíblica. Acontece que ninguém da comunidade possui uma Bíblia. Machado tem de comprar uma boa quantia delas para poder iniciar o processo. Doravante, se contempla animadoras e animadores de comunidades andando com caneta, caderno e Bíblia na mão. O método da leitura bíblica praticada na CEB não consiste em tirar exemplos de narrativas bíblicas na linha da moral e dos bons comportamentos, mas num processo contrário:  parte-se, em primeiro lugar, da observação da vida vivida; num segundo momento consulta-se a Bíblia para ver o que ela tem a dizer sobre casos concretos da vida de hoje; finalmente parte-se para a ação. Ver, julgar, agir. É o método divulgado por Carlos Mesters e pelo CEBI (Centro de Estudos Bíblicos). Uns exemplos, tirados do texto de Machado aqui comentado: para fundamentar a opção pelo pobre se recorre a Lc 4, 16-21 (Jesus lê a Bíblia na sinagoga de Nazaré); para animar a vocação dos agentes de pastoral se lê Mc 1, 16-20 (Jesus chama os primeiros apóstolos); para dinamizar o serviço ao irmão se consulta Jo 13, 1-17 (lava-pés); para premunir os agentes diante de possíveis perseguições se recorre a Mt 10, 16 (ovelhas em meio de lobos). É assim por diante.

Insisto na novidade desse método de leitura bíblica, que constitui o âmago da experiência das Comunidades de Base. Ele contrasta vivamente com a leitura bíblica tradicional, multimilenária, praticada nas Igrejas por meio de sermões e catequese, segundo o método ‘alegórico’: a Bíblia se transforma numa coletânea de exemplos de vida correta, moralmente justificada. Seguindo Paulo Freire, o Padre Machado, sabendo que o povo não tem prática de leitura, muito menos de leitura bíblica, abandona a aproximação pela leitura e vai à procura de tradicionais experiências comunitárias populares, nem sempre religiosas, que ele encontra em suas caminhadas. Assim ele descobre, por exemplo, o ‘adjunto’ (mutirão), que consiste, conforme a definição do antropólogo Câmara Cascudo, ‘num trabalho cooperativo entre populações rurais, como broca de roçados, capina de plantações, reparos em paredões de açude, cobertura de casas de palha, transporte de madeira pesada. O mutirão é uma instituição social que atenua, corrigindo-os, os efeitos individualistas que a economia latifundiária imprimiu à vida rural brasileira’. Esse adjunto ou mutirão está assentado no compadrio, que é, mais uma vez nas palavras de Câmara Cascudo, ‘uma espécie de irmandade de auxílio mútuo, respeitosa intimidade e ligação espiritual inquebrantável’.  Aqui Machado se depara com uma experiência bíblica ‘sem letras’. Vale lembrar que o Padre Ibiapina, no século XIX, já trabalhava nesse sentido, pois assentava sua pastoral em adjuntos ou mutirões, como comprovam diversos episódios relatados na ‘Crônica das Casas de Caridade’ (Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, 2006). A partir do momento em que o Padre Machado consegue se entrosar nessa tradicional prática fraterna e evangélica, ele ganha grande autoridade, para além do âmbito da Igreja. Vira um ‘conselheiro do povo’, na tradição de Antônio Conselheiro, Padre Cícero e Padre Ibiapina (os três grandes cearenses). As pessoas lhe ‘tomam conselhos’. Aqui se abre um imenso universo, habitado por beatos e devotos, promessas e rezas, adjutórios, mutirões e missões, um mundo que para os de fora parece exótico e de certo modo impenetrável, mas que constitui o ‘sertão profundo’, em que só alguns penetram. A experiência do Padre Machado ganha os contornos de uma reviravolta na relação entre religião e vida vivida.

  1. Essa reviravolta faz com que apareçam, com o tempo, os primeiros sinais de uma‘guerra simbólica’ entre as Comunidades de Base e as estruturas políticas, sociais e religiosas tradicionais. A guerra religiosa é uma guerra que não se faz com armas de fogo, mas que é uma contenda no sentido da apropriação e conseguinte manipulação de ‘símbolos’, ou seja, de imagens e imaginações, festas, liturgias, devoções, práticas religiosas, usos e costumes. O que acontece quando a Comunidade de Base resolve assumir, por exemplo, a organização da Festa do(a) Padroeiro(a)? Os clássicos donos dessa Festa, que é o momento de maior concentração do povo e, portanto, uma oportunidade excelente para o poder local se manifestar ‘simbolicamente’, são os donos das terras. A Capela é construída pela ‘Família’ que controla o território, ou pelo menos financiada por ela. Os benfeitores, cada ano, contribuem generosamente para a Festa do Padroeiro, embora geralmente de modo discreto, já que isso lhes basta.

Contudo, no momento em que a Comunidade se organiza e passa a tomar conta da Festa, a estrutura política e social do local sofre um abalo, que pode se manifestar das mais diversas e inesperadas formas. Lembro-me do que aconteceu, por volta dos anos 1975, numa paróquia na zona açucareira de Pernambuco. Quando soube que, na procissão da Festa, o andor do Santo ia ser carregado por pessoas da comunidade e não mais por representantes da elite, o usineiro mandou pendurar notas de cinquenta cruzeiros (a moeda de então) no entorno do andor. Alguns dias depois, sem aparente motivo, o padre foi preso (era no tempo da ditadura militar) e passou uma noite na prisão sob a alegação de estar propagando o comunismo entre o povo. Logo foi solto, sem nenhuma explicação. Pois a guerra simbólica, por ser simbólica, não é reconhecida como tal, mas se disfarça sob os mais diversos nomes, entre os quais a ‘luta contra o comunismo’ foi um dos mais recorrentes na época da ditadura militar.

No caso de Quitaiús e Grangeiro, nem foi preciso que os donos da terra entrassem em campo, pois os donos qualificados do simbolismo religioso se encarregaram de fazer o ‘serviço sujo’. Na realidade os grandes proprietários de terra de Quitaiús e Grangeiro atuaram por trás dos panos, pois já vinham pressionando, desde muito, os bispos do Crato, Dom Vicente Matos e seu auxiliar, Dom Newton Gurgel.  Pelo que consegui colher na leitura do livro, foi por ocasião da visita pastoral do Bispo auxiliar do Crato à paróquia de Quitaiús que a guerra explodiu, aparentemente por motivos mesquinhos. Tradicionalmente, durante tal visita (que pode durar dias), o Bispo toma suas refeições na Casa Paroquial. Mas em Quitaiús, ele é convidado a almoçar na casa de um paroquiano, que faz questão de dizer, depois de se congratular com a presença do bispo, que os custos das comidas são arcados ‘pela comunidade’. É o suficiente: tomado por uma forte reação emocional, o Bispo coloca um bilhete de dinheiro em baixo de seu prato, vomita a comida (é pelo menos o que se conta) e se retira abruptamente. Segue-se uma sequência de fatos concatenados. Começa a circular o boato: as Comunidades são comunistas (pois nas letras de uma das canções aparece o nome ‘Cuba’); o Padre é removido da paróquia e recebe a incumbência de voltar ao seminário para estudar, o que não acontece (o Padre Machado é posteriormente acolhido na Diocese de Crateús); finalmente, as Comunidades de Quitaiús e Grangeiro recolhem cinco mil assinaturas e com elas fazem chegar ao Bispado um pedido de revogação dessa remoção. Forma-se uma Comissão representativa das Comunidades, que é recebida no Bispado no dia primeiro de setembro de 1980. O teatrólogo Oswald Barroso conta, em sua linguagem caraterística, o que acontece durante essa recepção: ‘seu Vicente Batista bateu a mão na bruaca e tirou uma Bíblia. Levantou e mostrou para eles. Disse: ‘então os Senhores acham que nós e o Padre Manoel somos comunistas. A culpa é desta aqui’. E mostrou a Bíblia’ (p. 101). O Bispo não cede e o diálogo fica interrompido. Para muitos, é o fim da experiência das Comunidades de Base em Quitaiús e Grangeiro.

Aqui peço licença para fazer uma breve incursão na história do cristianismo, que demonstra a importância histórica desse confronto, aparentemente corriqueiro, entre a autoridade eclesiástica e um grupo de ‘dissidentes’. No século IV, o Imperador Romano Constantino mudou substancialmente a

política da Igreja cristã, quando deixou de persegui-la e procurou atraí-la para as esferas do poder público. Alegres por sair de uma longa e penosa época de perseguição por parte dos poderes públicos, os bispos não ofereceram muita resistência diante da proposta do Imperador. Na realidade, eles deixaram a porta aberta para que o Império se apropriasse da Igreja e, o que é mais sério, do Evangelho, aceitaram de bom grado as benesses trazidos pela aliança com o poder político e deixaram Jesus preso nas mãos de um clero alinhado à política dominante, ao longo de muitos séculos. Eis o pano de fundo diante da qual se desenrola a história das Comunidades de Base em Quitaiús e Grangeiro. Elas rompem uma aliança multimilenária entre Igreja e Poder de Estado. São elas, mais que as palavras de um Papa ou de um Bispo, que mudam a Igreja e, para além da Igreja, prenunciam mudanças na sociedade, ao quebrar uma tradição multissecular de subserviência da população aos donos do poder. Elas carregam consigo a esperança de uma desvinculação entre o povo reunido e políticos representantes do sistema dominante. A velha aliança entre o poder religioso e o poder do Imperador, do Príncipe, do Rei, do Castelão, do Latifundiário, da ‘Casa Grande’, do Coronel, perde credibilidade e começa a ser desfeita.

  1. Nas páginas 147-150 do livro, o teólogo Francisco de Aquino Júnior, num texto intitulado ‘Um jeito antigo e novo de ser Igreja’, faz um vigoroso apelo para que não se fique com saudade de tempos passados, mas se renove a experiência das CEBs com ‘fidelidade criativa’, ou seja, com capacidade de adaptação aos novos tempos que estamos vivendo. Muita coisa mudou, nas sociedades, entre os anos 1970 e hoje. Francisco de Aquino aponta sete itens donde tira recomendações no sentido de uma adaptação criativa de experiências do passado.

– o atual ambiente rural não é mais o dos anos 1970-80. A mentalidade urbana penetra sempre mais no mundo do interior e dita novas normas de vida, costumes e comportamentos;

– desse universo urbano, em plena expansão, surgem fatores novos que extrapolam as possibilidades de atuação das CEBs: a violência, a droga, o extermínio da juventude, a corrupção, o descrédito na política, a falta de perspectiva na vida. Longe de condenar sem mais nem menos esses fatores, há de se fazer um esforço para compreendê-los e se situar criativamente diante deles. Senão, o trabalho das CEBs corre o perigo de se desvincular da vida realmente vivida na sociedade;

– além da urbanização progressiva, os grandes projetos agro-industriais, que criam agro-hidro-negócios, afetam definitivamente a vida no campo, trazendo agrotóxicos, monocultura, a criação de conglomerados políticos formados em torno desses negócios (o grupo do ‘boi’ no Parlamento, aliado aos grupos da ‘bala’ e da ‘bíblia’). No mesmo sentido se verifica uma falta de cuidado, por parte dos governos, com a agricultura familiar.

– novos problemas ambientais não faltam: venenos, destruição dos manguezais e de diversos biomas (o serrado, a zona da mata), contaminação e privatização das reservas de água;

– o descrédito diante da ação política e social vai de par com uma maior atenção a questões subjetivas. Questões de gênero, de orientação sexual, de homo-afetividade ou homofobia, de casamento gay, estão na ordem do dia. As questões sociais tendem a ficar num segundo plano, pelo menos nos meios de comunicação;

– cresceu muito, nos últimos decênios, a atenção pelo caráter emocional de nossa inteligência. Hoje, uma aproximação por demais racional tende a afastar os jovens, que preferem se reunir em torno de música, dança, beleza e expressividade corporal (tatuagem, trato do cabelo) que ouvir palestras e participar de discussões. É claro que nisso existe muita moda, mas o agente de pastoral tem de estar atento a essa tendência atual para não perder o contato com a juventude;

– florescem as comunidades virtuais, proporcionadas pelas redes sociais eletrônicas. A TV e a Internet substituem para muitos os antigos encontros comunitários ‘físicos’. Há como articular um neo-comunitarismo de base (a expressão é do teólogo argentino Juan Carlos Scannone, mentor do atual Papa) por meio de redes eletrônicas (face-book, whatsapp, twitter, blog), capazes de atingir muita gente, muito além da capacidade dos encontros tradicionais.

Entendo as observações do teólogo Francisco de Aquino Júnior na perspectiva de uma luta contra o envelhecimento das CEBs e um saudosismo inoperante. Elas estão alinhadas com ideia do Papa Francisco de que a história (o Papa fala em ‘tempo’) é mais importante que o conceito. O conceito sólido, definido uma vez por todas perde credibilidade nos dias que vivemos. Há um novo modo de encarar o mundo, que o filósofo polonês Zygmunt Bauman soube resumir num só adjetivo: ‘hoje tudo é líquido’. Efetivamente, uma maior flexibilidade na ideia de CEB se torna necessária, uma maior aderência ao que passa na vida social. A reflexão de hoje não pode ser a de 40 anos atrás.

É nessa linha que entendo as palavras da Irmã Siebra, de Crateús (onde o Padre Machado foi acolhido depois da crise com a do Crato): ‘Reafirmo minha admiração e meu empolgamento pela retomada da experiência das CEBs em Quitaiús’ (p. 133). As CEBs renascem. Não morreram e não morrerão enquanto tiver gente que se sinta interpelada por Jesus de Nazaré. Nas primeiras palavras deste comentário, escrevi que o interesse peculiar do livro em apreço está no fato que está voltado para o futuro. Não é unicamente um ‘facho iluminando a história’, é também, principalmente, um ‘facho iluminando o futuro’. Os participantes do mutirão que resultou nesse livro, e particularmente os dois coordenadores da edição, estão conscientes disso. Este livro constitui, a meu conhecimento, uma das mais instigantes publicações acerca das CEBs no Brasil. Por ser propositivo, não saudosista, por não ser acadêmico, mas imbuído de um sentimento de premência em relação ao futuro, compartilhado por todas e todos que trabalharam em mutirão para preparar esta publicação, e que não menciono aqui nominalmente.

 Fonte: eduardohoornaert.blogspot.com.br em 27 de agosto de 2017

Um Comentário

  • Océlio Teixeira de Souza

    É importante salientar que quando falamos de História não estamos falando apenas do passado, mas do tempo nas suas três dimensões: passado, presente e futuro.

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