Formação em São Felix do Araguaia- 500 anos de reforma. Pastora Romi Bencke

“ser ecumênico, em primeiro lugar, a gente precisa pensar e parar de pensar que nós somos donos da única verdade. Nós não somos donos da única verdade. Nós precisamos superar o exclusivismo de achar que nós somos melhores do que os outros”

Nas Comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante, pastora assessora uma Formação de Lideranças católicas em são Félix do Araguaia.

Entrevista Exclusiva ao correspondente Luis Claudio da Silva 

Entrevista realizada em são Félix do Araguaia, à beira do Rio Araguaia, com a pastora Romi Márcia Bencke, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, gaúcha, casada, primeira mulher a assumir a Secretaria Geral do Conselho Nacional das Igrejas Cristãs (Conic), é teóloga e mestra em Ciencias da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora – MG, que neste momento está assessorando a Assembleia das Comunidades Católicas da Prelazia de são Félix do Araguaia, considerando também as comemorações alusivas aos 500 anos da Reforma Protestante, com Martinho Lutero, a Pastora Romi nos concedeu uma entrevista.

Serão abordados 3 assuntos básicos: Campanha da fraternidade e Casa Comum, Ecumenismo e Laudato Si do papa Francisco.

REPORTER LUIS CLÁUDIO: Em 2000 foi a primeira Campanha da Fraternidade Ecumenica, onde o Conic tomou parte na organização, parece que a Igreja Batista participou também em 2016, com o Tema: Casa Comum nossa Responsabilidade e o Lema tirado do profeta Amós: “Quero viver o direito brotar como fonte e a justiça qual riacho que não seca.” Outro ponto interessante é que em 2016, Conic, CNBB e Misereor realizam uma Campanha da Fraternidade em Comunhão entre o Brasil e a Alemanha, a primeira do gênero. Bom, entre as Igrejas cristãs como tem sido a recepção das campanhas de Fraternidade em especial, essa campanha?

PASTORA ROMI: “Então, primeiro lugar, eu quero saudar as pessoas que estão nos ouvindo, dizer que é muito bom tá aqui nessa região do Araguaia, ouvindo e conhecendo as experiências das pessoas e também os problemas que essa região tem, em especial, com esse forte período de seca. Sobre a sua pergunta relacionada a recepção da Campanha da Fraternidade Ecumenica, a gente teve Assembleia do Conic no mês de agosto agora, onde a gente avaliou a experiência da Campanha do Ano passado; a experiência foi avaliada como muito positiva, a temática, as pessoas na maioria compreenderam que a temática é mais do que pertinente, que foi o tema do Saneamento Básico e com isso também o direito ao acesso a uma água potável, então, a temática foi uma temática fácil e boa pra ser trabalhada nas comunidades. A dificuldade que as pessoas apontaram foi ainda o baixo conhecimento do que significa trabalhar ecumenicamente. Não houve problema em relação ao tema, o que houve e que as pessoas identificaram e diagnosticaram foi que a nossa Caminhada Ecumenica, apesar de a gente ter muitas experiências positivas e fortes e concretas, ela ainda é uma caminhada muito incipiente. Então, há necessidade da gente aprofundar mais as nossas relações ecumênicas entre Igrejas. Em relação a Igreja Batista, nós tivemos a participação da Aliança de Batistas do Brasil, que é um conjunto de Igrejas Batistas que se identificam com a proposta ecumênica, então, essa Aliança participou da preparação da Campanha e aí como resultado concreto a Aliança de Batistas foi acolhida então como membro do Conic, então, como membros agora, nós temos seis Igrejas membro que fazem parte do Conic”.

REPORTER LUIS CLÁUDIO: É motivo de alegria saber disso, inclusive, em Ribeirão Cascalheira, lá existe uma experiência muito bonita de proximidade com a Igreja Batista, com o pastor Alex à frente. Foi motivo de tristeza quando a Igreja Metodista saiu do Conic, por causa do diálogo que a Igreja Católica Romana promove junto as religiões de matriz africana, embora permanecem grandes parcerias, como a pastora Nancy, assessora do Centro (ecumênico) de Estudos Bíblicos (Cebi) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT).

(foto: Papa, fonte internet)

Aproveitando a “ponte” que você faz, perguntamos: O que é na prática do dia a dia a vivencia cristã do Ecumenismo? Como ser Ecumenismo/a? Quais atitudes são Ecumenicas? Dom Maurício, bispo da Igreja Anglicana diz que é necessário pensar para além do quadrado das religiões, frase que inspira um pouco o Ecumenismo.

PASTORA ROMI: Exatamente, porque o Ecumenismo, na raiz da palavra ecumênico, tem a palavra oikósoikós é casa, então, o Ecumenismo significa a ‘Casa de Todos’. E a proposta ecumênica é uma proposta do diálogo que reconhece que as tradições de fé, as Igrejas de maneira geral, elas tem uma Missão, que é a missão de promover o Evangelho. E essa Missão a gente pode e deve cumprir juntos, afinal de contas, lá no Evangelho de João tá dizendo que nós precisamos ser um para que o Mundo todo creia. Agora, esse crer não tem haver com a mensagem de proselitismo ou de conversão de pessoas de outras tradições de fé que não sejam cristãs, fazer com que eles se tornem à força cristãos. Essa fase a gente já passou a muito tempo! Quando a gente fala que o Mundo creia e que o mundo creia no Projeto do bem, que seja um mundo de Paz, um mundo de Justiça, então, o Testemunho Ecumenico, ele tem de dar esse exemplo, ou seja, das Igrejas trabalhando juntas em favor de um Mundo mais coerente, mais próximo com aquilo que é a vontade de Deus, de paz, de justiça, de comunhão, de misericórdia, que é aquilo que diz lá nas bem aventuranças. Então, pra gente na verdade, ser ecumênico, em primeiro lugar, a gente precisa pensar e parar de pensar que nós somos donos da única verdade. Nós não somos donos da única verdade. Nós precisamos superar o exclusivismo de achar que nós somos melhores do que os outros. Em segundo lugar, não ter medo de ir em direção ao outro, de escutar sobre a História do outro, sobre a religião do outro, sobre a tradição de fé do outro. Compartilhar a experiência de crer em Deus. É isso que a experiência ecumênica nos coloca. Pra gente aprofundar essa vivencia, a gente precisa ter essa abertura, então, porque não ir lá um evangélico, um protestante, assistir uma missa católica, um católico assistir um culto protestante, orar em conjunto na Semana pela Unidade dos cristãos e cristãs que acontece em todo período de Pentecostes. Pensar em ações conjuntas, aqui a gente tá discutindo o tema da Laudato Si. Bom, o cuidado com o Meio Ambiente, é uma tarefa de qualquer Igreja. Então tem muitas coisas que podem nos aproximar e nos desafiar para trabalhar em conjunto.

REPORTER LUIS CLÁUDIO: A senhora como pastora, evangélica, em ambiente de comunidades católicas, na Prelazia de são Félix do Araguaia, como tem percebido a recepção a acolhida ao tema da Laudato Si e ao Bem Viver que tem sido abordado em suas colocações na Assembleia agora pela manhã?

PASTORA ROMI: Olha eu tenho sentido a recepção muito positiva, as pessoas tem trazido os principais conflitos de uma forma muito positiva que entram em contradições com as posições da Laudato Si, com a questão agrária, a destruição da natureza com a monocultura e também no final da manhã a gente fez uma discussão que apesar disso, tem experiências muito positivas que são coerentes com a Laudato Si, como a proposta de um desenvolvimento sustentável, mas, que quando a Prelazia coloca essa proposta, isso é visto como se a Prelazia fosse contrária ao desenvolvimento né. Então a gente ve na verdade, o que eu tenho, o que posso perceber é que existem aqui dois contrapontos muito interessantes pra serem aprofundados: uma perspectiva de desenvolvimento que é predatório, desrespeitador da natureza e dos Povos da terra que são os ribeirinhos, os povos indígenas e outra proposta de desenvolvimento mais respeitador do meio ambiente como tal. E isso é importante a gente ter em consideração. A Prelazia que tem uma História muito comprometida com a região, que é uma história de luta e de afirmação dos valores da terra, então, a gente fazer esse debate aqui é muito pertinente. Acho que a gente tem um desafio muito grande, a gente tem aí um Rio Araguaia sofrendo, sendo morto né, porque me mostraram o movimento dos jacarés morrendo na lama, enfim, eu acho que a Laudato Si ela é uma Carta que precisa ser colocada em prática e de novo eu digo, ser colocada em prática por todas as pessoas, independentemente de tradição religiosa.

 (foto: Rio Araguaia – Chico Machado)

REPORTER LUIS CLÁUDIO: Vamos todos cuidar dessa Casa, senão, não seria a Casa Comum, em que vivemos. Agradecemos profundamente, acreditamos que todos os que lerem vão gostar muito dessa nossa conversa. Agradecemos a oportunidade que a senhora nos proporcionou com essa Entrevista. Pesquisamos para a entrevista, um pouco sobre o Ecumenismo e um pouco sobre vosso trabalho desenvolvido ao Norte do País, em Rondonia. Luís Claudio, correspondente, em são Félix do Araguaia, para o site diretodanoticia.

(transcrição literal de entrevista gravada com a Pastora Romi, no dia 27 de outubro de 2017, durante a Assembleia Pastoral em São Félix do Araguaia, Mato Grosso)

Contribuição de Luis Cláudio

Fonte: Direto da Noticia

Fotos arquivo WEB

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *