Nas CEBs, leigas e leigos: profecia no Ano do Laicato Por Neli Almeida e frei Gilvander Moreira

A nossa participação, na Igreja e na sociedade, é fruto de um processo histórico. Celebrar o Ano do Laicato é mergulhar em uma longa história de vidas amadas, doadas, ceifadas, crucificadas, ressuscitadas.

 À luz do pedido do Papa Francisco, de fazer crescer “a consciência da identidade e da missão dos leigos na Igreja”, com o tema “Cristãos Leigos e Leigas sujeitos na “Igreja em saída”, a Serviço do Reino”” e o lema: “Sal da Terra e Luz do Mundo” (Mt 5,13-14), a Igreja Católica do Brasil celebrará o Ano Nacional do Laicato de 26 de novembro de 2017 – Solenidade de Cristo Rei – a 25 de novembro de 2018.

 A nossa participação, na Igreja e na sociedade, é fruto de um processo histórico. Celebrar o Ano do Laicato é mergulhar em uma longa história de vidas amadas, doadas, ceifadas, crucificadas, ressuscitadas. É como percorrer o caminho feito por um grande rio, caudaloso, banhado por outros rios, outros riachos e córregos. Este rio reaparece com Concílio Vaticano II, se espalha pela América AfroLatíndia e Brasil e segue banhando outros rios, mas também deixando-se banhar e, até mesmo beber de novas águas: conferências dos bispos da AL em Medellín, Puebla, Santo Domingo, e Aparecida. O Documento 62 da CNBB “Missão e ministérios dos cristãos leigos” é outro rio da grande bacia do protagonismo das leigas e dos leigos. O 14º Intereclesial das CEBs – Encontro Nacional – está chegando trazendo os clamores do mundo urbano.  “Eu vi e ouvi os clamores do meu povo e desci para libertá-lo” (Ex 3,7). Ver e ouvir são os primeiros passos da profecia, que exige conhecer por dentro a realidade dos superexplorados e com eles assumir o compromisso da Opção pelos pobres que alimenta as lutas libertárias.

Nas cidades empresariais, a especulação imobiliária e mil formas de opressão moem vidas como cana passada no engenho. Entretanto, é neste mundo violentador que, pela coragem e fé de mulheres e homens, profetizando nas comunidades, brota a esperança, fruto das lutas coletivas por direitos. Mesmo diante desse quadro gritante nos grandes centros urbanos e apesar da insistência dos documentos da Igreja em apontar o mundo como primeiro âmbito da atuação dos leigos, atualmente muitos padres e leigos clericalizados estão atraindo o povo para dentro das igrejas e deixando de ser sal, luz e fermento na sociedade.

Na Igreja há contradições com relação ao protagonismo leigo, principalmente em relação à atuação das mulheres.  O Concílio Vaticano II ressaltou o sacerdócio comum de todos os fiéis que pelo batismo se tornam profetas, sacerdotes e pastores/reis, porém, os pontificados de João Paulo II e Bento VXI alimentaram o clericalismo, o liturgismo e espiritualismos que atrofiam a dimensão social da fé cristã. O clericalismo marginaliza ou exclui as mulheres. Elas coordenam comunidades, pastorais, conselhos e abraçam os serviços da Igreja como leigas no sentido estrito de uma vocação.

“As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), constituídas no Brasil, desde 1960, assumem como centro a Palavra sempre em uma dimensão missionária que conduz ao engajamento nas lutas de transformação da sociedade na perspectiva do Reino de Deus. Outro espaço privilegiado de participação dos cristãos leigos é as Pastorais Sociais. Elas significam a solicitude e o cuidado de toda a Igreja missionária diante de situações reais de marginalização, exclusão e injustiça. A sua atuação deve ser profético-transformadora, indo além do assistencialismo” (CNBB, Doc. 105, 205)

                       Tanto nas CEBs como nas Pastorais Sociais, o protagonismo das mulheres é marcante. São mulheres profetisas que abraçam a luta em defesa da vida de forma concreta. Luta marcada pela indignação diante das injustiças sociais, mas selada pela ternura, coragem e perseverança.

            A igreja instituição deve um pedido de perdão às mulheres por ainda não serem ordenadas ou porque não se elimina o sacerdócio ordenado deixando somente o sacerdócio comum. Jesus, com seu jeito simples de testemunhar o Reino de Deus, quebrou a estrutura machista de seu tempo e deixou-nos o exemplo de igualdade e respeito às mulheres. Por isso elas estão presentes em toda caminhada de Jesus, desde a Galileia até Jerusalém, ao pé da cruz. Na Bíblia há “144 mil” mulheres leigas e profetisas. Os quatro evangelhos da Bíblia dizem havia mais mulheres do que homens seguindo Jesus e que Madalena, uma leiga, foi a primeira testemunha e anunciadora da ressurreição de Jesus.

            Outro desafio a ser considerado encontra-se também dentro da própria Igreja. Não são poucos os padres que tentam impedir e/ou não admitem o protagonismo leigo. Não podemos esquecer que “é para a liberdade que Cristo nos libertou” (Gl 5,1). Em suas comunidades, esses padres escolhem os leigos e as leigas que constituirão os Conselhos Pastorais e os Conselhos de Assuntos Econômicos, de forma a garantir a submissão e a concordância com suas imposições. Nessas comunidades, raramente se vê encontros de formação de leigas e leigos, e as Pastorais Sociais são inexistentes ou inexpressivas. E isso, infelizmente, muitas vezes tem o respaldo de bispos, pela omissão, negligência ou cumplicidade.

            Diante do clamor da Mãe Terra, da irmã água e com a inquietude cristã provocada pela crise que ameaça a vida em toda sua biodiversidade, leigas e leigos devem também assumir, com urgência, ações concretas inspiradas na Encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, e serem verdadeiras/os missionários/as  a anunciarem a “comunhão com a criação, a defesa da água, do clima, das florestas e  dos mares, como bens públicos a serviço de todas as criaturas”(CNBB, Doc. 105, 272).

 Leigas e leigos juntos, com alegria, coragem e espiritualidade libertadora fazem a diferença e devem seguir, com ousadia, construindo Uma Outra Igreja e Uma Outra Sociedade Possíveis e Necessárias: justa, democrática, profética, misericordiosa, inculturada, ecumênica, respeitosa da diversidade cultural e religiosa e em harmonia com nossa única Casa Comum.

 

Por Neli Almeida[1] e frei Gilvander Moreira[2]

 

[1] Assessora do CEBI e de CEBs em Minas Gerais; email: neliladalmeida@gmail.com

[2] Padre da Ordem dos carmelitas; licenciado e bacharel em Filosofia pela UFPR; bacharel em Teologia pelo ITESP/SP; mestre em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico de Roma, Itália; doutor em Educação pela FAE/UFMG; assessor da CPT, CEBI, CEBs, SAB e Ocupações Urbanas; professor de “Direitos Humanos e Movimentos Populares” em curso de pós-graduação do IDH, em Belo Horizonte, MG. e-mail: gilvanderlm@gmail.com  – www.freigilvander.blogspot.com.br –  www.gilvander.org.br  – www.twitter.com/gilvanderluis  – Facebook: Gilvander Moreira III

 

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