O 14º INTERECLESIAL DAS CEBs E O ANO DO LAICATO Dimensão Política e Salvífica da Opção pelo Pobres. Waldir José Bohn Gass

 “Quem vai acreditar na notícia que trazemos, na alternativa para a cidade que defendemos? Quem vai compreender que a força da mudança está nos pobres que lutam? Suas lutas crescem como tenros e frágeis brotos, quais raízes em terra seca. (…)

Aprofundar a dimensão política e salvífica da opção pelo pobres é mergulhar no desafiador mistério da experiência de Ressurreição do Crucificado e dos Crucificados da história que, em seu sofrimento, realizam o que falta à Cruz de Cristo. Reflexão que me remete ao 12 de maio de 2011, ocasião em que iniciou o reassentamento da Vila Chocolatão, então situada no Centro de Porto Alegre, próximo do majestoso prédio do Ministério da Fazenda e dos imponentes prédios da Justiça Federal do Rio Grande do Sul. Comenta um repórter de uma emissora de rádio da capital gaúcha: “Finalmente está sendo curada uma ferida no centro de nossa cidade!” Não sabe ele que aí está a possibilidade da cura da cidade, fazendo justiça, reconciliando-se com toda a sua gente.

Compartilhara, então uma reflexão, – “A Cura de uma Ferida da Cidade ou a Cura da Cidade”-, que fazia uma releitura do texto do Servo Sofredor (Isaías 53), construído e reconstruído no exílio, sob a opressão imperial: “Quem vai acreditar na notícia que trazemos, na alternativa para a cidade que defendemos? Quem vai compreender que a força da mudança está nos pobres que lutam? Suas lutas crescem como tenros e frágeis brotos, quais raízes em terra seca. (…) E a gente achava que eles eram uns castigados, gente por Deus ferida e massacrada. Estavam, na verdade, sendo esmagados pelas injustiças e crimes da nossa cidade. Porém, os seus sofrimentos são a possibilidade de cura para a cidade.”

No documento 105 da CNBB, Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade – Sal da Terra e Luz do Mundo (Mt 5,13-14), também tema e lema do Ano do Laicato, o capítulo III, ação transformadora na Igreja e no mundo, no ítem 1.1, que trata da Igreja pobre, para os pobres, com os pobres, se reafirma com o Papa Francisco o “vínculo indissolúvel entre a nossa fé  e os pobres” (EG, nº 48).  “Por isso ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social’ (EG, nº 201). E a missão é ir às periferias (fronteiras humanas e ambientais mais vulneráveis), assumindo solidariamente a luta pela construção de uma sociedade justa, solidária e pacífica: “Nenhuma família sem teto, nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem direitos, nenhum povo sem soberania, nenhuma pessoa sem dignidade.” Tudo motivadas/os pelos mesmos sentimentos de Jesus, tão bem expressos  por Francisco: “Quando olhamos o rosto dos que sofrem, o rosto do camponês ameaçado, do trabalhador excluído, do indígena oprimido, da família sem teto, do imigrante perse­guido, do jovem desempregado, da criança explorada, da mãe que perdeu o seu filho num tiroteio porque o bairro foi tomado pelo narcotráfico, do pai que perdeu a sua filha porque foi su­jeita à escravidão; quando recordamos estes “rostos e nomes” estremecem-nos as entranhas diante de tanto sofrimento e co­movemo-nos…” (cf. CNBB, Doc 105, nº 179-181)

Uma Igreja Pobre, com os Pobres e os Pobres Igreja, Povo de Deus

Compartilho a compreensão de Jon Sobrino, em seu livro A Ressurreição da Verdadeira Igreja, assumido na Conferência de Aparecida como o desafio de uma verdadeira Conversão Pastoral.

O que é necessário aprofundar é que a história de salvação passa indefectivelmente pelos pobres, que o Espírito de Jesus assume carne histórica nos pobres e que a partir deles se observa a direção que a história segundo Deus deve tomar. Para isso é necessário que os próprios pobres se deem conta de sua esperança, desde seu próprio mundo e em seus próprios termos, como Jesus de Nazaré.

Ele não disse, ao proclamar as bem-aventuranças: “Bem-aventurados vós, os pobres”, mas sim “Bem-aventurados nós, os pobres”. “Nós os que choramos, nós os que temos fome”. Jesus foi pobre, tão pobre como seus vizinhos de Cafarnaum aos que anunciou as bem-aventuranças. Jesus não foi uma espécie de mestre religioso que se “fez pobre”, que se disfarçou de pobre, para que os pobres o entendessem melhor, como um sinal da condescendência divina com os miseráveis. Esta ideia falseia a essência mesma da mensagem cristã, que afirma que Deus quis revelar-se de forma definitiva em um camponês pobre de Nazaré e que segue revelando-se na vida e nas lutas dos pobres.

Quando os pobres entrarem de fato na Igreja, ou melhor, se descobrirem povo amado de Deus, não só como sujeitos passivos, mas também como sujeitos ativos, com sua miséria e com sua própria fé e esperança e, quem com eles se solidariza se arriscar a ouvir a sua voz, a escutar sua fé e esperança, a aceitar que tem que aprender de suas práticas, então acontece o milagre.

 Uma Igreja que surge em solidariedade com os pobres, protestando contra sua pobreza material como expressão do pecado, lutando contra ela como expressão de libertação, e deixando-se afetar por sua pobreza e conseqüências, essa Igreja se constitui como Igreja dos pobres. Pois são os pobres que mantêm viva a pergunta sobre Deus, o reino de Deus, Cristo, o amor, a justiça e o pecado. São eles que propõe, em primeiro lugar, que toda a Igreja se ponha na periferia, na importância dos pobres, aos pés de um Deus crucificado, para alimentar a partir daí uma esperança cristã e propiciar a necessária eficácia da ação da Igreja.

O Ano do Laicato, as CEBs e por Nenhum Direito a Menos

            Chamadas/os, como cristãos leigos e leigas, a sermos fermento de santificação no seio do mundo, lugar da encarnação da Palavra de Deus no decorrer da história de ontem e de hoje, temos nas Comunidades Eclesiais de Base uma forma de vivência comunitária da fé, e inserção na sociedade, de exercício do profetismo e de compromisso com a transformação da realidade sob a luz do Evangelho (CNBB, doc. 105, 146). Mundo onde o sistema capitalista hegemônico é insuportável, como disse o Papa aos Movimentos Populares no seu encontro na Bolívia: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos E nem sequer o suporta a Terra, a irmã Mãe Terra. E por trás de tanto sofrimento, tanta morte e destruição, sente-se o cheiro daquilo que Basílio de Cesareia chamava “o esterco do diabo”: reina a ambição desenfreada de dinheiro.

Portanto, prossegue o Papa, precisamos e queremos uma mudança nas nossas vidas, nos nossos bairros, no vilarejo, na nossa realidade mais próxima; mas uma mudança que toque também o mundo inteiro, porque hoje a interdependência global requer respostas globais para os problemas locais. A globalização da esperança, que nasce dos povos e cresce entre os pobres, deve substituir esta globalização da exclusão e da indiferença. E indicou várias tarefas: A primeira tarefa é pôr a economia ao serviço dos povos. A segunda tarefa é unir os nossos povos no caminho da paz e da justiça. E a terceira tarefa, e talvez a mais importante que devemos assumir hoje, é defender a Mãe Terra.

Disse mais nosso Papa Francisco: Vós sois os semeadores das mudanças. O futuro da humanidade não está unicamente nas mãos dos grandes dirigentes, das grandes potências e das elites. Está fundamentalmente nas mãos dos povos; na sua capacidade de se organizarem e também nas suas mãos que regem, com humildade e convicção, este processo de mudança. Vós, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podeis e fazeis muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas vossas mãos, na vossa capacidade de vos organizar e promover alternativas criativas na busca diária dos “3 Ts” (trabalho, teto, terra), e também na vossa participação como protagonistas nos grandes processos de mudança nacionais, regionais e mundiais.

Estou convencido que o nosso lugar é inseridas/os nestas lutas, sem medo de nos ferirmos e enlamearmos, e aqui no Brasil significa assumir, com coragem e ousadia, a luta em Defesa da Democracia e por nenhum Direito a menos, porque a política é uma das formas mais elevadas da caridade, do amor.

                                                                                  Waldir José Bohn Gass

                                                     Da equipe de assessoria da Ampliada das CEBs-RS

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