Mídias, novas tecnologias e direito a comunicação – VER/JULGAR

 

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Tecnologia e Comunicação: Influências no ser e agir Humano

                                    

            A Tecnologia pode ser entendida como a capacidade de todo ser humano e de suas relações comunitárias em resolver as necessidades básicas de sua existência. Hoje o mundo esta numa gigantesca onda tecnicista que facilita o modo de viver das pessoas. E dentre elas o modo de tecer conexões com os outros seres humanos: a forma de lidar com a comunicação. E, como o avanço do conhecimento técnico é uma verdade que não podemos negar e que vem facilitando muito a vida das pessoas, podemos nos perguntar: Será que a ‘tecnologia’ tem nos ajudado a ser pessoas humanas melhores? Será que todas as pessoas, nos aglomerados urbanos ou nos rincões das realidades mais distantes, têm tido a mesma sorte com suas facilidades?

UM OLHAR SOBRE A REALIDADE DA TECNOLOGIA E DA COMUNICAÇÃO DESDE MUNDO URBANO:

A) Tecnologias: O desenvolver do potencial criativo – Quando passamos por uma grande avenida de uma cidade muito populosa nos impressionamos com a quantidade de coisas que somos capazes de produzir. Desde enormes edificações, fruto do avanço das engenharias até as minúsculas cápsulas de um medicamento desenvolvidas pela biomedicina. Ou, ainda, a gigantesca capacidade de um pequeno computador de mão que chamamos de “celular”, que dentre tantos potenciais técnicos, até faz chamadas telefônicas.

            É impressionante imaginar a gigante força do desejo humano em expandir os experimentos em todos os campos do saber. Com desenvolvimento do transporte, por exemplo, facilitamos o nosso ir e vir no mundo. Até mesmo aprendemos a voar graças ao avião. Com os meios de comunicação desenvolvemos tecnologias que ampliaram nosso modo de olhar, de ouvir e de nos conectarmos com o mundo. E cada vez as novas gerações estão ainda mais  abertas a este potencial: encantados com esta explosão de conhecimento operativo (saber mexer nas coisas), apresentam novos desafios. E por onde podemos ir?

 

B) O desafio da relativização da pessoa em detrimento da técnica: Todo este aprendizado e suas novas “parnafernálias” criadas pelo pensamento instrumental e científico trazem novos desafios e questionamentos: Se o crescimento tecnológico veio para ficar e ao mesmo tempo facilita o nosso novo de viver, também é inegável que suas facilidades não estão tão próximas assim de toda a população, e as melhores tecnologias são as mais distantes de maioria empobrecida, pois o império capitalista coloca tudo e todos no mesma engrenagem do mercado. Tem e usa ou acessa quem pode pagar. Logo, o avanço da técnica revela ainda mais a desigualdade entre as pessoas.

            Outra realidade que se apresenta com o avanço da tecnologia, refere-se ao crescimento da realidade virtual. Ao entrar num ônibus ou o metrô de uma cidade, observa-se que as pessoas estão mais conectadas com seu aparelho celular, do que com a outra pessoa que está a sua volta, pois distraem-se com os fones de ouvido, com o vídeo, conversam nos aplicativos virtuais, mas estão desconectas do mundo. Temos nossos corpos tão pertos, mas nosso pensamento fica totalmente afastado, deixando-se manipular pelo que não está mais próximo. Assim alienamos nossa vida do real deixando de acreditar em nós mesmos e não vemos os danos ambientais que isto provoca.

 

C) A comunidade serve de horizonte comunicativo saudável: Todo grupo humano, como nossas comunidades, que tecem relações de proximidade de corpos comunicantes e que se envolvem com a vida concreta, potencializam o desenvolvimento tecnológico de outra maneira quando visam trazer para junto de si tudo o que o afeta. Por isso, toda forma de comunicação, através de seus recursos e meios que estiverem ao alcance, é uma oportunidade transformadora de gerar laços afetivos em visto de um maior reconhecimento da individualidade humana. Pois, na concretude dos corpos ou virtualmente, não estamos sozinhos e nos envolvemos com as outras pessoas. Aí esta a potencialidade que devemos aprender com os avanços da atualidade, para não ficarmos isolados, mas nos comprometermos com os outros.

            Não podemos deixar de fazer a nossa parte para contrapor toda forma de alienação e isolamento das pessoas: seja por um aplicativo de um celular, por um informativo ou panfleto comunitário ou pelas ondas de uma rádio comunitária. O que mais importa para uma comunidade humana é garantir a sua proximidade de corpos comunicantes capazes de desenvolver afeto e interesse pelas vidas.

O MODO DE JESUS SE COMUNICAR:

A partir do que vimos sobre a realidade das novas tecnologias e seu desafios, vamos agora refletir qual foi a postura de Jesus nos momentos de comunicação, de diálogo, de enfrentamento com seus interlocutores e até mesmo adversários. A verdade é que Jesus foi um grande comunicador. Ele conseguia fazer-se entender. Ele conseguia seguidores e adeptos, também inimigos… Ainda que não houvesse o aparato tecnológico que dispomos hoje, Jesus foi um grande comunicador. Qual o seu segredo? A única fonte para fazermos uma releitura de suas possíveis falas e posturas são os evangelhos. Ainda que possam estar carregados de interpretações teológicas, possuem um núcleo histórico rico e confiável que pode guiar-nos neste difícil caminho de vislumbrar algumas pistas para as nossas comunidades seguirem neste complexo e emaranhado mundo urbano, cheio de possibilidades comunicacionais, mas também repleto de ciladas e de controvérsias sobretudo para os mais pobres.

Jesus sempre colocou o ser humano acima de tudo: da lei, do dinheiro, da religião, do poder e da política. O ser humano sempre foi a menina dos olhos de Jesus. Seus encontros sempre foram diferenciados, marcantes, envolventes. Não se esquivava.  Estava sempre cercado de pessoas, de gente, gostava disso e uma vez sozinho no Monte das Oliveiras, reclamou por seus discípulos terem-no deixado sozinho.  Podemos elencar três das muitas posturas e atitudes de Jesus quando estava com as pessoas para comunicar-se com elas.

A) O olhar de Jesus – Jesus olhava para as pessoas. Marcos é o evangelista que dá especial atenção ao olhar de Jesus. Seu “olhar” possui dois sentidos: olhar bem, com atenção, para alguém, fitar e olhar em volta, olhar para alguém/algo ao redor. Os dois revelam traços muito importantes da pessoa humana que foi Jesus de Nazaré. Ele olhava e via – cf. Mc 3,34; 5,32; 10,21; 19,26; 22,61.

B) O toque de Jesus – Jesus tocava as pessoas. Segurar, pegar pela mão, ajudar a um cego, uma pessoa doente a levantar-se – cf. Mc 1, 31; 5, 41; 8, 23; 9, 27. Punha as mãos para curar ou abençoar – cf. Mc 6, 5; 10, 16, de forma individualizada; punha os dedos nos ouvidos e as mãos sobre os olhos – cf. Mc 8, 23-25. Jesus não tinha receio em abraçar – cf. Mc 9, 36; 10, 16. As pessoas procuravam Jesus para serem tocadas e, consequentemente, curadas por seu toque – cf. Mc 3, 10; 5, 30s; 6, 56.

C) Os sentimentos de Jesus – A manifestação dos seus sentimentos tinha uma função, um objetivo: libertar o/a outro/a, fazê-lo/la sentir-se importante e amado/a porque, de fato, Jesus o/a valorizava. A cada um/a Jesus dispensava uma atenção, um olhar e um toque, sentia compaixão, manifestava misericórdia, enfurecia-se, chorava, lamentava-se, pedia companhia na sua solidão, teve medo, o que o difere de todos os outros, fazia com que as pessoas se identificassem com ele e se sentissem também diferentes, singulares, únicas.

            Ninguém como Jesus penetrou tanto no íntimo do/a Outro/a e deixou-se penetrar quanto Ele. Por isso sua forma de se comunicar é para nós modelo que pode nortear as nossas formas de comunicação. A modernidade trouxe consigo avanços que muito nos ajudam no nosso dia a dia. Mas não podemos deixar de perceber e constatar que no nível antropológico muitas perdas precisam ser resgatadas e tantas outras evitadas. Jesus é a Palavra comunicadora por excelência – cf. Jo 1,1-4.

Nós, criados à sua imagem e semelhança podemos encontrar parceria dialogante com Aquele que é a Palavra por excelência. Jesus foi para todos os que passaram diante dele, comunicação. Este é o nosso desafio: utilizar todo o potencial tecnológico que as novas formas de comunicação nos oferecem sem perder os traços humanos que nos caracterizam. Valorizar os recursos materiais colocados à nossa disposição sem reduzir ou minimizar o potencial afetivo que faz toda a diferença no uso das multimídias e que não o substitui. Enfim, lutar para que todos/as tenham acesso aos recursos multimidiáticos, sobretudo os mais pobres, sem que isso venha a ser contado como valor humano, mas sim como possibilidade de melhor comunicação e maior humanização.

CRIANDO POSSIBILIDADES:

Vejamos em nossas comunidades qual é o potencial tecnológico que as pessoas possuem e construamos estratégias de comunicação, como a produção recursos que ajudem a melhorar as pessoas, oportunizemos rodas de conversas, momento de bate-papo. No contato com adolescentes e jovens busquemos suas facilidade de explorar as tecnologias para aproximar a mensagem profética e transformadora de Jesus e de seu anúncio do Reinado de Deus. Os desafios não são apenas os meios com o qual nos comunicamos, mas o que desejamos comunicar. E nossas comunidades devem ser anunciadoras de boas notícias para a felicidade de todos/as.

 

 

Edson André Cunha Thomassim

Conhecido como Padre Edinho, fabn. Pároco da Rede de Comunidades São João Batista – São Leopoldo –RS. Diretor, roteirista e oficineiro teatral. Assessor para projetos de Comunicação Comunitária pela ONG Trilha Cidadã. Coordenador Estadual da Pastoral Carcerária do Rio Grande do Sul. Assessor das CEBs e da Pastoral da Juventude na diocese de Novo Hamburgo – Regional Sul 3. Diretor do Centro de Espiritualidade Padre Arturo – CEPA.

 

Maria Joaquina Fernandes

Doutora em Teologia pela PUC/RJ na área de sexualidade humana. Pós graduada em Bio ética pela Pontifícia Universidade Lateranense de Roma. Atua com formação as comunidades.

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