O desafio das juventudes – VER/JULGAR

 

VER

Dentre os cenários e sujeitos do mundo urbano que o 14º Intereclesial das CEB’s se propõe a dedicar estão as juventudes. Este Intereclesial possibilita também a dar espaço para debater os desafios das juventudes. Talvez você esteja estranhando o plural, mas é isso mesmo, juventudes. São varias configurações do que é ser jovem ou da condição juvenil.  Importante perceber a diversidade que nos torna Juventudes, compreendendo também que ser jovem no Brasil é lutar constantemente por ser reconhecimento e garantias enquanto sujeito de direitos. Ver a cidade não só como um espaço de socialização das juventudes, mas também como um espaço de construção e disputa por direitos, os quais são necessários para tornar a expectativa de vida das juventudes cada vez maior e melhor.

 

OLHANDO AS JUVENTUDES

Por vezes estamos tão acostumados/as com uma palavra que nem paramos para pensar melhor o que há por trás dela. Atrás da palavra juventudes está uma série de sujeitos que a vivem experiências semelhantes, mas também diversas, as quais fazem as juventudes serem marcadas por suas autenticidades, ousadia, coragem, desejo de liberdade, anseio por justiça, de construir um Brasil que os/as acolham, criatividade, bem como criticidade, desmitificação da realidade que vivem, são algumas das características que compõem a identidade dessas juventudes. As juventudes são, segundo Foraccchi (1977, p. 302) “ao mesmo tempo, uma fase da vida, uma força social renovadora e um estilo de existência”.

Podemos concordar com tal afirmação, uma vez que de acordo com o Estatuto da Juventude, Lei 12.852/2013, são tidos como jovens, indivíduos entre 15 a 29 anos. Desse modo sendo uma fase da vida, têm identidade forte, com coragem e ousadia para lutar pelo que realmente acreditam, mostrando ser uma força social renovadora, enfim, se expressão de diversas formas, utilizam linguagens, palavras que os identificam de acordo com o grupo social do qual fazem parte, apontando assim um estilo de existência.

 

JUVENTUDES E SUAS MARCAS

Existem marcos geracionais que caracterizam esta geração? Quais seriam? Ser jovem no mesmo momento histórico é fazer uma experiência geracional comum? Existem alguns traços comuns que caracterizam as diversas juventudes? Ser jovem no mesmo momento histórico é fazer uma experiência geracional comum. Existem alguns traços comuns que caracterizam as diversas juventudes.

Uma imagem construída por Novaes (2008, p. 44-8) é a do jogo de espelhos. Falar em juventudes seria falar de um espelho agigantador, que sinaliza as grandes marcas do século XXI. Assim, as juventudes refletem a sociedade e mostram os sinais que estão emergindo. No mundo contemporâneo, jovens se perguntam: “como assegurar um lugar no mercado de trabalho”? A realidade do desemprego e as inovações tecnológicas mudaram as relações que jovens estabelecem com o trabalho. A dificuldade de conseguir um emprego sinaliza que ninguém tem mais lugar garantido. Isso coloca boa parte de jovens fora do sistema de proteção do trabalhador/a assalariado/a, conforme Sofiati (2011, p. 39).

Acreditamos que também seja interessante trabalhar a cidade como um espaço de construção de sociabilidades, onde as juventudes constroem laços, acessam possiblidades, são excluídos de outras. Se as redes sociais diminuíram as distâncias. As cidades ainda são construídas de tal forma que nem todos/as jovens têm acesso aos bens da cidade, logo se mostra como não sendo para as juventudes em sua totalidade, percebendo também que muitas vezes, se estranha a presença de jovens das periferias em alguns espaços. Neste olhar de acessibilidade é preciso reconhecer o/a jovem como sujeito de direitos, como alguém que tem direito à cidade. O principal desafio das juventudes nas cidades é que elas sejam vistas como sujeito de direitos, protagonistas, ou melhor, autores, que constroem formas de resistirem e persistirem, diante de tantos desafios que lhes são postos cotidianamente, pessoas estas, que são construídas pelas cidades, mas que também as constroem.

 

CONCLUSÃO

Diante de tudo que está acima exposto, é correto afirmar que, num país diverso nada é mais bonito de ver do que os rotos, identidades e características diversas que formam as juventudes deste imenso lugar chamado Brasil. Grandes e muitos são os desafios que se colocam à frente dessas juventudes, às quais tentam superar a cada dia, mas é preciso encarar esses desafios, para isto faz-se necessário problematizá-los, compreender melhor, para que assim, possamos dialogar de forma horizontal e coletivamente pensar possíveis saídas para superá-los e seguir em frente, construindo um país que acolha todos e todas sem distinção alguma.

REFERENCIAS

Estatuto da Juventude, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/lei/l12852.htm, Acesso em 11 de Dez. 2017.

FORACCHI, Marialice M. O estudante e a transformação da sociedade brasileira. 2 ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1977.

GROPPO, Luís Antonio. Condição Juvenil e modelos contemporâneos de análise sociológica das juventudes. Última Década, Valparaiso, n 33, p. 11-26, dez 2010. Disponível em < http://www.scielo.cl/pdf/udecada/v18n33/art02.pdf >. Acesso em 20 Abr. 2015.

____________.  Juventude: Ensaios sobre Sociologia e História das Juventudes Modernas. Rio de Janeiro: DIFEL, 2000.

NOVAES, Regina. Trajetórias Juvenis: desigualdades sociais frente aos dilemas de uma geração. In: FERÉS, Maria José Vieira et al. Texto complementares para formação de gestores. Brasília: ProJovem Urbano, 2008. p. 42-52.

SOFIATI, Flávio Munhoz. Juventude Católica: o novo discurso da teologia da libertação. São Carlos: EdUFSCar: 2012.

____________. Religião e Juventude: os novos carismáticos. Aparecida: Ideias&letras, 2011.

TOLEDO, Joilson de Souza. Hermenêutica Bíblica da Pastoral da Juventude: Cenários e Aproximação a partir de Ex 3,1-6. Dissertação (Mestrado em Ciências da Religião) – Pontifícia Universidade Católica de Goiás, 2016.

 

 

JULGAR

Na Iluminação bíblica do 14º Intereclesial temos duas perspectivas em diálogo. O Êxodo, mais especificamente a vocação de Moisés, e a figura de Paulo e seus ministérios nos espaços urbanos. Que luzes eles trariam para pensarmos os desafios das juventudes?

Nossa iluminação bíblica (Ex 3,7) se encontra dentro do relato da vocação de Moisés (Ex 3,1-4,17). As cidades são os lugares onde as juventudes, ou melhor, cada pessoa jovem, é desafiada a ouvir a voz do Deus libertador (Ex 3,7) e construir seu projeto de vida. Como em meio a tantos projetos os jovens vão se fazendo sujeitos, fazendo escolhas e construindo trajetórias que gerem vida e esperança para eles mesmos e para os coletivos onde estão inseridos? Ser protagonista de um processo de libertação foi o que Deus pediu de Moisés. É o que pede as juventudes hoje. Nossas comunidades são lugares que anunciam esta certeza de fé? São lugares onde os jovens podem experienciar o Deus libertador e se engajarem em processos libertadores?

Paulo é uma pessoa da cidade, que sabe dialogar com a cidade. Reconhece não só as limitações que os espaços urbanos têm, mas também sabe aproveitar das possibilidades que eles apresentam (At 13,13-43; 16,11-15; 17,16-34). As juventudes e aqueles que estão envolvidos nas lutas por seus direitos devem reconhecer também quais são as “brejas”, as estratégias, as possibilidades para garantir os direitos, conquistas, espaços. Em muitas áreas e nas políticas publicas de juventude não é exceção, vivemos retrocessos na política brasileira. Quais são as possibilidades que estão ao nosso alcance? Quais projetos e alternativas podemos construir?

Paulo fez seu caminho formando comunidades, formando lideranças locais, acreditando no potencial das pessoas. Para se trabalhar com os desafios das juventudes no mundo urbano, é preciso que acreditemos na força dos coletivos, dos espaços de diálogo, dos grupos. Formar, animar e acompanhar grupos, são um dos caminhos importantes. Grupos dentro e fora das comunidades, grupos voltados à vivência eclesial e à transformação social. Paulo deixou no seu rastro uma rede de comunidades. Quais coletivos juvenis apoiamos? Que lugar as pastorais da Juventude (PJ, PJE, PJMP, PJR) têm em nossas comunidades? Como estamos em nossas comunidades?

Também nós devemos acreditar que as juventudes tem muito que contribuir na igreja e na sociedade, esta contribuição não se dá apenas com as juventudes participando de espaços com as várias gerações, causas e segmentos, mas também em formar grupos de jovens, coletivos juvenis onde a partir de seu protagonismo os/as jovens possam construir trajetórias felizes, libertárias e libertadoras para si mesmo e para os espaços onde vivem. Vale ressaltar que essas construções vêm das percepções e impressões que as juventudes têm das realidades as quais estão inseridos. A participação dessas juventudes, dentro dos espaços eclesiais e sociais é de grande importância para as construções, fortalecimentos e transformações, que tanto almejamos. Que espaços de fato, enquanto jovens, nos sentimos confortáveis a destacar o que nos incomoda? Em que momentos nos permitimos aproximar do Deus libertador? São questões que podemos problematizar, para melhor refletir, pensando em maneiras de coletivamente construir um pouco do Reino de Deus aqui na terra.

A vivência da fé, nos ajuda significativamente a ver o outro e a outra, como irmãos e irmãs, desse modo devemos também perceber que a necessidade do outro/a também é a nossa necessidade, que a dificuldade do outro/a é a nossa dificuldade, enfim, é preciso ver Deus no outro/a, amar nossos irmão e nossas irmãs, para que assim possamos nos unir, nos fortalecendo na fé. Desse modo é possível não só refletir sobre os desafios postos, mas pensar em maneiras de superar cada um deles, irmanados pelo amor de Deus.

 

 

Rúbia Nascimento

Pastoral da Juventude do Meio Popular, graduanda em Ciências Sociais  pela UFAL-AL.

 

Irmão Joilson de Souza Toledo

Assessor da Pastoral da Juventude na Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, Vila Velha/ES, mestre em Ciências da Religião pela PUC/GO.

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