Os desafios da mobilidade/transporte e locomoção – VER/JULGAR

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[EM CONSTRUÇÃO]

 

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Nós nos movimentamos porque o movimento é parte integrante do que somos. O desejo de nos movermos vem desde o nascimento, passando pelo crescimento, onde estamos e vivemos e até o momento da nossa morte. É quando nos movemos que criamos relações, encontramos outras pessoas e também somos encontrados pelos nossos irmãos e irmãs.

O Deus revelado pela Bíblia é movimento, não é estático. Por isso, Ele vem até nós e nos visita (Gn 21,1; Ex 3,16; 4,30; Lc 1,68.78; 7,16). É um Deus que caminha conosco fazendo história em nossa história. E nós, seres humanos, somos imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27), por isso também nos movemos, caminhamos, visitamos… Os motivos pelos quais as pessoas ou grupos humanos se movimentam e se deslocam de um lugar para outro são tantos. Alguns movimentos são positivos e outros negativos. Assim como Abraão que partiu ouvindo o chamado de Deus (Gn 12,1-3), as pessoas se movem em busca de sonhos e realizações. Hoje no mundo percebemos grandes grupos humanos que precisam se deslocar, sair de suas terras, por causas das migrações causadas pelas guerras, catástrofes da natureza ou interesses de grandes grupos econômicos. Muitas pessoas perdem a vida nestes deslocamentos. O atual modelo provoca migrações de populações, geralmente as mais pobres, que acabam nas periferias das grandes cidades formando cinturões de miséria (Documento de Aparecida 58).

No mundo das cidades modernas, diariamente multidões se deslocam de suas casas para o local de trabalho ou em busca do trabalho. Este é seguramente o principal motivo da mobilidade e dos deslocamentos urbanos. Por isso, deveria ser algo gostoso e bonito, ir em busca do pão de cada dia e do sustento da família, encontrar-se com os companheiros e ver realidades diferentes.

No entanto, quais as condições são dadas a quem necessita se deslocar? A precariedade marca o mundo da mobilidade humana, sobretudo se olharmos para a população mais pobre que é obrigada a morar longe do local de trabalho, nas periferias das cidades. A realidade que constatamos é esta: ônibus lotados, poucos horários, pessoas tendo que viajar em pé, horas de espera, pontos sem proteção, linhas que passam distantes de onde o povo mora, preços absurdos das passagens, etc. O povo sofre para ir ao trabalho e para retornar para casa. O tempo que se perde no trânsito é tempo que poderia ser aproveitado para a vida em família, para o descanso e lazer ou para outras atividades.

Os donos dos meios de transporte geralmente são privados e o objetivo principal é obter lucros. Assim, boa parte do salário dos trabalhadores é subtraída do “pão nosso de cada dia” e destina-se a pagar o transporte. Se é assim duro para o trabalhador, mais ainda é para as pessoas desempregadas, aquelas que precisam se deslocar à procura do trabalho.

De outro lado constatamos que o modelo de organização das cidades favorece o transporte individual que gera longos engarrafamentos e aumenta a poluição das cidades. O acentuado número de motocicletas, com modelos que não proporcionam segurança, é outro grave problema que torna a mobilidade perigosa. Os órgãos públicos não facilitam a construção e uso de ciclovias, o que seria um transporte mais seguro e menos poluente. Dura também é a realidade dos pedestres, devido à falta de passarelas, sinalização ou respeito por parte dos motoristas. Tudo isso provoca acidentes que causam mortes, ceifam vidas e deixam tantas pessoas feridas, como se pode comprovar pelas estatísticas oficiais.

Movimentar-se nas grandes cidades torna-se um sofrimento para o povo. As multidões que se espremem e se esmagam nos coletivos, trens, metrôs ou a pé fazem com que a vida dada por Deus perca a sua dignidade, torna-se vida sofrida e amarga. Por isso, é de dentro desses meios de transporte superlotados que sobe até Deus o mesmo grito de dor como aquele clamor do povo na escravidão do Egito. Nosso Deus ouve este grito, vê esta realidade dramática, conhece esta situação (Ex 3,7-8).

Na dura escravidão do Egito, a vida do povo tornou-se “dura e amarga” (Ex 1,11.14). O povo queria caminhar ao deserto e celebrar e foi impedido pelo faraó (Ex 5,1-5). Os opressores, além de impedir o povo de movimentar-se, aumentaram a dureza do trabalho e ainda afirmavam que os hebreus “são uns preguiçosos” (Ex 5,9).

No entanto, Deus cumpriu as suas promessas e libertou o povo, caminhou e fez caminho pelo deserto, rumo à libertação, em direção à Terra prometida. A caminhada pelo deserto não foi tão fácil assim. Surgiram obstáculos: o mar para ser atravessado (Ex 14,1-31), sede e falta de água (15,22-27; 17,1-7), fome e falta de alimento (16,1-36), inimigos (17,8-16), divisões internas e falta de lideranças (18,1-27); gente que queria voltar atrás com saudade das cebolas do Egito (Nm 11,4-6; 14,1-4). Diante de todos estes obstáculos da caminhada, Deus esteve presente ajudando o povo a solucionar e continuar rumo à Terra Prometida.

No Novo Testamento, vemos que Jesus gostava de movimentar-se; caminhava, percorria cidades e povoados. Com ele seguiam seus discípulos e também o grupo das mulheres (Lc 8,1-2). Na época de Jesus não havia os meios de transporte de hoje. Jesus ia ao encontro das pessoas, tinha compaixão diante das suas dores e sofrimentos (Mc 6,34), sempre atento aos caídos à beira do caminho (Mc 10,46; Lc 10,30) e assim as caminhadas passaram a ser lugares de encontro, convivência e partilha. Jesus se revela como o caminho (Jo 14,6). Diante dos discípulos de Emaús, que caminhavam tristes, Ele se inseriu na caminhada, tornou-se companheiro e transmitiu a esperança e a coragem (Lc 24,13-35). Assim, nós hoje podemos afirmar que “caminhamos na estrada de Jesus”, porque temos a certeza que Ele também caminha conosco.

O Apóstolo Paulo e seus companheiros levaram a boa notícia de Jesus ao mundo das grandes cidades andando a pé, a cavalo, de navio e outros meios da época (ver perigos das viagens 2Cor 11,23ss). E assim o Evangelho espalhou-se até os confins da terra (At 1,18).

A mensagem do Evangelho e a proposta do Reino que Jesus anunciou tinham um objetivo: “que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). Isso nos desafia a olhar sobre o mundo do caos do transporte das grandes cidades marcado pelas superlotações, engarrafamentos, trânsito violento que causa mortes, deixa feridos e provoca poluição, stress e outras doenças.

As CEBs são desafiadas hoje enfrentar e exigir respostas para o problema da mobilidade urbana: criar mecanismos de luta, organizar a população para lutar por um transporte mais digno, por investimentos públicos, fim dos monopólios e que o transporte não seja fonte de lucros, mas prestação de serviço público. É diante desta realidade que nós cristãos somos chamados a “atuar à maneira de fermento na massa para construir uma cidade temporal que esteja de acordo com o projeto de Deus” (Documento de Aparecida 505).

 

Claudio de Oliveira Ribeiro

Possui formação em Teologia. O doutorado (2000) e o mestrado (1994) em Teologia. Tem experiência docente e de pesquisa, atuando principalmente nos seguintes temas: pluralismo religioso, teologia e cultura, antropologia teológica, cristologia, ecumenismo, pastoral popular, eclesiologia, pneumatologia, ciências da religião e direitos humanos. Tem experiência na área de assessoria à comunidades eclesiais de base e organismos ecumênicos. Vice-presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação em Teologia e Ciências da Religião (Anptecre).

 

Frei Ildo Perondi

Frei Capuchinho. Mestrado em Teologia Bíblica pela Universidade Urbaniana de Roma e doutorado em Teologia Bíblica na PUC/RJ. É professor de Sagradas Escrituras na PUC/PR campus Londrina. Assessor das Cebs.

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