Há sentido falar e investir nas CEBs hoje?

A opção pelos pobres não é ‘algo do passado’ ou ‘coisa da teologia da libertação e das CEBs’, mas ‘uma forma especial de primado na prática da caridade cristã’.

Devemos ser sinais de vida e esperança e o seremos na medida em que nos comprometemos com os pobres de ontem e de hoje.

Devemos ser sinais de vida e esperança e o seremos na medida em que nos comprometemos com os pobres de ontem e de hoje. (CEBs do Brasil)

Por Antônio Ronaldo Vieira Nogueira*

É costume ouvir nos dias atuais que na Igreja não há mais lugar para as Comunidades Eclesiais de Base, que a teologia da libertação passou, que opção pelos pobres é coisa da TdL e das CEB’s etc. Tal tipo de pensamento ou afirmação corre o risco de pensar a Igreja como um espaço em que só se fala e se faz o que “está na moda”. Mas sabemos que não é assim. A Igreja é a continuadora da missão de Jesus Cristo e, como tal, é a responsável por transmitir a todas as gerações a revelação de Deus, sempre nova e atual, em todos os tempos e lugares. Essa revelação presente na Escritura e na Tradição da Igreja, como nos recorda a Dei Verbum (n.08), faz com que a Igreja progrida sempre na profundidade da experiência e conhecimento de Deus.

Essa experiência nos leva a perceber que “no coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres, tanto que até Ele mesmo ‘Se fez pobre’ (2Cor 8,9). Todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres” (Evangelii Gaudium, n.197). Assim, a opção pelos pobres não é “algo do passado” ou “coisa da teologia da libertação e das CEB’s”, mas “uma forma especial de primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja” (João Paulo II, Sollicitudo rei socialis, n.42) e, como nos recorda Francisco, “para a Igreja, a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica. […] Por isso, desejo uma Igreja pobre e para os pobres” (EG 198). O patrimônio da mais genuína Tradição da Igreja e assumido pelas CEB’s, não é algo do passado, mas algo sempre novo, interpelador e desinstalador. Essa opção é a marca do modo de ser, de viver e de atuar das Comunidades Eclesiais de Base e, por isso mesmo, também elas não são algo do passado, mas sempre vivas e atuantes, são o modo próprio de ser da Igreja.

Isso foi reconhecido pelos Bispos do Brasil há alguns anos: “fenômeno estritamente eclesial, as CEBs em nosso país nasceram no seio da Igreja/instituição e tornaram-se ‘um novo modo de ser Igreja’. Pode-se afirmar que é ao redor delas que se desenvolve, e se desenvolverá cada vez mais, no futuro, a ação pastoral e evangelizadora da Igreja” (Documento 25, n.03). As CEB’s não são, portanto, um grupo da Igreja, mas o modo como a Igreja vive sua vida e missão, como continuação da vida e missão de Jesus Cristo, no serviço aos pequenos, aos últimos, aos que ocupam lugar especial no coração de Deus e que, portanto, devem ocupar também o centro de nossa reflexão, vida, missão. Isso não é coisa do passado, mas algo perene na vida da Igreja, expressão da autenticidade de sua missão.

A pergunta que intitula essa reflexão é feita por muitos, por críticos e, muitas vezes, por alguns militantes das CEB’s. Se hoje se fala disso como algo do passado ou que está em crise e, em muitas situações, até causa certa sensação de uma luta que não vê o alvorecer de novos dias e causa certa desesperança, então precisamos voltar às origens para recuperar o vigor, retomar a caminhada e não desanimar.

As CEB’s surgiram num período florescedor na vida da Igreja pós-Vaticano II e muito complexo na América Latina com o início das ditaduras. A Conferência de Medellín, cujo aniversário de 50 anos estamos celebrando, afirmou que a comunidade eclesial de base é “o primeiro e fundamental núcleo eclesial […] célula inicial da estrutura eclesial, foco de evangelização e fator primordial da promoção humana […]” (15, III, 1a). Essa articulação primordial e fundamental da base que forma comunidade em torno da Palavra, da vida fraterna, da celebração e da transformação do mundo de acordo com a vontade de Deus é o modo de ser mais autêntico daqueles e daquelas que são os discípulos de Jesus. É desse modo que aparece o retrato das primeiras comunidades: “Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações” (At 2,42); e ainda: “entre eles ninguém passava necessidade” (At 4,34). Foi essa articulação que permitiu à Igreja viver o Evangelho em tempos de perseguição como em seus inícios. Foi também essa articulação de base que permitiu à Igreja da América Latina ser sinal profético do Reino de Deus em meio às ditaduras que se instalaram nesse continente. No meio das situações de opressão, miséria, negação de direitos e dignidade, as CEB’s foram o motor propulsor do profetismo e da luta por vida e dignidade tal como foi a vida de Jesus. Dessa luta, muitos tombaram: são os mártires da caminhada. Mas tal como na Igreja antiga, o sangue dos mártires regou as sementes de novos cristãos comprometidos na luta pela justiça: “bem aventurados sois vós quando vos injuriarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por causa de mim”, disse Jesus (Mt 5,11); “se me matarem, ressuscitarei na luta do meu povo” disse Dom Oscar Romero; “se me matarem e vocês continuarem a minha luta, morro feliz” disse Zé Maria do Tomé, líder comunitário e ambientalista cearense.

Sem dúvida, a situação atual exige renovado compromisso com o Evangelho. São muitas as negações de direitos, de dignidade, de vida, especialmente dos pobres. Nesse contexto de miséria e opressão, em que muitos preferem se calar, precisamos continuar a viver o profetismo com novo ardor, pois “se calarem a voz dos profetas, as pedras falarão”. Mais do que nunca as CEB’s tem um papel fundamental para que a articulação das pessoas e comunidades em torno da escuta da Palavra, da comunhão fraterna e igualdade de direitos e dignidade e o compromisso libertador se tornem realidade e tenhamos a coragem de sermos as testemunhas e os continuadores da missão do profeta de Nazaré. Devemos ser sinais de vida e esperança e o seremos na medida em que nos comprometemos com os pobres de ontem e de hoje.

Se na abertura do Concílio Vaticano II, João XXIII denunciava os “profetas da calamidade” para os quais o mundo era uma ameaça à Igreja, hoje precisamos não dar ouvidos e denunciar os mesmos tipos de falsos profetas para os quais as CEB’s “estão se acabando”, “não têm a mesma influência dos anos 80”, “são coisa do passado”, “não têm relevância”. Isso não é verdade. Tendo em vista o que Jesus diz sobre os cristãos no mundo (“vós sois o sal da terra” (Mt 5,13), podemos dizer que as CEB’s são como o sal. O sal não serve para si mesmo, mas para dar gosto a outra coisa que não ele mesmo. Além disso, não se põe numa quantidade de comida igual quantidade de sal. Do mesmo modo, as CEB’s não exercem sua missão para si mesmas, mas para o mundo, numa atitude de diálogo e mútua colaboração para transformação socioestrutural, à luz do Evangelho, segundo a vontade de Deus, no mundo da justiça, da fraternidade, da solidariedade. E onde houver um cristão consciente ou um homem e mulher de boa vontade que se irmanam na solidariedade, na luta pela justiça e na criação de estruturas de fraternidade e comunhão, onde houver um só que esteja criando espaços de diálogo, de partilha e de humanização, onde houver um que resiste aos que negam vida e dignidade aos pobres, aí está a pitada de sal que transformou tudo, que deu gosto a tudo. Onde houver um cristão assim ou um ser humano assim, aí está o coração das CEB’s, aí está acontecendo o jeito de ser da Igreja comprometida com Jesus Cristo. Na fidelidade a Ele e aos pobres que ocuparam seu coração, sua vida e missão, o trem não vai diminuir seu ritmo, o trem não pode parar, o trem não vai parar!

*Antônio Ronaldo Vieira Nogueira é presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte; Mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE – Belo Horizonte/MG) e professor de Teologia na Faculdade Católica de Fortaleza (FCF).

Fonte: www.domtotal.com

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