Qual a importância da participação dos jovens no Intereclesial? Reflexões das CEBs Tianguá

Ainda sobre estes jovens, é necessário destacar acerca de suas experiências de vida nos respectivos espaços em que estão inseridos na sociedade, para podermos compreender melhor sua experiencia de fé, de compromisso com o Deus de Jesus e com seu projeto de libertação.

Dos 10 (dez) delegados da diocese de Tianguá para o 14º Intereclesial das CEBs, em Londrina, no Paraná, 05 (cinco) eram Jovens. Ou seja, a metade da delegação diocesana, sendo 03 (três) mulheres e 02 (dois) homens. Jovens com visível dedicação e engajamento pastoral em suas comunidades comprometidos também com os espaços diocesanos e de âmbito Regional de articulação das CEBs e das juventudes. Mas, ressalta-se: acima de tudo eles estão comprometidos com a base, na comunidade, construindo as relações necessárias correspondentes aos anseios da Igreja e do Evangelho de Jesus neste momento histórico que atravessamos, sob a orientação do Papa Francisco, em comunhão com seu projeto de “Igreja em saída”.

Para podermos compreender melhor suas experiências de fé, de compromisso com o Deus de Jesus e com seu projeto de libertação, se faz necessário destacar acerca de suas experiências de vida na sociedade; jovens pobres de periferias do universo urbano e rural. Garotos que nesta geografia urbana, desde cedo, foram obrigados a conviver com típico preconceito conta quem é filho de mãe solteira, negro e pobre. Garotos que cresceram tendo que suportar várias angustias no coração, dentre elas a de não conhecer o próprio pai, e que precisaram desde cedo trabalhar para ajudar no sustento da casa, e que nas horas de descontração e interação social com os demais meninos do bairro, frequentemente, recebem abordagem policial humilhante, arrogante e preconceituosa, lamentavelmente própria da atuação policial na periferia.
É preciso considerar ainda que, dada as convenções sociais, a periferia concentra o maior índice de violência da cidade: assassinatos, violência contra as mulheres, contra os homossexuais, tráfico de drogas, alcoolismo, falta de emprego e de infraestrutura.

Já no espaço comunitário rural, muitos dos nossos jovens cresceram na experiência da luta campesina pela conquista de terra, para poderem plantar, produzir o alimento e construir suas moradas, embalados pela consciência da organização popular e sindical, que outrora em nossa diocese foi algo muito forte e determinante para se conseguir, com muita luta e sofrimento, avanços na dignidade das famílias. São jovens que não passam despercebidos pela voracidade do preconceito de quem vive no centro urbano sendo dominado pela lógica burguesa e capitalista, que afirma ser inferior os que moram nas zonas rurais.

Somando-se a tudo isso, temos o fato de que a realidade ainda é muito pior para as mulheres, diante da cultura machista e patriarcal predominante neste contexto de mundo. São garotas, meninas, mulheres, que precisaram e precisam ressignificar, diuturnamente, valores dentro de uma conjuntura que lhes é absolutamente indiferente, sem oferecer expectativas de reconhecimento da integralidade do ser mulher, com a devida valorização e respeito pelo corpo feminino, numa cultura erotizada, que banaliza a mulher e que alimenta com normalidade o estupro e a prostituição.

Apesar de tudo, são jovens que conseguiram cursar o ensino superior e que ainda vivem na acadêmia e no ensino tecnológico.

Em rápida observação, sem desconsiderar outros aspectos, este é o perfil básico de nossos jovens delegados, que participaram do 14º Intereclesial das CEBs.

Agora, para tentar responder a pergunta inicial, se faz necessário entender também a realidade eclesial comunitária em que eles vivem. Para isso, se faria necessário também dedicar um pouco mais de tempo sobre as questões globais de nossa Igreja e sociedade. Porém, creio que uma sintética apresentação do panorama poderá ajudar a encontrar a resposta. Vejamos: nossas comunidades, com raras exceções, não são tão genuínas no que diz respeito a eclesiologia fundamental das CEBs. Existe um distanciamento claro de alguns valores centrais da razão de ser CEBs. Por exemplo, é difícil nos dias atuais encontrarmos uma comunidade que paute suas ações pastorais mediante uma leitura critica de sua realidade socioeconômica, cultural e politica, confrontando-a com as páginas do Evangelho, para iluminar sua ação missionária nas questões de moradia, segurança pública, infraestrutura, saneamento básico, ambientais, drogas, fobias, intolerâncias, depressão e outros.

O fraco resultado das campanhas da fraternidade, incentivadas pela própria CNBB, dão conta desta realidade elencada em uma das urgências da Igreja no Brasil. Ou seja, nossas comunidades se distanciaram da necessidade pastoral de unir “fé e vida”. Por outro lado, se abriram ao exacerbado sentimentalismo religioso, alimentado pelo discurso conservador amplamente propagado pelos meios de comunicação católicos: rádios e TVs – isso sem falar nas redes sociais da internet. E vale ressaltar: há bastante tempo estes veículos de comunicação vem substituído gradativamente a formação do nosso povo na base, apresentando relances de cultura religiosa, sem objetivo algum, incapazes de subsidiar com legitimidade a organização pastoral da comunidade. Perguntamos: qual o espaço que a Doutrina Social da Igreja ocupa nestes veículos de comunicação? Naturalmente, da forma como se encontra o cenário, a comunidade sequer saberia definir a própria existência.

Podemos dizer que a Comunidade se desprendeu da doutrina social e, sendo assim, passa a ter enormes dificuldades de se inserir no século XXI e de compreender e lidar com a fenomenologia da comunicação virtual/ tecnológica, com suas linguagens, que incidem diretamente na vida das pessoas da comunidade, provocando comportamentos cada vez mais distante do centro da fé cristã; o seguimento fiel a Jesus de Nazaré e ao seu Evangelho.
Desta forma, penso ser melhor questionar não somente a importância da juventude no Intereclesial, mas sua participação na comunidade eclesial de base, neste momento de clara polarização dos modelos de se viver a fé e em sociedade. Mas, isso ajudaremos a refletir na próxima postagem.

Abraço.

Carlos Jardel

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