Casaldáliga é um mártir em vida, diz provincial agostiniano

Padre Paulo Gabriel fez um bonito depoimento em áudio sobre dom Pedro Casaldáliga e sua convivência com ele na  Prelazia de São Félix do Araguaia. O conteúdo circulou por vários grupo de Whatsapp e a seguir apresentamos os principais trechos.

 

O padre Paulo Gabriel López Blanco viveu por 20 anos ao lado de dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia (MT), e fez questão de homenageá-lo pelo aniversário de 90 anos, que ocorre no dia 16 de fevereiro. Padre Paulo é hoje responsável provincial dos agostinianos e considera Pedro Casaldáliga um profeta, um mártir em vida. Ele vê e sente no papa Francisco muito do que viu nas atitudes do “bispo Pedro”, como é chamado pelo povo em São Félix.

“Pedro é um homem radical, no melhor sentido da palavra, radical no seguimento de Jesus ao pé da letra, como dizia São Francisco, radical na pobreza, radical na fé, radical na esperança, coerência absoluta entre o que diz e o que faz. Um homem que testemunha aquilo no que acredita e pelo que vive”, afirma.

 

Padre Paulo Gabriel ao lado de dom Pedro Casaldáliga. (Arquivo pessoal)

 

O religioso agostiniano é espanhol e vive no Brasil há 45 anos. Chegou ao país em 1972, um ano depois de ter se surpreendido com o perfil de dom Pedro, descrito numa edição da revista “Vida Nueva”. O material falava da ordenação dele como bispo e o tratava como “poeta” e “profeta”. Destacava seu prazer pela literatura e pelas causas concretas.

Paulo Gabriel ainda estava na Espanha, tinha 20 anos e havia acabado de terminar o curso de Filosofia. “Eu queria ser missionário e vi nele a igreja que eu sonhava, o compromisso com pobres, a luta pela justiça, um bispo diferente, despojado de todo poder e toda pompa”.

Padre Paulo se refere aos compromissos de Pedro Casaldáliga com a defesa dos lavradores, posseiros e peões, dos povos indígenas, do meio ambiente e das mulheres. Uma opção profética que o colocou contra latifundiários e até mesmo órgãos públicos que assumiam interesses da elite na Região do Araguaia.

Dessa opção surgiram as forças para ajudar a criar o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT). Da veia mística e poética surgiram a Missa da Terra Sem Males e a Missa dos Quilombos, que tiveram grande repercussão nacional e internacional. A Missa dos Quilombos foi idealizada por Casaldáliga em parceria com o cantor Milton Nascimento e o poeta Pedro Tierra.

 

Chegando ao Brasil

Paulo Gabriel foi ordenado padre em 1972 no Rio de Janeiro, indo atuar na prelazia de São Félix em 1980. Até os anos 2000 viveu com o “bispo Pedro”. Na mesma residência moraram a irmã Irene Franceschini e vários leigos e leigas, formando uma afinada equipe pastoral.

Acompanhou no dia a dia Pedro Casaldáliga, inclusive compartilhando as dificuldades que teve com o Vaticano. Por exemplo, por conta da liturgia encarnada na cultura popular e nas lutas do povo. E também pelas viagens que Casaldáliga fez nos anos 80 à Nicarágua para prestar solidariedade àqueles que denunciavam a intervenção dos Estados Unidos.

“Pedro é um homem livre. Livre de preconceitos, livre de ataduras ao poder, e isto trouxe problemas, como com todos os profetas que são livres. Teve momentos difíceis com o Vaticano, mas superou. E nunca vi Pedro, mesmo em momentos difíceis e trágicos, desanimado ou perdendo o sono”, contou.

 

O martírio

Para o padre agostiniano, Pedro Calsaldáliga é um mártir em vida. Acometido pelo Parkinson há anos, ele perdeu quase todos os movimentos do corpo e tem dificuldades para ler e falar. Vive com o auxílio de religiosos e agentes de pastoral que o acompanham diariamente.

“Pedro nunca escondeu que a graça maior que alguém que segue Jesus pode ter é o martírio. Ele não morreu mártir, mas hoje, com 90 anos, dez ou 15 anos travado numa cadeira de rodas pelo Parkinson, é dependente dos outros para tudo. É uma morte lenta. E ele nunca reclamou de seu ‘irmão Parkinson’, como o chama. É uma prova de que ele é um homem humanamente e espiritualmente maduro”.

 

“Teve momentos difíceis com o Vaticano, mas superou. E nunca vi Pedro, mesmo em momentos difíceis e trágicos, desanimado ou perdendo o sono”, disse

 

O “bispo Pedro” várias vezes foi ameaçado de morte, mas uma ocasião ficou bastante conhecida. Foi em 1976, quando ele e o padre João Bosco Burnier foram até uma delegacia no hoje município de Ribeirão Cascalheira exigir que policiais parassem de torturar duas mulheres. Um dos policiais reagiu dando um tiro à queima-roupa no padre, mas muitos dizem que houve um engano, pois a bala seria endereçada a Pedro Casaldáliga.

Na avaliação do agostiniano, Pedro Casaldáliga “talvez seja um dos últimos grandes padres da igreja latino-americana”, como foi dom Helder Câmara, ainda antes do Concílio Vaticano II (que ocorreu entre 1962 e 1965).

(Crédito imagem: Ele)

“Talvez Pedro seja o último dessa geração. Fez parte de uma geração de padres que encarnaram ideias do Concílio. Encarnaram as ideias da Conferência de Medellín (1968), na defesa dos pobres, luta pela justiça, na realidade macroecumênica, na igreja que escuta os clamores do povo e luta pela construção do Reino de Deus na história”, comentou.

“Ouvindo e vendo o papa, vejo e sinto muitas das atitudes que vi durante muitos anos no Pedro. Um verdadeiro pastor, um verdadeiro profeta, um verdadeiro seguidor de Jesus, testemunha do Evangelho”.

 

 

Por Gibran Luis Lachowski, Equipe de Comunicação CEBs/MT – Regional Oeste 2

2 Comentário

  • LINDORICO GUERRA JÚNIOR

    Ah… Que alegria saber que um mini stro( menor criado) autêntico de Cristo, existe realmente dentro da IGREJA CATÓLICA. É um verdadeiro mártir e o martírio é a maior graça que todos, sem exceção, têm a mercê de receber de CRISTO…

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