Igreja pé-no-chão, no meio das lutas do povo

Jesus Cristo foi sem teto, sem terra e preso político. Apresentou um projeto de vida baseado no amor, na solidariedade e na justiça social. Esteve mais próximo dos pobres, da mulher marginalizada, do deficiente, das crianças… Enfrentou os poderes político, econômico e religioso de sua época. Por isso foi assassinado. E por isso está ressuscitado, aqui, no meio de nós.

 

Isso é um pouco do pensamento e do sentimento que anima as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), setor progressista da igreja católica no Brasil, que há alguns dias fez seu 14º Intereclesial em Londrina (PR) e já definiu como sede da próxima edição a cidade de Rondonópolis (MT). 

A decisão foi anunciada durante o encontro, que reuniu cerca de três mil pessoas de todo o Brasil, além de Argentina, Uruguai, Paraguai, México, Alemanha, França e Itália. Lideranças de comunidades de base, religiosos, militantes de movimentos sociais, professores, pesquisadores, entre outros, compuseram o público.

 

O 14º Intereclesial ocorreu entre 23 e 27 de janeiro e teve como tema “CEBs e os desafios do mundo urbano”. A programação foi marcada por plenárias, grupos de discussão, filas do povo, celebrações, romaria em homenagem a mártires e apresentações culturais a partir da metodologia do ver-julgar-agir, da doutrina social da igreja.

Em meio aos participantes, indígenas de 23 etnias (como xacriabá, xavante, guarani, kaingang, munduruku e tembé), 60 bispos, centenas de freiras e padres e representantes de outras religiões e igrejas (entre elas luterana, batista, espírita, presbiteriana e de matriz africana).

Grande parte das pessoas ficou hospedada nas casas de 1,8 mil famílias de Londrina e das vizinhas Cambé e Ibiporã, colocando em prática o sentido de ser comunidade. Cerca de mil voluntários ajudaram na preparação do encontro em diversas equipes, como transporte, alimentação, cadastramento, relatoria, limpeza e liturgia. Também houve parcerias com o poder público, para viabilizar espaços físicos, e cooperativas, acampamentos e assentamentos, para garantir alimentos.

 

O papa Francisco enviou carta aos participantes, por intermédio do Secretário de Estado do Vaticano, destacando o trabalho das CEBs e pedindo atenção ao ”clamor dos pobres e famintos de Deus, de justiça e de pão”.

“Quando nós olhamos a história da igreja da Diocese de Rondonópolis-Guiratinga, sentimos uma igreja conforme a do Conselho Vaticano II e que sempre primou por uma igreja de comunidade”, comentou o bispo da Diocese de Rondonópolis-Guiratinga, dom Juventino Kestering, de 71 anos.

O 15º Intereclesial das CEBs vai ocorrer em 2022, mas a partir deste ano o encontro já começa a ser organizado, com debates sobre o tema central (não definido ainda), diálogo com a população do estado, contatos com as Comunidades Eclesiais de Base do país inteiro e viabilização de estrutura.

 

Desafios do mundo urbano em Mato Grosso

A delegação mato-grossense em Londrina foi composta por 140 pessoas das dioceses de Barra do Garças, Juína, Sinop, Cáceres, Cuiabá, Rondonópolis-Guiratinga, Primavera do Leste-Paranatinga e da prelazia de São Félix do Araguaia.

O tema foi aprofundado em 13 miniplenárias: juventudes; ecologia e cuidado ambiental; cultura e lazer; formação e educação; movimentos e organizações sociais; acesso e condições de moradia; pluralismo, ecumenismo e diálogo inter-religioso; mobilidade, transporte e locomoção; violência e segurança; mídia, novas tecnologias e direito à comunicação; saúde e saneamento básico; democratização e participação política; mudanças no mundo do trabalho e os impactos na participação da comunidade.

As grandes e miniplenárias tiveram assessoria de sociólogos, ambientalistas, arquitetos, teólogos, cientistas sociais, entre outros, todos engajados com as CEBs e movimentos sociais.

Para a coordenadora da CEBs de Mato Grosso, Maria Cleuza Feriani, de 60 anos, os desafios do mundo urbano que mais repercutem em Mato Grosso são moradia, educação e agronegócio. Quanto ao primeiro, destaque negativo para o crescimento de periferias nas cidades de grande, médio e pequeno porte, como Cuiabá (590 mil habitantes), Várzea Grande (274 mil) e Carlinda (10 mil), conforme dados do IBGE/2017.

 

“São lugares sem rede de esgoto, água, luz e asfalto. Até as casas populares são construídas nos locais mais distantes, discriminando mais ainda o povo”, comentou Maria Cleuza, que mora em Alta Floresta. A situação se associa a uma realidade vivida no campo, pois 82% da população de Mato Grosso estão na área urbana, mas 116 de seus 141 municípios dependem da agropecuária e extrativismo, segundo dados do IBGE e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). No Brasil, 84% estão nas cidades.

A cobertura do 14º Intereclesial pode ser conferida pelo site das CEBs e em sua página no Facebook (@CEBsdoBrasilOficial), que tem horas e horas arquivadas de transmissão ao vivo. Também pelo jornal “A Caminho”, distribuído no final do encontro e disponível aqui e aqui.

 

Mundo indígena, trabalho escravo e questão ecológica

O frade dominicano e escritor Frei Betto, de 73 anos, que esteve em Londrina, já aponta algumas questões que podem aparecer no próximo Intereclesial, em Rondonópolis. “Mato Grosso vai dar um grande alento às temáticas das CEBs. Eu ressalto o mundo indígena, o trabalho escravo e a questão ecológica”, pontuou. Frei Betto também afirmou que não há futuro para a igreja católica no Brasil fora das CEBs e fez um apelo para que haja uma retomada dos trabalhos de base, como ocorreu nos anos 60 e 70 no Brasil, em plena ditadura. Confira entrevista em áudio aqui.

Os possíveis temas apontados pelo frade para o 15º Intereclesial vão ao encontro do forte questionamento que setores da sociedade fazem em Mato Grosso e em outros estados ao desenvolvimento baseado no agronegócio, na concentração de terras e na isenção de impostos a grandes empresas.

A se confirmar a previsão, terão mais eco as reivindicações de indígenas como Fábio Titiah, de 36 anos, da etnia Pataxó-Hãhãhãe, aldeia Caramuru, em Pau Brasil (BA). Em Londrina ele denunciou o agronegócio, as bancadas ruralista e evangélica por sustentarem o governo Temer na intenção de atacar direitos garantidos pela Constituição de 1988, como a terra, a cultura e a tradição. “Nossos direitos estão sendo jogados fora depois que conquistamos tudo isso com tanta luta, suor e mortes.”

 

Números e linha de pensamento

As CEBs são formadas por pessoas que atuam a partir de uma igreja que valoriza a participação do leigo e da leiga na condução de trabalhos em pequenas comunidades e que também estão engajadas em trabalhos voltados às minorias sociais.

Esses aspectos correspondem a um modelo pastoral baseado na espiritualidade do Concílio Vaticano II, que ocorreu entre 1962 e 1965 e revolucionou a atuação pastoral, sobretudo na América Latina. As CEBs iniciaram neste período, alimentaram-se da religiosidade popular e fundamentos teóricos da Teologia da Libertação. Entre seus ícones estão o seringalista Chico Mendes, o bispo emérito de São Félix do Araguaia, dom Pedro Casaldáliga, o teólogo Leonardo Boff e a sindicalista paraibana Margarida Alves.

 

Material publicado por Gibran Luis Lachowski, da equipe de comunicação das CEBs/MT, Regional Oeste 2, no site Cidadão Cultura, de Cuiabá

 

 

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