Dom Severino Clasen: “A Igreja tem que ultrapassar estruturas e culturas históricas, olhar mais a necessidade, a realidade”.

“Necessitamos de uma Igreja mais orante, valente, profética e ousada.”

Coincidindo com o ano litúrgico que estamos vivendo, a Igreja católica celebra no Brasil o Ano do Laicato. O Papa Francisco sempre insiste que um dos pecados da Igreja é o clericalismo, querendo trazer de volta a Igreja Povo de Deus que o Concilio Vaticano II quis impulsionar.

Vendo a realidade da Igreja no Brasil, a gente constata com dor que os leigos e leigas muitas vezes são esquecidos e pouco valorizados. Nesta entrevista, Dom Severino Clasen, bispo de Caçador e Presidente da Comissão Episcopal para o Laicato da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, nos ajuda a refletir sobre o Ano do Laicato, destacando que “os leigos e leigas estão muito interessados em dar essa vida, esse novo vigor à Igreja, sendo fermento nessa massa da sociedade”. Os leigos têm que ser protagonistas, ideia presente nos últimos documentos do episcopado.

Dom Severino insiste em se fazer presente nas periferias, una presença onde os leigos têm que ter um grande protagonismo. Para isso é preciso ter “consciência que os leigos nas periferias têm também o direito das decisões”, que devem ser criados ministérios “para que eles possam de fato ter autoridade e autonomia de falar do Evangelho pela nossa Igreja”.

Esses ministérios podem também fazer referência a um tema cada vez mais presente nas discussões eclesiais, como é a celebração eucarística. O Presidente da Comissão do Laicato afirma que “a Igreja tem que também ter coragem, e ultrapassar algumas estruturas e culturas históricas, e não ficar apenas no sempre foi assim, mas olhar mais a necessidade, a realidade”, dar novos passos que façam possível que “nenhuma família, nenhum cristão fique sem eucaristia”.

Ao mesmo tempo, o laicato tem que “fazer com que os pastores sejam servidores, e não aqueles que estão esperando o serviço dos leigos”, segundo Dom Severino. Por isso, a Igreja deve refletir sobre a formação dos futuros padres, temática que vai fazer parte da pauta da próxima assembleia dos bispos no mês de abril. Que os padres sintam o desejo de se fazer presentes no meio do povo, de conhecer e partilhar a vida do povo, pois “quando os pastores fazem questão de ficar longe do rebanho o perigo continua”.

Também é preciso investir na formação dos leigos e leigas, “que os documentos da Igreja cheguem às bases”, pois isso faz possível crescer no conhecimento, e aí a missão do laicato “começa a mudar…, começamos a ter uma Igreja em saída, uma Igreja que põe os pés no chão”.

Como Presidente da Comissão Episcopal para o Laicato da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o que o senhor pensa que pode significar o Ano do Laicato para a Igreja do Brasil?

Dentro desse mundo em que nós vivemos e da falta de uma espiritualidade mais encarnada do seguimento de Jesus Cristo, percebemos que este é um ano de nos ativarmos a consciência e maturidade dos cristãos, aqueles que assumem de fato a graça do batismo.

No fundo é revitalizar as decisões do Concilio Vaticano II, os documentos post-concilio, e, sobretudo dar uma força e ênfase às decisões do Papa Francisco. Percebemos que os leigos e leigas estão muito interessados em dar essa vida, esse novo vigor à Igreja, sendo fermento nessa massa da sociedade.

Poderíamos dizer que o futuro da Igreja não é possível sem uma maior participação e responsabilidade dos leigos e leigas na vida pastoral do dia a dia?

O Documento 105 que a CNBB produziu no ano de 2016, e agora o Ano do Laicato, vem exatamente a afirmar que os cristãos leigos e leigas devem ser sujeitos eclesiais, devem ser sujeitos da sociedade, e ao mesmo tempo protagonistas. Não vejo outro caminho, a não ser que os cristãos leigos e leigas mostrem a sua maturidade na fé e também na sua força e consciência de cidadãos. É ali que nós vamos mudar e trazer um mundo novo, pela consciência e maturidade dos cristãos leigos e leigas.

O Papa Francisco nos fala muito sobre a necessidade da presença nas periferias. Essa presença nas periferias resultaria mais fácil na medida em que os cristãos leigos e leigas possam assumir essa missão como coisa própria?

Precisamos sair dos centros e usar a estratégia de Jesus Cristo. Jesus não começou em Jerusalém, Ele começou nas periferias e é lá que Ele anunciou, e das periferias Ele foi para o centro. Nós estamos muito no centro, temos medo das periferias, e por isso a Igreja católica está perdendo a referência para muitas cidades, muitas periferias. Precisamos ser mais presença efetiva, dar mais poder, mais força, mais coragem e também consciência que os leigos nas periferias têm também o direito das decisões, mas sempre em comunhão com a hierarquia, com os pastores.

De fato, essa presença nas periferias das Igrejas evangélicas, onde o protagonismo dos leigos parece mais presente na vida do povo, com mais visitas e uma maior dimensão missionária, nesse sentido nós como católicos não teríamos que olhar para esse jeito de ser presença, de chegar na vida cotidiana do povo?

Eu tenho insistido muito nos grupos, inclusive com o laicato, que se formem os ministérios dos cristãos leigos para que eles possam de fato ter autoridade e autonomia de falar do Evangelho pela nossa Igreja e fazer com que os pastores sejam servidores, e não aqueles que estão esperando o serviço dos leigos, que os leigos ergam a bandeira da fé e da esperança e atuem.

Por isso, a Igreja tem que dar mais preparação, consciência, maturidade e fazer com que a rede da evangelização atinja e chegue com mais liberdade, mais leveza e rapidez nas nossas periferias.

Uma das grandes críticas do Papa Francisco, e que às vezes a gente escuta dos próprios leigos contra o clero, bispos, padres, é o problema do clericalismo. Como superar esse clericalismo, um problema que nos últimos tempos se acentuou demais dentro da Igreja católica?

Fazer com que os documentos que a Igreja tem cheguem às bases. Quando os leigos sabem os direitos e também os deveres, eles se encorajam de falar. Nós muitas vezes escodemos os próprios documentos que nós temos, e quando os leigos têm consciência e conhecimento dos documentos que estão lá atrás, a missão deles começa mudar. Tenho insistido e também percebido em tantos lugares, que onde os leigos estudam, eles tem a consciência, a maturidade, o saber, eles tem argumento para falar, e quando tem argumento nós começamos a ter uma Igreja em saída, uma Igreja que põe os pés no chão.

Os documentos todos, e, sobretudo as exortações, as cartas, as mensagens do Papa Francisco vem nos dando essa avalanche de possibilidades e também de necessidades, de chegarmos às periferias com a força do Evangelho e a Igreja, com os documentos que produz ser essa âncora que fortalece e faz o novo acontecer. Aí sim, nós podemos perceber, lá está acontecendo ser sal, está tendo gosto, lá está brilhando o Evangelho, porque tem o conhecimento, tem a iluminação também interior do Espírito Santo.

De fato, nem só os documentos do Papa como os documentos da CNBB. Se a gente olha de modo rápido, o documento da Paróquia comunidade de comunidades e documento sobre o laicato incide muito nessa dimensão do trabalho pastoral e protagonismo dos leigos. A gente poderia dizer que alguns padres têm medo de formar os leigos? Às vezes se escutam comentários de alguns padres dizendo que quando o leigo se forma vira contra o padre, porque esses questionamentos, quando em realidade a formação seria potencializar a missão evangelizadora da Igreja?

Eu colocaria mesmo a preocupação do Papa Francisco nessa viagem no Chile e Peru, quando ele coloca a situação da sociedade e do mundo, e coloca também a preocupação, que tipo de padre nós estamos formando? Então é preciso olhar claro que tipo de seminaristas. Eu acostumo dizer para os meus seminaristas, vocês têm a cara da nossa diocese? Vocês conhecem os princípios, as diretrizes, as pastorais da diocese de Caçador, no caso a minha diocese?

É por ali que nos temos que agir, começar a preparar agentes e fazer com que os documentos, e eu acrescento aqui, os três últimos documentos, é o 100, 105 e 107. O documento 100, comunidade de comunidades, quer dizer, mostrar o espaço, o chão, o documento 105, os leigos como sujeitos protagonistas, e o documento 107, a preparação, a iniciação à vida cristã. Significa que esses três documentos, os três últimos da CNBB, vem como luva dentro desse pedido que o Papa faz e também dentro da necessidade que a Igreja hoje tem de ser mais fermento na massa.

Na viagem no Chile, o Papa Francisco foi claro no encontro com seminaristas, religiosos e padres, dizendo que a Igreja não precisa de super-homens, que precisa de pastores. Essa dimensão pastoral, essa assimilação com o Bom Pastor que cuida das ovelhas, tem se perdido um pouco dentro da Igreja católica?

Quando os pastores fazem questão de ficar longe do rebanho o perigo continua. No 14º Intereclesial, eu fui também convidado a me hospedar no seminário, mas também as famílias queriam, e eu optei por família, porque as famílias, eles querem o contato com o pastor. Houve muitas lágrimas de emoção escutando de outros colegas irmãos no episcopado, a emoção das famílias de acolher padres, bispos.

Alguns dizem, bispo nunca esteve na minha casa, agora vem para morar uma semana conosco, e sentir o calor, o afeto. Se nós conseguirmos tirar esse poder, a distância do pastor e nos aproximar, nós resolvemos muita coisa, porque ali sim nós temos o cheiro das ovelhas que diz o Papa Francisco.

Aí nós temos também coragem de dizer, de denunciar, de mesmo, se for preciso, chegar ao martírio. É assim que o Evangelho funciona, foi assim que ele nasceu. Foi assim que os nossos primeiros cristãos agiram. É essa convicção, essa proximidade, essa espiritualidade, esse assumir a cruz e a carne que nós temos no documento 105, espiritualidade da proximidade, espiritualidade do seguimento, do seguimento de Jesus Cristo, aí nós encontramos a cruz e a carne, cruz é sofrimento e enfrentamento, carne é relação, amizade, proximidade.

Para o senhor, o que supus essa convivência durante uma semana com uma família que não conhecia. O que o senhor aprendeu com essa experiência?

Aquilo que é realidade do dia a dia dos cristãos leigos e leigas e que deve ser também a nossa realidade de pastores. Nós não podemos criar categorias diferentes de vidas, nós como pastores, nós temos que ser ao serviço, próximos. Essa convivência, essa simplicidade, para mim fortaleceu os meus princípios e convicção como bispo, para continuar a ter essa proximidade, e dentro do Conselho Nacional do Laicato de convencer também toda a Igreja nessa dimensão da proximidade do laicato, que nós pastores não tenhamos medo dos leigos e leigas.

Eles querem, eles imploram, eles necessitam da proximidade de seus pastores. E nessa proximidade nós nos entendemos e começamos a diminuir as tensões, e começa a crescer o seguimento e a adesão à Igreja católica.

A Amazônia é uma região onde a presença ativa e comprometida do laicato é importante. Está programado para 2019, e já começaram as reuniões preparatórias, o Sínodo da Amazônia. O objetivo principal, segundo o Papa Francisco, é buscar novos caminhos para a evangelização da Amazônia, especialmente dos povos indígenas. Uma das situações que provocam questionamento na Amazônia é o tema da Eucaristia, que em muitas comunidades é celebrada só uma ou duas vezes por ano. Diante disso, aparecem vozes na Amazônia, de missionários, padres, bispos, para buscar como fazer realidade essa celebração da Eucaristia na Amazônia. Poderia ser uma possibilidade a criação de um ministério da presidência eucarística onde essa presença sacerdotal é muito escassa?

O sacramento da Eucaristia é um dos sacramentos do cotidiano, é o alimento diário, e quando falta esse alimento nós temos perigos, porque falta-nos aquilo que é fazer isso em memória de mim. Por tanto, não podemos imaginar um cristão sem eucaristia. Agora, o cristão ele tem que ter direito de ter a Eucaristia com mais frequência, e por isso a Igreja tem que também ter coragem, e ultrapassar algumas estruturas e culturas históricas, e não ficar apenas no sempre foi assim, mas olhar mais a necessidade, a realidade.

É preciso dar passos, mas nós temos que descobrir o Espírito Santo. Ele tem o caminho, precisamos descobrir, temos que pedir a Ele, e deixar que Ele fale ao nosso coração. Quando o Espírito Santo fala ao coração da Igreja, a Igreja tem coragem de fazer mudanças. E aí nos sim podemos ver sacerdotes diferentes do jeito que nós conhecemos hoje. Agora qual? Vamos deixar o Espírito Santo agir. Agora, não vamos ficar presos e deixar o Espírito Santo de molho para ver o que nós podemos fazer. Mas é preciso que a Igreja seja mais orante, corajosa, profética e seja ousada.

O Papa Francisco, diante dessa realidade, espera das conferências episcopais propostas corajosas. Estão aparecendo essas propostas, existe essa coragem, como o senhor diz, para deixar de fazer o que sempre foi feito?

Aqui está a força do diálogo que nós temos que ter entre o episcopado. Existem iniciativas, o diálogo começou, as provocações já existem, o pedido de uma ousadia existe. Agora precisamos, quem sabe na próxima assembleia, dar mais um passo. E assim nós vamos furando esse bloqueio, essa pedra começa ser diluída e nós vamos poder atender, porque não é só Amazonas.

Amazonas é a grande bandeira, e concordo plenamente com esse Sínodo, e essa é minha esperança também. É dentro do conflito que nós temos que saber abrir portas, é dentro do conflito da miséria e da pobreza que nós somos obrigados a mudar a estrutura, porque é na carência que nós vamos chegar à suficiência. E isso é preciso, ter esse princípio, e eu acredito que vamos a dar um passo e continuo pedindo a Deus que nenhuma família, nenhum cristão fique sem eucaristia.

Por Luis Miguel Modino

Comunicação das CEBs do Brasil

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