Encontro em MT discute atuação de cristãs e cristãos na política

Fotos: Cristiane Costa/Centro Burnier

Somos herdeiras e herdeiros de um modelo pastoral cristão pautado na realidade concreta, organização popular, transformação pessoal, social e espiritual. Irmãs e irmãos de um Cristo revolucionário, histórico, cuja maior transcendência ocorreu por ser humano demais. Inspirados nessa síntese profética é que foi realizado no sábado, dia 21, em Cuiabá (capital de Mato Grosso), o primeiro encontro de cristãs e cristãos na política.

Participaram cerca de 20 pessoas dos municípios de Cuiabá, Várzea Grande, Jangada, Rondonópolis, Lucas do Rio Verde, Carlinda e Alta Floresta. Pessoas com atuação em Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), partidos políticos de esquerda (filiados, dirigentes e parlamentares), entidades de direitos humanos e sindicais, seminaristas e religiosos. As atividades ocorreram no Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público (Sintep).

Contexto

A iniciativa começou em setembro de 2017, durante o 14º Encontro Regional das CEBs/MT, em São Félix do Araguaia. Na ocasião, várias lideranças perceberam a importância da igreja se posicionar de forma mais firme diante da perda de direitos sociais e ataque às organizações populares, intensificados pelo golpe contra a presidenta Dilma em 2016.

Mas a questão é mais ampla, como explicou o sociólogo Roberto Rossi, um dos participantes do encontro de cristãs e cristãos em Cuiabá. Ele é membro do Centro Burnier Fé e Justiça e mencionou o sociólogo português Boaventura Souza Santos.

Trabalhos em grupo aprofundaram reflexão.

“A crise que vivemos no Brasil está ligada a outras crises, de abrangência mundial, tendo o poder das grandes corporações no controle. Tem a crise ecológica, a energética (que busca o petróleo da Síria) e a crise alimentar. A crise do trabalho e do emprego, a crise do Estado (submetido à globalização econômica). A crise ética e a crise de civilização (perda de referenciais e valores)”.

 

“Por isso é que nosso projeto político popular passa pelas eleições, mas vai além”, comentou Rosenil, do Cebi/MT

 

Por isso é necessário enxergar a política de modo mais amplo também, na igreja, no partido, no parlamento, no governo, na ong, no movimento social, no sindicato, na escola, na universidade… Política como forma de compreender a realidade, pensar de modo estratégico, a médio e longo prazo, com ações efetivas e transformadoras.

“E não como fez a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) durante seu recente encontro anual, quando redigiu cartas ao povo e sobre as eleições. Nesses documentos os bispos trataram a ideologia de maneira negativa, como faz a direita, estimulando a neutralidade perante as injustiças sociais e o grave momento que vivemos no Brasil”.

Foi o que disse o professor Gilmar Soares Ferreira, presidente da subsede Várzea Grande do Sintep. Sua observação fortalece o que escreveu o pároco da diocese de São Gabriel da Cachoeira (AM), Luis Miguel Modino.

Gilmar fez uma análise de conjuntura no encontro e ressaltou o controle do poder econômico financeiro sobre o político. Falou que para o capital especulativo tanto faz Temer como Bolsonaro. “A única coisa que não querem é o Lula ou alguém de centro-esquerda”.

Roberto Rossi (gesticulando) e Gilmar Soares conduziram análise de conjuntura.

Pois banqueiros e corporações decidiram acabar com a soberania nacional, direitos e programas sociais instituídos e fortalecidos nos governos Lula e Dilma. E isso inclui atacar a escola pública como ideológica e substituí-la pela “home school” (escola doméstica), o que causaria um “apartheid social” em relação à população mais pobre.

 

Próxima atividade será seminário em julho com presença de membro do Movimento Nacional de Fé e Política

 

Por essa razão Gilmar defende a união das forças de esquerda em torno de um projeto de sociedade e acredita que isto dará frutos 20, 30 anos depois. “O momento é de deitar sementes na terra. Temos Boulos e Manuela (pré-candidatos à presidência do PSOL e do PCDB, respectivamente), a juventude do PT, a igreja progressista, entre outros. Voltamos à normalidade. Os governos Lula e Dilma foram uma exceção na história brasileira. Temos 500 enquanto na Europa há países com mil e tantos anos e que passaram por guerras”.

 

Para além das eleições

O encontro foi seguido de debate. Entre as principais ideias: ter espiritualidade libertadora e opção pelos pobres como orientações da ação política; combater clericalismo de leigas e leigos e assumir o protagonismo na caminha pastoral. Também, criar terreno progressista nas comunidades para dar referência de atuação aos padres e retomar tradição dos anos 80/90 quanto à formação de lideranças.

Rosenil Conceição Bom Despacho ressaltou a importância de uma ação política para além das eleições. Porque estar nos bairros e ouvir as pessoas mostra a vontade da população em conhecer melhor a política e saber como ajudar. “Os movimentos e partidos abanaram a base. A gente (igreja), mal ou bem, é que faz esse trabalho com o povo. Por isso é que nosso projeto político popular passa pelas eleições, mas vai além”, comentou Rosenil, que faz parte das CEBs e do Centro de Estudos Bíblicos (Cebi) em Cuiabá.

Participantes pontuaram importância de construir projeto popular de sociedade.

“Temos de resgatar a política testemunhando, falando, atuando. E nossa base maior é a Conferência do Episcopado Latino-amaricano, realizada em Medellín (1968), que ressaltou a participação da igreja no meio do povo, defendendo os marginalizados”.

Foi o que sublinhou o padre Valdevino José de Almeida. Ele é reitor do Seminário São João Vianney, situado em Várzea Grande, que acolhe oito seminaristas da diocese de Sinop (norte de Mato Grosso). Padre Valdevino também se dedica à Pastoral Carcerária e busca trabalhar a partir da espiritualidade do Concílio Vaticano II, que valoriza a atuação de leigas e leigos na igreja e sociedade e deu alicerce para a Conferência de Medellín.

 

Identidade

Uma carta de princípios sobre a identidade do grupo de cristãs e cristãos na política será rascunhada até junho e seu conteúdo final definido num seminário em 28 e 29 de julho, em Cuiabá. Na ocasião haverá presença de um membro do Movimento Nacional de Fé e Política para contribuir com a discussão.

Um Comentário

  • JOSÉ DO CARMO

    A tepo que tenho refletido sobre a atuação dos povos nas anos passados, então é necessário recuperar este debate e tentar resgatar as CEBs, para uma atuação efetiva da igreja na vida do povo e assim construir o Reino de Deus em nosso meio…..

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