Irmã Bernadete Barbosa: “Deus dá o mesmo poder para o sábio indígena pensar e para quem está vivenciando a espiritualidade cristã”.

É preciso entender que Deus se faz presente na vida dos povos indígenas, na sua espiritualidade, que eles descobrem especialmente na natureza

Bernadete Barbosa é uma salesiana indígena, nascida na região de Iaureté, distrito de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira entre o Brasil e a Colômbia. A presença indígena na vida religiosa e sacerdotal é cada vez mais freqüente e isso pode ajudar a conhecer melhor a realidade indígena e desenvolver um processo de inculturação do Evangelho, o que pode ser fundamental de cara ao Sínodo da Pan-Amazônia.

É preciso entender que Deus se faz presente na vida dos povos indígenas, na sua espiritualidade, que eles descobrem especialmente na natureza, que como reconhece a religiosa indígena do povo tariano, “é o que dá a vida, o que a sustenta, o que a atrai”. Não podemos esquecer que os indígenas têm uma capacidade especial para estabelecer uma profunda relação com essa natureza. Nesse sentido, “pode utilizar da natureza, mas também devolvendo a ela o respeito, como também ela  nos respeita”, segundo a salesiana.

Essa relação e cuidado da natureza devem estar dentro da vida pastoral da Igreja, pois isso pode ajudar as crianças a recuperar tradições que sempre estiveram presentes na vida dos antepassados, a ser agradecidos por tudo o que Deus nos dá cada dia.

A religiosa, que  realiza sua missão na Paróquia do Rio Içana, na diocese de São Gabriel da Cachoeira, uma região de difícil aceso e com comunidades muito distantes da sede da paróquia, também responde a uma questão cada vez mais presente na Igreja da Amazônia, que é a celebração da Eucaristia nas comunidades mais afastadas, que atualmente é muito esporádica.

Nesse sentido, a Igreja “precisa se preocupar com a formação para nossas lideranças que estão cuidando da comunidade”, reconhece a salesiana. Segundo ela, “tem que entender primeiro para fazer celebração eucarística, porque eu estou fazendo a celebração eucarística ali”. Junto com isso, a religiosa diz que “depois da formação, eu penso que eles têm capacidade de fazer, de realizar”.

Você é religiosa salesiana do povo tariano. Como você consegue combinar a espiritualidade cristã com sua cultura e tradições indígenas?

Nossas tradições indígenas, para se casar com a espiritualidade cristã, eu acredito muito no poder de Deus, o poder que faz o sábio pensar é o poder que dá também à Igreja. Isso me faz pensar que o mesmo poder que Ele dá para o povo indígena, também dá para quem está vivenciando a espiritualidade cristã, faz com que ele cresça cada vez mais.

A espiritualidade nossa é mais desde a natureza, nós acreditamos mais em tudo o sobrenatural que existe. Ele para nós é vida, é ele que dá vida, ele que sustenta, ele que atrai, ele que defende a natureza. Também, ao mesmo tempo, na vida religiosa, tudo o que nós fazemos é a partir da Palavra de Deus, pois eu creio que é fonte de vida, dá força, sustenta e nos faz renovar também nosso dia a dia. A mesma coisa a nossa cultura.

O Papa Francisco insiste muito na necessidade de anunciar o Evangelho tendo em conta a realidade, a cultura onde a gente anuncia. Como conseguir isso hoje dentro da realidade dos povos indígenas da Amazônia?

Ajudando ele a fazer essa leitura, uma leitura da presença de Deus dentro dessa simplicidade que a natureza mostra. A natureza mostra esse Amor de Deus e por isso nós hoje, como povo indígena que conhece a realidade, devemos dizer a ele que a graça de Deus vem de mansinho, chega até nós, como a natureza que nos oferece tudo o que ela é, tudo o que ela tem, dia a dia.

Isso para nós é anunciar o Reino de Deus, como Jesus está presente ali na natureza, no seu jeito de ser, de partilhar sua vida, na celebração, nos trabalhos comunitários, na partilha das frutas, do beju, da quinhapira, de estar unidos ali como comunidade, como família e também fazer com que o povo se conscientize para ir naquelas famílias que se isolam, que não se sentem participantes daquela comunidade, ir se reconhecendo, se reconciliando. Para mim isso é anunciar a Palavra de Deus.

Um dos aspectos que aparecem no tema do Sínodo Pan-Amazônico, é os novos caminhos para a ecologia integral. Os povos indígenas sempre tiveram uma grande veneração pela Mãe Terra, pela Mãe Natureza. O que os povos indígenas podem ensinar para a Igreja católica universal sobre essa ecologia integral, sobre esse cuidado da Casa Comum?

O povo indígena nos ensina esse cuidado, pode utilizar da natureza, mas também devolvendo a ela o respeito, como também ela também nos respeita. Eu penso que o que o povo indígena nos ensina como Igreja é respeitar a natureza, você pedir licença àquele terreno onde você vai fazer a roça. Então ele começa a conversar com as árvores que vai derrubar, não derrubar porque tem que derrubar, senão para fazer uma roça para tirar sua alimentação, para comer. E depois devolve novamente à natureza para refazer sua terra, deixar as árvores crescer novamente. Tudo isso é respeito que ele tem, não querer ganância, derrubar tudo para ter só para ele.

Onde tem rio que carrega muito peixe, ele vai lá, vai tinguijar, tira esse peixe e depois devolve para a natureza com respeito, fala para o rio, que ele retirou o peixe naquele rio, mas ele está saindo daquele rio e ele pede para a Mãe Natureza limpar, pedindo a chuva. Por isso, depois do tinguijamento vem a chuva para limpar e renovar a água novamente e criar os peixes que ali existem.

Para mim é isso, respeito, respeito com a Natureza, respeito com as pedras sagradas, respeito com os rios sagrados, as praias sagradas, não utilizando querendo só dinheiro, dinheiro, dinheiro, senão vivendo ali com respeito, que para nós é o cuidado da ecologia, onde a Igreja deve aprender e também a sociedade precisa aprender, pois se interessa somente em ter, enriquecer.

Após vários anos de trabalho em diferentes comunidades indígenas, desde sua experiência, diante da proposta do Papa Francisco de procurar novos caminhos para a Igreja, partindo da realidade amazônica, por onde acha que deveriam ir esses novos caminhos que o Papa Francisco está pedindo para a Igreja da Amazônia?

Para a Igreja da Amazônia, e ouvindo realmente o que a população indígena fala, como é que deve fazer e como deve cuidar a partir dessa orientação dos próprios sábios de lá, daquela comunidade, daquele rio, procurar realmente vivenciar a beleza da Natureza e assim fazer esse caminho novo para nossa realidade.

E dentro do trabalho pastoral, o que deveria ser feito para encontrar esses novos caminhos?

Dentro do trabalho pastoral, o que deveríamos realmente valorizar, principalmente na catequese é orientar ao respeito e ao mesmo celebrar os diferentes tempos, da primavera, o tempo das frutas. Ensinar para que as crianças aprendam celebrar, como antes faziam. Eles celebravam com agradecimento, num ritual chamado dabucuri, para agradecer em tempo das diferentes frutas que eles tinham, em sinal de agradecimento. Isso hoje como catequese ou outras pastorais que tem, nós não fazemos.

Por exemplo também, tomar banho no rio, vamos tomar banho juntos, como comunidade, abençoando a água, se benzer na água. É uma forma de educar, e nessa iniciação cristã seria também valorizar, e ao mesmo tempo, não só as coisas boas, mas também as coisas ruins para explicar para as crianças também.

Uma das situações que está provocando diálogo e discussão na Amazônia são as  poucas celebrações eucarísticas que acontecem nas comunidades mais distantes. Diante dessa realidade a Igreja está começando a falar na possibilidade de novos ministérios para ver como o povo pode celebrar a Eucaristia, que a própria Igreja define como fonte e ápice da vida cristã. Desde seu conhecimento da realidade, pensa que seriam de fato possíveis esses novos ministérios? O povo iria aceitar que alguém da própria comunidade tivesse esse papel dentro da Igreja que o leve a poder presidir a celebração eucarística?

Depende muito da orientação da Igreja, da diocese, que precisa se preocupar com a formação para nossas lideranças que estão cuidando da comunidade, formando líderes novos, orientar, dar formação sobre isso e, a partir disso, serem conscientes daquilo que vão trabalhar na celebração eucarística.

Tem que entender primeiro para fazer celebração eucarística, porque eu estou fazendo a celebração eucarística ali. A partir da sua compreensão, depois da formação, eu penso que eles têm a capacidade de fazer, de realizar. Agora, sem essa instrução, sem essa informação, eles podem fazer e depois não ter significado para eles. A Igreja teria que se preocupar primeiro com a formação para quem vai fazer isso.

Por Luis Miguel Modino

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