A marginalidade do profeta. Marcelo Barros.

O Evangelho de hoje nos chama a assumir a postura radical e corajosa do/da profeta e alargar nossa família a todos os irmãos e irmãs que vivem no mesmo caminho da justiça e da libertação do povo oprimido.

O evangelho lido nas comunidades nesse domingo (Mc 3, 20- 35) revela que, tendo provocado e desobedecido publicamente à instituição religiosa da sinagoga, Jesus volta para casa (as primeiras comunidades cristãs se reúnem nas casas. Então, a casa de Jesus é a casa da comunidade. É a Igreja).

Isso me faz pensar nas Igrejas domésticas e quase clandestinas que se reúnem à margem das instituições oficiais e nas quais pessoas que, pela palavra de Deus, afrontam o sistema e vão além das leis vigentes, se encontram e se abastecem. No caso de Jesus, o texto diz que, naquela casa na qual Jesus se refugiava, se reunia tanta gente que eles (Jesus e os discípulos e discípulas) não podiam nem comer. Isso revela a relação de Jesus com o povão que sempre tem acesso a ele. A casa de Jesus vive sempre cheia das pessoas mais pobres das Galileias da vida. O texto alude ainda à mesa da comunidade que está sempre aberta a todos (sem nenhum apartheid eucarístico, como até hoje, ocorre em várias Igrejas).

E aí o texto de Marcos fala de dois grupos que procuram Jesus. Procuram-no não para segui-lo como discípulos e sim um grupo (o da família) para prendê-lo e levá-lo consigo. O outro (o dos mestres da lei – escribas, para acusá-lo de pertencer ao diabo e ser movido por ele). A família vem para prendê-lo. O verbo é o mesmo usado para falar dos soldados que, no horto, o prendem para levá-lo à morte. E os escribas o acusam. Dizem que Jesus expulsa o mal (o demônio) movido pela energia do mal. Jesus lhes propõe a parábola da casa dividida contra si mesma que, por estar dividida, não subsistirá. Pode estar aludindo à sua própria família que não aceita a sua missão e pode também estar se referindo aos que confundem o mal com o bem e o bem com o mal.

Ainda hoje, a esquerda e os movimentos sociais precisam sempre de novo ouvir essa palavra: a casa dividida contra si mesma se destrói a si mesma. É o que o pessoal chama hoje de “tiro no pé”. Atualmente, nesse processo de preparação para eleições, é tempo no qual as ambições pessoais e as exigências de poder tendem a se impor. E as divisões aparecem ainda mais claramente. É o que, hoje, se chamaria de “tiro no pé”.

Mas, Jesus conclui a parábola da casa dividida e de sua resposta aos escribas com a advertência de que, ao negarem que Jesus age em nome e pelo poder de Des Amor e não do diabo, os escribas pecam contra o Espírito Santo porque chamam o bem de mal e se recusam a ver a libertação como algo bom que vem do Espírito.

Todos nós temos essa experiência: conhecemos pessoas que repetem os julgamentos do mundo iníquo e injusto sem perceberem que estão trocando o bem pelo mal. Posicionam-se do lado errado por falta de informação ou por erro de julgamento. Mas, se essas pessoas se recusam a discutir suas razões e se fecham em suas posições, não há possibilidade de conversão e de mudança. É verdade que muitos agem assim por uma espécie de opção pela alienação, mas outros (e são muitos) o fazem para preservar seus próprios interesses. Por isso, Jesus proclama essa palavra duríssima sobre o pecado contra o Espírito Santo. É isso que aqueles mestres da lei, exegetas da Bíblia, estavam fazendo ao dizer que Jesus agira movido pelo diabo. No fundo, eles não aceitavam que Jesus curasse e expulsasse o mal das pessoas libertando-as do poder e do controle deles e da religião. Ao tomar essa posição contra Jesus, eles confundem, de certa forma, maldosamente, a obra do Espírito Santo com a de Satanás. Juan Luis

Segundo, grande teólogo uruguaio e dos maiores de toda a América Latina, escreveu:
“Fazer uma interpretação equivocada do evangelho sempre será perdoável (…) O que não é perdoável é usar a teologia para transformar a libertação humana real em algo odioso. O pecado real contra o Espírito Santo consiste em recusar-se a reconhecer, com alegria espiritual, qualquer forma de libertação concreta que esteja ocorrendo diante de nossos olhos” (citado por Ched Myers em O Evangelho de Marcos, Paulinas, 1992, p. 211).

Essa é nossa experiência cotidiana. Como saber qual o lado correto e justo no qual devo me inserir? Como agir diante de famílias divididas e amigos que se distanciam por causa das posições políticas que tomam. Jesus teve de dizer: “Quem é minha mãe e meus irmãos? São todos aqueles (e aquelas) que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”. É terrível porque o evangelho diz: A sua mãe e seus irmãos estão lá fora de pé…. E Jesus olha os que estão dentro da casa sentados, escutando-o (em atitude de discípulos e discípulas). Nós também vivemos isso. Também na nossa vida, há os que estão na mesma sala, estão dentro sentados e há os que estão fora de pé. E aí há gente que seria da família de sangue lá fora e que não entra. E os que estão conosco na intimidade da casa constituem uma nova família. Como fazer essa distinção e essa opção? O critério de Jesus e o critério nosso hoje é a causa do povo oprimido. Mas, mesmo essa causa nem sempre é clara. E aí para nós, cristãos, há um critério fundamental a partir do qual nós, cristãos, formulamos nossas escolhas sociais e políticas: a palavra de Deus. Mas, essa não aprisionada e fixa nos textos antigos. Na época de Jesus, os escribas tinham a palavra de Deus assim. Eram doutores da lei, mas não foram capazes de interpretá-la corretamente. O que Jesus diz é “se estou fazendo bem aos pobres e marginalizados do mundo, como isso pode ser coisa do diabo?”. Nesse sentido, se peca contra o Espírito Santo quando, a pessoa se fecha em uma posição injusta e equivocada e nem se Jesus descesse do céu, conseguiria fazê-la mudar de posição.

Nesses dias, o bispo novo de uma diocese do Nordeste declarou não aceitar que nenhum padre ou seminarista participe de movimento social ou de qualquer atividade ligada à Teologia da Libertação. Infelizmente, ele faz isso não por ser limitado de compreensão, ou por ter sido formado assim. Ele não quer se informar, nem se abre a qualquer discussão sobre o assunto.

Ontem, tive a oportunidade de falar no Seminário Teológico Batista do Norte do Brasil, aqui em Recife. Ali, recebi de presente do pastor João Ferreira Santos um exemplar do seu livro “Vida cristã e participação política. Nesse livro, li o seguinte texto:

“Ao recorrer à ONU contra eventuais abusos de poder cometidos pelo juiz Sérgio Moro, o Ex-presidente Lula nos faz lembrar o apóstolo Paulo diante dos crimes que o acusavam na Palestina, no primeiro século da nossa era. (…) Mesmo sem a comprovação de nenhum crime, Paulo é acusado com base em suspeitas e ciúmes de pessoas invejosas, sendo, por conseguinte, conduzido ao tribunal do governador Festo. Em seguida, é conduzido à presença do rei Agripa. (…) Apela para César. Conduzido a Roma, é colocado na presença de César, que era o próprio Nero. No dizer de Humberto Rohden, o melhor ser humano é colocado frente à frente, com o pior homem do mundo. Mesmo assim, Nero declara não ver nesse homem nenhum dos crimes de que estava sendo acusado. A questão não era nem religiosa, nem de justiça, mas puramente política: os poderosos da época se sentiam ameaçados com a popularidade e a seriedade do trabalho de Paulo junto aos pobres e injustiçados…” (p. 83).Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.

O Evangelho de hoje nos chama a assumir a postura radical e corajosa do/da profeta e alargar nossa família a todos os irmãos e irmãs que vivem no mesmo caminho da justiça e da libertação do povo oprimido. É uma alegria evangélica nos sentir nessa nova família de Jesus e isso nos dá força para podermos assumir a realidade de marginalidade do profeta.

(Monge Beneditino Marcelo Barros)

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