A nossa vocação de sermos pedras de apoio e segurança. Marcelo Barros

“Tu és Pedro e sobre ti como gruta que serve de abrigo aos mais empobrecidos quero construir a minha Igreja, ou seja, a comunidade local reunida como Igreja” ( Frei Jacir Freitas Faria, Vida Pastoral, julho-agosto 2011).

Nos domingos sempre partilho aqui com os irmãos e irmãs que leem essas linhas minha meditação pessoal sobre o evangelho lido pelas comunidades em cada domingo. Hoje preferiria seguir o lecionário mais ecumênico das Igrejas evangélicas que seguem o lecionário e não o da Igreja Católica no Brasil que, para falar do papa, tomam a festa de São Pedro.

Como católico, reconheço o ministério do bispo de Roma e agradeço a Deus termos nesse momento do mundo e das Igrejas a profecia do papa Francisco. No entanto, não quero colaborar com nenhuma sacralização do poder que para mim é uma idolatria, como não acho honesto lutar contra fundamentalismos bíblicos em alguns pontos e fazer leitura fundamentalista do evangelho quando o texto nos interessa religiosa ou politicamente. Precisamos, sim, orar pelo papa Francisco e para que ele consiga ajudar a Igreja Católica a voltar ao evangelho de Jesus.

Que o Espírito a despoje das falsas justificações em textos bíblicos para a sua compreensão de ministério como poder sagrado. Assim, ela poderá, de fato, colaborar para a unidade das Igrejas e para o serviço à humanidade. Agora, vamos mesmo centrar a atenção no evangelho (Mateus 16, 13- 19). Partilho com vocês a meditação que nessa madrugada foi minha oração.

Para mim é bom ler e meditar hoje esse evangelho porque o contexto desse texto é o contexto do que os estudiosos da Cristologia como Jon Sobrino, Juan Luis Segundo e outros chamam de “crise galilaica” (porque se passou na Galileia). Jesus tinha anunciado para logo o reino. Muitos recordavam suas palavras: “Convertam-se. O reino de Deus está chegando” “Entre os que estão aqui presentes, muito não morrerão sem terem visto chegar o reino”. E, de fato, o reino não chegava e nada ocorria. Era o pior que podia ocorrer a um profeta: anunciar uma coisa e ela não acontecer.

Era sinal de que aquilo não era palavra de Deus e ele seria um falso profeta falando em nome de si mesmo suas fantasias e não algo que Deus teria realmente mandado. Em outros textos dos evangelhos, o próprio Jesus se compara a Jonas, o profeta que entra em crise porque anunciou a destruição de Nínive e Deus resolveu perdoar e poupar a cidade.

Onde está Deus?

Como ficam suas promessas?

Em que podemos ainda crer?

Hoje, no mundo, quantos migrantes e refugiados que sentem suas vidas ameaçadas no Mediterrâneo, ou que veem o governo norte-americano decidido a separar pais e filhos e colocar crianças em campos de concentração…. de que adianta rezar? Onde está Deus (nem pergunto onde estão as Igrejas que se dizem cristãs?). Hoje no Brasil da ditadura judiciária, em que a presidente do Supremo simplesmente não protocola pedidos que politicamente não a interessam como o recurso dos advogados do presidente Lula e o juiz, encarregado de levar um recurso ao tribunal o adia, como as vítimas dessa truculência partidária podem se sentir?

O Evangelho conta que Jesus se retirou somente com o grupo mais íntimo dos doze e em uma região de fronteiras, do lado estrangeiro (perto de Cesaréia de Filipe), faz com os discípulos uma revisão de vida. A pergunta sobre “O que dizem as pessoas a respeito do Filho do Homem? não é feita por um Jesus tranquilo e respeitado por todos. Ao contrário, ele se sente quase clandestino e sem dúvida fracassado na sua missão na Galileia (os evangelhos insistem que as cidades do lago o rejeitaram claramente). Os discípulos foram capazes de dizer que assim como os antigos profetas, foram todos rejeitados pela opinião pública, Jesus seria um dos profetas. Mas, ele sabe que a situação para ele é pior. E ele insiste: E vocês mesmos o que pensam, o que dizem de mim? É uma pergunta semelhante ao que hoje companheiros acusados de uma corrupção que eles não cometeram podem nos fazer, mesmo a nós que estamos do lado deles e sabemos da armação político-partidária que os Moro da vida arquitetam e montam. O que cada um de nós diz deles?

O Jesus que pergunta aos discípulos é alguém assim, mal visto pelos poderes religiosos, políticos e mesmo por uma opinião pública menos crítica.

O evangelho diz que Pedro responde: Tu és o filho do Deus vivo. E Jesus o confirma: Tu és bem-aventurado (tens tua honra confirmada por Deus), Simão, (em hebraico significa “aquele que escuta”), porque quem te inspirou isso foi o Pai. Por isso, tu és Pedro. És Pedra….. Como seria bom que hoje, todos nós e especialmente as pessoas que se encontram frente a essa situação de impotência (penso em Lula na cadeia e em muitas pessoas acusadas injustamente e perseguidas politicamente), cada um pudesse escutar de Jesus essa palavra: Tu és Pedro, pedra… Apesar da sensação de fragilidade, de extrema vulnerabilidade e mesmo de total impotência, você e eu podemos ser pedras de esteio, pedras de firmeza e segurança interior inabaláveis. Mas, a pedra que somos nós tem também outro sentido.

Conforme alguns exegetas, na época de Jesus, o povo tinha o costume de escavar as rochas para daí tirar pedras para construir casas. Era um tipo de pedra mais mole. (Quem sabe, no Brasil, poderia nos recordar nossa pedra-sabão, usada por vários artistas para esculturas em pedra). Era um tipo especial de pedra, mas possível de ser quebrada e partida para dar lugar a abrigos. Os buracos formados nas rochas recebiam na língua aramaica o nome de kepha. As pessoas pobres e sem casa se abrigavam nestas cavernas e as usavam como sendo suas casas. Assim sendo, o nome Kepha pode ser traduzido por pedra ou por gruta escavada na rocha, isto é, gruta que servia de abrigo para os pobres sem-teto. Se fosse nesse segundo sentido, a tradução mais literal da palavra atribuída pelo evangelho a Jesus seria: “Tu és Pedro e sobre ti como gruta que serve de abrigo aos mais empobrecidos quero construir a minha Igreja, ou seja, a comunidade local reunida como Igreja” (Ver Frei Jacir Freitas Faria, Subsídios Homiléticos – Vida Pastoral, julho-agosto 2011).

Sejamos uns para os outros e para todos nossos irmãos e irmãs que encontramos, essas grutas que servem de abrigo aos sem abrigo e pedra firme como as pedras de aliança que os antigos se davam como sinal de casamento e que até hoje ornamentam anéis que significam compromisso de vida.

Marcelo Barros

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