Comunidade: um jeito de ser e fazer a igreja

No tempo presente, o diálogo se faz urgente, como condição para constituição da identidade da pessoa. Diante do relativismo cultural entre o sujeito e o mundo que o rodeia, é indispensável uma interlocução, tendo em vista que somente na relação com o outro, que o indivíduo poderá descobrir-se a si mesmo, como sujeito protagonista de um mundo melhor, pleno do desejo e prática da justiça e santidade, na perspectiva da constituição de uma identidade coletiva, como resgate da cidadania e vida plena, como referencia a utopia da comunidade solidária.

Comunidade onde tem prevalência o espírito da partilha livre e consciente da produção da humanidade, porque ontem, hoje e sempre, “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade particular as coisas que possuía, mas tudo era posto em comum entre eles” (Atos 4, 32). Essa determinação Lucana, na atualidade é fonte de inspiração, de busca e travessia para a comunidade cristã.

A comunidade, desde outrora, se configura como arena do encontro, da escuta, diálogo, formação e celebração da vida. Isso significa reafirmar que, apesar da ambivalência e contradição sociopolítica, que está alimentando a cultura do escândalo e do descarte, o sentido da pertença, a comunidade continua sendo um fator significativo para formação da própria identidade da pessoa humana.

 

“É na comunidade que a gente se faz e espera o Reino de Deus, por isso que no aqui e agora ela permanece sendo o espaço de celebração da fé e da vida”

 

A Comunidade Eclesial de Base, como célula visível da Igreja Povo de Deus, se configura como espaço catalisador da mobilização da práxis do seguimento de Jesus  Cristo de Nazaré. No tempo de hoje, a CEB como substrato de mobilização interna da ação transformadora de “sujeitos eclesiais como sal da terra e luz do mundo”, precisa ser compreendida como um jeito de ser, fazer e acontecer a Igreja. É na comunidade que a gente se faz e espera o Reino de Deus, por isso que no aqui e agora ela permanece sendo o espaço de celebração da fé e da vida.

A comunidade de base é o espaço que contrapõe a lógica da cultura do individualismo egoísta, porque ela se constitui como lugar fundamental para agregação e acolhimento  da família, da criança, do jovem, das pessoas em todas as suas opções, orientações e dimensão da existência. A comunidade é o espaço que instiga a pôr-se a caminho com o outro, porque é o lugar de alegria “que se renova e comunica”, como destaca o Papa Francisco.

“O Evangelho convida-nos sempre a abraçar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com os seus sofrimentos e suas reivindicações, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado” (Evangelli Gaudium n.88).

 

“Igreja em saída, porém encarnada no mundo”

 

A comunidade é o lugar onde cada pessoa é conhecida e acolhida pelo nome. É também o espaço para educação do pensamento crítico para o discernimento político e amadurecimento da fé, constituição da identidade e resgate da humanidade da pessoa, através do diálogo com o outro na relação cotidiana. Porém, para um renovado impulso missionário, como protagonista da Igreja Povo de Deus, “é preciso cultivar sempre um espaço interior que dê sentido cristão ao compromisso e à atividade” (EG, n.262) na comunidade.

Partindo do pressuposto de que “o fundamento das CEBs se dirige como ideal a todos os cristãos. Todos são chamados a viver intensamente a comunhão fraterna e a integração entre fé e história a partir da realidade e vida concreta” (Documento CNBB 25, p. 20).

Ademar Carvalho, autor deste artigo, é assessor de CEBs em Mato Grosso e professor universitário.

A comunidade de comunidades, denominada de uma nova paróquia, no mundo urbano de hoje, precisa tomar consciência que é potencializadora, mobilizadora e mediadora da emergência de uma Igreja toda missionária, que enraíza um jeito de ser e fazer em pequenas comunidades, pautada na eclesiologia que compreende a Igreja como povo de Deus. Igreja em saída, porém encarnada no mundo. “Uma igreja pobre, para os pobres e com os pobres” (Doc. CNBB 102).

Pensando na possibilidade da construção de outro mundo possível, tomando como substrato o desejo da construção de uma cultura do encontro, porque o diálogo é a fonte geradora da reflexão e do compromisso político-eclesial, tendo em vista que, a vivência na comunidade educa o sujeito para a ação cristã que teme e pratica a justiça.

 

“A CEB é acima de tudo lugar de educação da fé, formação política e discernimento pelo caminho da justiça social e transformação da sociedade”

 

Portanto, é a CEB como comunidade de fé, serviço, escuta e diálogo, testemunho de Jesus Cristo vivo, que se abre ao outro na perspectiva do acolhimento inclusivo e cuidado com o desenvolvimento da pessoa humana por inteiro. A missão é ir por toda a parte fazendo o bem e libertar os pobres e oprimidos das algemas do poder hegemônico produtor da injustiça institucionalizada.

Como comunidade de fé e protagonista do cristão leigo, como sujeito eclesial e discípulo missionário, pode-se afirmar que a CEB é o espaço privilegiado da valorização da diversidade como riqueza humana, por isso que a comunidade em consonância com o seguimento de Jesus Cristo de Nazaré tem por primazia o respeito ao modo de pensar e liberdade de expressão do outro. A comunidade é também lugar para problematizar a desigualdade social, que se instaurou como modo de vida, que fere a dignidade da pessoa humana.

A CEB é acima de tudo lugar de educação da fé, formação política e discernimento pelo caminho da justiça social e transformação da sociedade. Comunidade de base é um jeito de ser e fazer a igreja, “fiel a Jesus Cristo, coloca-se a serviço do Reino de Deus. Jesus Cristo é a fonte de tudo o que a Igreja é e de tudo o que ela crê” (Doc da CNBB 102).

Conferência Episcopal de Medelín foi marco na igreja da América Latina. (Imagem: F.G. Savaira)

No seguimento, e ao mesmo tempo, colocando-se no movimento e práxis de um jeito de ser e fazer a igreja Povo de Deus, a Igreja de Mato Grosso, situando o território da Diocese Rondonópolis-Guiratinga, mobilizada a partir do compromisso instituído desde a Conferência Episcopal em Medelín que reconheceu que “a comunidade eclesial de base é o primeiro e fundamental núcleo eclesial.

É ela, portanto, célula inicial de estruturação eclesial e foco de evangelização” (Diretrizes Pastorais Diocese Rondonópolis-Guiratinga, n. 17), que prepara e mobiliza toda a Igreja Povo de Deus, nos próximos três anos, para recepcionar e celebrar o grande acontecimento do 15º Intereclesial.

Sem medo de ser feliz, todos são chamados para o efetivo exercício da condição de “sujeitos eclesiais”, colocando a serviço e missão de ser “sal da terra e luz do mundo”.

 

Ademar de Lima Carvalho, membro da assessoria Diocesana de CEBs (Rondonópolis-Guiratinga, MT – Regional Oeste 2) e professor universitário

 

 

 

 

 

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