MEDELLÍN 50 ANOS. Liberdade para ousar. Agenor Brighenti*

Há exatamente 50 anos, de 24 de agosto a 06 de setembro de 1968, realizava-se em Medellín a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, no contexto do Concílio Vaticano II.  Medellín, mais que um Documento, é um espírito, um ponto de partida, uma perspectiva, o desencadeamento de uma tradição autóctone. Ele continua fazendo caminho, sobretudo, através de uma rede capilar de comunidades eclesiais inseridas nos meios populares, sem alarde, em grande medida brasas sob cinzas nestes tempos de inverno eclesial, mas na fidelidade ao evangelho da justiça, do amor e da paz.

Uma recepção criativa do Vaticano II

A força e a atualidade de Medellín estão em sua ousadia de fazer uma “recepção criativa” do Concílio Vaticano II, no contexto particular da Igreja na América Latina. Seu episcopado, é verdade, até então acostumado a uma postura mimética de decisões de além-mar, pouco havia contribuído com o evento. Entretanto, a participação ativa no mesmo, além de possibilitar uma maior integração entre seus membros, propiciou-lhe voltar para casa, imbuído de seu espírito. Tanto que os Bispos da América Latina foram os primeiros no mundo, a dar um rosto próprio a suas Igrejas Locais. Para eles, terminado o evento, não se tratava de simplesmente implementar o Concílio, mas de recebê-lo de forma contextualizada, buscando situar “A Igreja na atual transformação da América Latina à luz do Concílio”, conforme atesta o título do Documento de Medellín.

O início de uma tradição latino-americana

O tempo se encarregaria de mostrar de que se tratava de uma aventura permeada de riscos e conflitos, mas, sobretudo de resultados alvissareiros, tanto que suas intuições fundamentais foram resgatadas e re-impulsionadas por Aparecida. Em outras palavras, na fidelidade aos eixos fundamentais do Concílio, com Medellín houve “encarnação” e “desdobramentos”, diríamos hoje “inculturação”, fazendo do Vaticano II não só um ponto de chegada, mas especialmente um ponto de partida para uma evangelização contextualizada, na perspectiva dos pobres. Com Medellín, a Igreja na América Latina deixa de ser uma “Igreja reflexo”, para desencadear um processo de tecitura de um rosto e de uma palavra própria, que redundou na “tradição latino-americana”.

Liberdade para ousar

Diferente destes tempos de involução eclesial e de entrincheiramento identitário, o Papa João XXIII, desde o início de seu pontificado, insistia na necessidade de uma ação eclesial de conjunto na América Latina, que desembocasse num plano de ação. Entretanto, as disparidades entre os Bispos impediam sua concretização. Seria preciso esperar a maior integração do episcopado propiciada pela participação nos trabalhos do Concílio e, sobretudo, a sintonia com seu espírito, para que, ao final do mesmo, se expressasse ao Papa o desejo de convocação de uma Conferência para pôr em prática o Vaticano II no Subcontinente.

Medellín, diferente das demais Conferências, teve um excelente processo de preparação, na perspectiva do Concílio, com diversos encontros promovidos pelos Departamentos do Celam: em 1966, em Baños (Equador), se refletiu sobre a pastoral de conjunto, educação, ação social e leigos; no mesmo ano, em Mar del Plata (Argentina), se estudou a aplicação da Populorum Progressio na América Latina e, em Lima, o importante tema da educação; em 1967, em  Buga (Colombia) se abordou a questão da universidade católica e a pastoral universitária; em 1968, em Melgar (Colômbia), estudou-se os novos desafios em torno à missão ad gentes, concretamente em relação aos povos indígenas e afro-americanos.

Para a realização da Assembléia, como metodologia de trabalho, adotou-se o método ver-julgar-agir da Ação Católica, recentemente assumido pelo Concílio, mais concretamente na Gaudium et Spes. Como ótica de fundo, adota-se também a perspectiva libertadora, que rompe com a postura desenvolvimentista reinante, colocando-se as bases da futura teologia da libertação. Participaram da Assembléia de Medellín 249 pessoas: 145 bispos, 70 presbíteros, 10 religiosos, 19 leigos e 9 observadores. Diferente da Conferência do Rio de Janeiro (1955), houve participação de não-bispos e o Documento foi publicado imediatamente à Assembléia, sem passar por Roma. Eram outros tempos.

Desafios e respostas pastorais

Em Medellín, ecoou o grito do sofrimento dos pobres, que delatava o cinismo dos satisfeitos. Sob a ótica dos pobres, em Medellín, os Bispos se propõem a ajudar a responder a quatro desafios principais do Subcontinente: primeiro, a fé cristã confrontada com o grave fenômeno da pobreza, que ameaça a vida de grande parte da população; segundo, desenvolver uma ação evangelizadora que chegue aos setores populares e também às estruturas de poder; terceiro, promover uma libertação integral, que conjugue simultaneamente mudança pessoal e mudança das estruturas; e, quarto, promover um novo modelo de Igreja – autenticamente pobre, missionária e pascal, desligada de todo poder temporal.

Como respostas pastorais concretas a estes desafios, apoiado no Vaticano II, o Documento de Medellín, propõe, entre outros: a opção pelos pobres, contra a pobreza, como forma de testemunho do Evangelho de Jesus Cristo; a vivência da fé cristã em comunidades eclesiais de base, alicerçadas na leitura popular da Bíblia e inseridas no lugar social dos pobres; uma evangelização que promova a vida em todas as dimensões da pessoa; uma reflexão teológico-pastoral, ancorada nas práticas libertadoras; a presença profética no seio da sociedade, sem medo de ir até o fim, na defesa dos excluídos, etc.

Os pilares de uma tradição alicerçada no Vaticano II

  • Igreja Comunhão e CEBs. Superando o binômio clero-leigos, o Vaticano II concebeu a Igreja como a comunidade dos batizados, na comunhão da radical igualdade em dignidade de todos os ministérios. Tirando conseqüências desta nova postura, para Medellín, a comunhão eclesial, real e palpável, acontece nas comunidades eclesiais de base (Med 7,4) célula inicial da estruturação eclesial, foco de evangelização (Med 15,10).
  • Pastoral de conservação e evangelização. Para Medellín, com o Vaticano II, se a comunidade dos batizados, em todos os seus membros, é o sujeito eclesial, então, é também a comunidade, como um todo, o sujeito da ação evangelizadora (Med 6,13; 9,6). Por isso, é preciso passar de uma pastoral de conservação, alicerçada na sacramentalização, para uma ação com ênfase na evangelização (Med 6,1; 6,8). Passar da paróquia tradicional, uma estrutura centralizadora e clerical, a comunidades de serviço, no seio da sociedade, de forma propositiva e transformadora (Med 7,13).
  • Igreja dos pobres e Igreja pobre. O Vaticano II conclama sermos “uma Igreja dos pobres para ser a Igreja de todos”. Para Medellín, não basta uma Igreja dos pobres. A ação evangelizadora, enquanto testemunho de Jesus, “que sendo rico se fez pobre para nos enriquecer com sua pobreza”, passa pela visibilidade de uma Igreja pobre (Med 14,7).
  • Do pobre, objeto de caridade, a sujeito de sua libertação. O Vaticano II fala de Deus a partir do ser humano e busca servir a Deus, servindo o ser humano. Na ação evangelizadora, opta pelo ser humano. Para Medellín, dada nossa situação de exclusão tão escandalosa aos olhos da fé e a predileção de Deus pelos excluídos, é preciso optar pelos pobres (Med 14,9). Não fazendo deles um objeto de caridade, mas sujeito de sua própria libertação, ensinando-lhe a ajudar-se a si mesmo (Med 14,10).
  • Opção pelo sujeito social – o pobre – e pelo seu lugar social. O Vaticano II conclamou a Igreja inserir-se no mundo, dado que, embora não seja deste mundo, ela está no mundo e existe para o mundo. Medellín se perguntará: inserir-se dentro de que mundo? Do mundo da minoria dos incluídos ou da maioria dos excluídos? Em conseqüência, a opção pelo sujeito social – o pobre – implica igualmente a opção pelo seu lugar social. A evangelização, enquanto anúncio encarnado, precisa do suporte de uma Igreja sinal, compartilhando a vida dos pobres (Med 14,15) e sendo uma presença profética e transformadora (Med 7,13).
  • Evangelização, promoção humana e conversão das estruturas. O Vaticano II superou todo dualismo entre matéria-espírito, corpo-alma, sagrado-profano, história e meta-história. Em conseqüência, para Medellín, como não há duas histórias, mas uma única história de salvação que se dá na história profana, a obra da salvação é uma ação de libertação integral e de promoção humana (Med 2,14,a; 7,9; 7,13; 8,4; 8,6; 11,5). Toda libertação é já uma antecipação da plena redenção em Cristo (Med 4,9). A missão evangelizadora abarca também as estruturas: “não teremos Continente novo, sem novas e renovadas estruturas” (Med 1,3; 1,5).
  • Diakonía histórica, profetismo e martírio. Para o Vaticano II, a Igreja precisa exercer uma diakonía histórica, ou seja, um serviço no mundo, que contribua com o progresso e o desenvolvimento humano e social. Medellín, em sua opção pelos pobres e seu lugar social, faz da diakonía um serviço profético. A missão evangelizadora se concretizará na denúncia da injustiça e da opressão, constituindo num sinal de contradição para os opressores. O serviço profético pode levar ao martírio, expressão da fidelidade à opção pelos pobres. (Med 14,10).

 

 Agenor Brighenti. Doutor em Ciências Teológicas e Religiosas pela Universidade de Louvain/Bélgica, professor de teologia na Pontifícia Universidade Católica de Curitiba, membro da Equipe de Reflexão Teológica do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM). Foi perito do CELAM na Conferência de Santo Domingo e, da Conferência dos Bispos do Brasil, em Aparecida.

 

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