Medellín: As CEBs são Célula Inicial de Estruturação Eclesial. Cinco notas fundamentais de sua identidade. Benedito Ferraro

O ser da Igreja (At. 2, 42-47) e, portanto, das CEBs é ser uma comunidade missionária revelando e realizando, a todos os povos e em todos os tempos, a presença libertadora de Jesus pelo seu Espírito.

A Articulação Continental Latino-americana e Caribenha das Comunidades Eclesiais de Base, como parte do seu serviço, oferece ao Povo de Deus uma síntese da identidade das CEBs, recolhida de seu caminhar nas últimas décadas.

As CEBs são célula inicial de estruturação eclesial (Medellín 15,10) e são Igreja sacramento (LG 1 y 26); procuram ser fieis à missão que Jesus Cristo nos deixou. Em comunidade “partilhamos o pão” memória viva na base da igreja e da sociedade, com profundo sentido de participação sinodal (Vaticano II).

Cinco notas fundamentais de sua identidade:

  1. O SEGUIMENTO DE JESUS DE NAZARÉ E O PROJETO DO REINO DE DEUS.

Seguem Jesus de Nazaré, aquele que “sendo de condição divina se abaixou e se fez escravo” (Fl 2, 7), e vivendo sua condição humana na realidade pobre da Galileia realizou sua missão, sempre em saída (Mc 1,10.38; 13, 1).

O centro da missão de Jesus Cristo está no anúncio do Reino de Deus. Jesus indica que o Reino está no meio de nós e caminha até a plenitude. Anuncia sua presença com sinais: a inclusão dos marginalizados, o amor acima da Lei e a defesa irrevogável da vida (Mc 2, 1-3,6). Esses princípios configuram o projeto de vida de Jesus de Nazaré em fidelidade ao Pai e ao impulso do Espírito. As comunidades afirmam seu desejo e prontidão para seguir o mesmo caminho.

São convocadas por Jesus para formar comunidades de irmãs e irmãos, fraternas, sororais e solidárias, buscando dignidade de vida para todas e todos. Como Ele, querem estar no meio dos pequenos e daí realizar sua missão.

O ser da Igreja (At. 2, 42-47) e, portanto, das CEBs é ser uma comunidade missionária revelando e realizando, a todos os povos e em todos os tempos, a presença libertadora de Jesus pelo seu Espírito.

Com esse Jesus que experimentou a perseguição, conheceu a dor e o sofrimento, e morrendo abriu, pela sua ressurreição, um novo horizonte de vida, as CEBs querem continuar o projeto do Reino de Deus.

  1. CENTRALIDADE DA PALAVRA DE DEUS COM A FORÇA DO ESPÍRITO.

As CEBs sentem-se impulsionadas pelo Espírito de Deus, a quem Jesus chamava Abba, e com quem se relacionou como Filho amado; nessa experiência de proximidade e abertura sentem-se interpeladas a escutar e acolher Deus na vida, nos acontecimentos do dia-a-dia e do mundo. Elas reconhecem os sinais dos tempos que o Espírito lhes segue indicando para continuar a missão. É a partir dessa dinâmica que as CEBs aproximam-se dos textos da Bíblia buscando neles luz e força para reconhecer a vontade de Deus, o caminho que têm que seguir e as ações que devem realizar.

As CEBs são convocadas pela Palavra, que, para nós cristãos e cristãs, é o mesmo Jesus Cristo. Reconhecem a continuidade dessa Palavra que se manifesta na realidade e que acontece com a força do Espírito. Assumem que a criação divina é um processo aberto e a semente da Palavra continua o agir na história nas diversas expressões da realidade como bem diz São Justino no século II e retomada pelo Concílio Vaticano II.

A Sagrada Escritura, Palavra de Deus, é um caminho pelo qual as CEBs podem reafirmar, hoje, a esperança de um mundo onde mulheres e homens, jovens e crianças vivam com dignidade no Amor.

  1. ESPIRITUALIDADE PROFÉTICA E LIBERTADORA.

As CEBs expressam sua fé através do anúncio e da denúncia profética, rompendo com as correntes injustas e assumindo a dimensão libertadora. Sua espiritualidade está encarnada nas realidades cotidianas onde experimentam a presença de Deus em suas vidas. Essa espiritualidade vive-se no seguimento de Jesus, a exemplo de Maria do Magnificat e é impulsionada pelo testemunho dos mártires, que são modelo de ação na defesa da vida e dos direitos dos pobres.

As CEBs saboreiam e celebram, unindo fé e vida em todas suas dimensões: econômica, social, política, cultural e ecológica; o fazem de forma festiva, criativa e participativa, fazendo memória pascal de Jesus.

O caminho espiritual das CEBs é construído pelo compromisso vinculado com uma dimensão profunda da pessoa, de modo profético e libertador, abertas também ao diálogo ecumênico e inter-religioso na defesa da vida e no cuidado da Casa Comum. Sua espiritualidade se fundamenta na Páscoa de Jesus (Eucaristia) e se expressa compassiva e solidariamente com quem sofre e na luta contra toda injustiça.

  1. OPÇÃO PELOS POBRES.

As CEBs vivem sua opção a partir, entre e com os pobres, compartilhando as alegrias e dificuldades do dia-a-dia, na busca de uma sociedade sem desigualdade, injustiça e opressão. Os pobres conhecem o sofrimento, mas sabem que Deus não os abandona nunca. A opção pelos pobres é teológica, cristológica, pneumatológica e eclesiológica. Como diz o Papa Francisco: “… a opção pelos pobres é mais uma categoria teológica que cultural, sociológica, política ou filosófica. Deus manifesta a sua misericórdia antes de mais a eles. Essa preferência divina tem consequências na vida de fé de todos os cristãos, chamados a possuir «os mesmos sentimentos que estão em Jesus Cristo” (Fl 2,5)” (EG, 198)

Faz-se necessário, como diz a Conferência de Aparecida, identificar quem são os pobres e todas aquelas pessoas que vivem nas periferias geográficas, culturais e existenciais (Cf. Aparecida, 402); eles são fruto de um processo de exploração e empobrecimento por um sistema injusto.  Sofrem com o abandono por parte das estruturas sociais e políticas e, às vezes, pela própria Igreja.

As CEBs reconhecem a força histórica dos pobres e, como Jesus, assumem suas causas, vendo neles os protagonistas das transformações estruturais da sociedade e apontando para um projeto que garanta a vida plena em harmonia com a Mãe Terra.

  1. COMPROMISSO COM AS TRANSFORMAÇÕES ESTRUTURAIS DA SOCIEDADE.

As CEBs:

Buscam responder aos sinais dos tempos, ao denunciar a injustiça institucionalizada e o pecado social que mata a vida através de uma economia de exclusão, da idolatria do dinheiro que domina em vez de servir, gerando violência contra os pobres. (cf. EG, 53-60).

Assumem que a luta social e ecológica é uma única luta, porque estão convencidas de que “outro mundo é possível, urgente e necessário”. Isso implica uma tríplice mudança: pessoal, coletiva e estrutural. Não é possível, como diz o Papa Francisco, que haja famílias sem teto, sem trabalho e sem terra.

Participam e reforçam os projetos alternativos, sustentáveis e equitativos apontando para um novo modo de produção e consumo socioambiental.

Identificam-se e assumem a proposta do Bem Viver, Bem Conviver, que vem dos povos originários e indica um estilo de vida e valores contrapostos ao atual sistema.

Procuram participar nas lutas dos movimentos sócio-populares e políticos que assumem o compromisso pela transformação estrutural.

Esse modo de ser e viver a Igreja e anúncio de uma sociedade alternativa é um processo inacabado, aberto ao Espírito até chegar aos novos céus e nova terra (cf. Ap,  21).

Por Benedito Ferraro- Articulação Continental

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