MEDELLÍN 50 ANOS DEPOIS:  INTUIÇÕES PENDENTES. Agenor Brighenti

 Nos últimos anos, graças ao pontificado reformador do Papa Francisco, os “ventos que sopram do Sul” (A. Spadaro) reacenderam as intuições de Medellín, guardadas zelosamente, mas pendentes de tempo favorável e terreno propício para continuar seu processo. O momento chegou. É hora de revisitar algumas destas intuições pendentes.

Medellín é mais que um documento e uma Conferência de bispos. É um evento que tem um antes (processo de preparação), um durante (assembleia) e um depois (processo de recepção). Tal como o Concílio Vaticano II, Medellín, em suas intuições básicas e eixos fundamentais, já vinha sendo gestado durante a década de 1960, especialmente nos movimentos sociais e eclesiais dos meios populares. Entretanto, é a Conferência de Medellín (1968) que inaugura a tradição eclesial libertadora no Continente, dando à Igreja um rosto próprio plasmado pela opção pelos pobres, as comunidades eclesiais de base, a leitura popular da Bíblia, a pastoral social e “os mártires das causas sociais” (R. Antoncich), assim como uma palavra própria – a teologia da libertação. Finalmente, através de uma “recepção criativa” (J. Sobrino) do Vaticano II, a Igreja na América Latina deixaria de ser uma “Igreja reflexo” para ser uma “Igreja fonte” (H. Lima Vaz).

Medellín, tal como o Concílio Vaticano II, é um destes raros momentos na história da Igreja, em que “teologia e magistério coincidem” (José Comblin). Mas, foi por pouco tempo, pois, Puebla já seria um freio a Medellín e, Santo Domingo, praticamente seu estancamento. Com exceção da década de 1970, período de grande dinamismo e criatividade em torno às intuições de Medellín, até a Conferência de Aparecida (2007), a “Igreja da libertação” sobreviveu graças a muita resistência e generosa resiliência, como “brasas sob cinzas” (L. Boff). Nos últimos anos, graças ao pontificado reformador do Papa Francisco, os “ventos que sopram do Sul” (A. Spadaro) reacenderam as intuições de Medellín, guardadas zelosamente, mas pendentes de tempo favorável e terreno propício para continuar seu processo. O momento chegou. É hora de revisitar algumas destas intuições pendentes.

Ver desde o reverso da história

Uma das intuições centrais de Medellín é a necessidade de a Igreja mudar de função. Historicamente, ela esteve ligada à colonização, à escravidão dos índios e dos negros, assim como às oligarquias, consciente ou inconscientemente exercendo uma função legitimadora dos regimes de opressão. Em Medellín, a Igreja se vê desafiada a ver desde o “reverso da história” (G. Gutiérrez) e, consequentemente, a mudar de função. Para isso, precisava desvencilhar-se das amarras dos “vencedores” e assumir a causa dos “vencidos”. Para os bispos, os fatos são inegáveis:  há uma situação de “miséria que marginaliza” e, por ser um “fato coletivo”, é “uma injustiça que brada aos céus” (Med 1,1); há uma ordem social que gera exclusão, fruto de “causas estruturais”, que levam “a cometer pecado no plano social”, tanto que o acesso a bens e serviços está restrito “os setores de alto poder aquisitivo” (Med 1,2).

Diante de tal situação, para Medellín, como falar de um Deus Pai, num mundo de crucificados? A situação de miséria de grandes contingentes da sociedade, “delata o cinismo dos satisfeitos” (Cecilio de Lora). O Vaticano II conclamou a Igreja a inserir-se no mundo. Mas, a Igreja na América Latina se perguntaria: mas, inserir-se dentro de que mundo? Do mundo dos 20% de incluídos ou do mundo dos 80% de excluídos, para promover um mundo inclusivo de todos? Daí o imperativo evangélico da opção pelos pobres (Med 14,9), os preferidos de Deus, a serem assumidos não como “objetos de caridade”, mas sujeitos de uma sociedade inclusiva de todos, “respeitando sua dignidade pessoal e ensinando-lhes a ajudarem-se a si mesmos” (Med 14,10).

A libertação é um ideal, não dos vencedores, mas dos vencidos. É uma das intuições pendentes de Medellín. Para resgatar este ideal, a Igreja na América Latina precisa voltar a olhar uma sociedade excludente desde o reverso da história, pois “desde a periferia, se vê melhor a realidade” (Papa Francisco).

O centro da Igreja é a periferia

Ver desde o “reverso da história”, levou a Igreja em Medellín a perceber que, além de mudar da função, implicava também mudar de lugar. Optar pelo “sujeito social” – o pobre, implica situar-se no “lugar social” dos pobres, ou seja, migrar do “centro” onde se situam os incluídos à “periferia” onde moram os excluídos. Por isso, como “a evangelização precisa como suporte de uma Igreja sinal” (Med 7,13), “todos os que sentem a vocação de compartilhar a sorte dos pobres”, precisam ir “viver com eles e trabalhar com suas mãos” (Med 14,15).

Fruto de Medellín, contingentes importantes de cristãos, em especial da vida consagrada, foram se inserir nos meios populares, não sem a acusação de segmentos conservadores da Igreja de “politização da fé” ou de “secularismo”. Pressões de toda sorte, acabaram obrigando várias congregações religiosas deixar as periferias e voltar aos seus conventos. Entretanto, muitos destes religiosos e religiosas, assim como padres, leigos e leigas inseridos, integram a constelação dos “mártires das causas sociais”. Ultimamente, na perspectiva de Medellín, o Papa Francisco tem conclamado a Igreja “a sair para as periferias, sem domesticar as fronteiras”. A ser, antes de tudo, uma “Igreja samaritana” (Paulo VI). Esta é outra das intuições pendentes de Medellín. No contexto dos 50 anos do Vaticano II, o Pacto das Catacumbas, subscrito também por um grupo de bispos do Continente tendo à frente Dom Hélder Câmara, tem sido revisitado e novamente desafiado os cristãos a uma solidariedade presencial com os pobres.

De uma Igreja para os pobres a uma Igreja pobre

Ver desde o “reverso da história”, assim como situar-se na periferia, para uma real e efetiva opção pelos pobres, não basta uma Igreja “dos pobres” e “para os pobres”. Implica uma “Igreja pobre”. Para Medellín, “a pobreza da Igreja deve ser sinal e compromisso de solidariedade com os que sofrem” (Med 14,7). Toma-se consciência que o mensageiro também é mensagem; que a instituição eclesial, em sua organização e estruturas, também é mensagem.

Expressão de uma Igreja despojada e pobre, para Medellín, é uma Igreja comunidade de pequenas comunidades de base, inseridas em perspectiva libertadora no seio de uma sociedade excludente. Trata-se de comunidades “de apóstolos em seu próprio ambiente” (Med 7,4), “o primeiro e fundamental núcleo eclesial, a célula inicial de estruturação eclesial, foco de evangelização e fator primordial de promoção humana e desenvolvimento”, o “rosto de uma Igreja pobre” (Med 15,10). A opção pelos pobres, visibilizada também em uma Igreja pobre e em comunidades despojadas, inseridas nas periferias, é uma das intuições de Medellín, que guarda toda sua vigência. A prática de aumentar o tamanho dos templos em lugar de multiplicar o número das pequenas comunidades, assim como o perfil do pastores “sem cheiro de ovelha”, delata o distanciamento do real da realidade dos pobres.

Uma nova evangelização

A opção pelos pobres, além de levar a Igreja a ver a se configurar de modo diferente, implica sobretudo a agir diferente, isto é, a levar a cabo uma “nova evangelização”. Esta é uma categoria de Medellín, que depois de elencar os “compromissos da Igreja latino-americana” para levar adiante a renovação do Vaticano II, fala da necessidade de “alentar uma nova evangelização (…), para obter uma fé mais lúcida e comprometida”. Mais adiante, os Bispos vão dizer que, para isso, será preciso superar o modelo pastoral pré-conciliar e de cristandade – a “pastoral de conservação” -, “baseada numa sacramentalização com pouca ênfase na prévia evangelização”; a pastoral de “uma época em que as estruturas sociais coincidiam com as estruturas religiosas…” (Med 6,1).

Mais tarde, haveria uma apropriação da categoria “nova evangelização”, dando-lhe um sentido inverso. Em lugar de uma postura de pós-cristandade, em nome de uma suposta nova evangelização, se propagará um projeto de neocristandade, que consistia em ir para fora da Igreja, para trazer de volta os católicos afastados para dentro dela. Entretanto, “nova evangelização” na perspectiva da renovação do Vaticano II e da tradição eclesial latino-americana é reinocêntrica e não eclesiocêntrica; é missão centrífuga e não centrípeta; é de interação com o mundo moderno e pós-moderno e não de postura apologética; é promotora de uma salvação da pessoa inteira e de todas as pessoas e não espiritualizante e a-histórica; é centrada na Palavra e não na doutrina; é dialogal e propositiva e não apoiada no marketing; é interpessoal e não massiva e mediática, etc. Dada sua descaracterização, em lugar de “nova evangelização”, o Papa Francisco fala de uma “Igreja em saída”, tal como a evangelização é concebida em Medellín. Romper com uma Igreja “auto-referencial”, com uma missão centrípeta, é outra das intuições pendentes de Medellín.

A salvação como libertação integral

Em Medellín, há uma nova concepção de salvação. Segundo os bispos, “a obra divina de salvação é uma ação de libertação integral e de promoção humana” (Med 1,4). Dado que “toda libertação é já uma antecipação da plena redenção em Cristo” (Med 4,9), a salvação implica “a passagem de condições menos humanas a condições mais humanas” (Med 2,14a).  E como o Reino inaugurado por Jesus expressa os desígnios de Deus para a globalidade da Criação e que a Ressurreição de Jesus é primícia da Nova Criação, o compromisso social ou o progresso temporal adquirem uma dimensão transcendental.

O resgate de uma antropologia unitária pelo Vaticano II, assim como dos laços intrínsecos entre plano da redenção e plano da criação, levou a Igreja na América Latina a postular a “unidade da história” (a transcendência na imanência), superando todo tipo de dualismo. A salvação se dá na vida. A fé cristã abarca a pessoa inteira e todas as pessoas, em todos os seus atos, realizados em todas as esferas. Nada do que é humano é alheio a Deus, presente em tudo e em todos. E nada do que fazemos é neutro diante dele, assim como os acontecimentos gestados coletivamente pela história da humanidade. A salvação se dá na história, na história da humanidade, na qual Deus se faz presente e atua por sua graça redentora, que se apoia sobre a natureza. Na esfera da experiência religiosa nos dias atuais, o deslocamento do profético ao terapêutico, da ética para a estética e da militância para a esfera de uma espiritualidade intimista e providencialista, faz da salvação como libertação integral, uma das intuições de Medellín a recobrar toda sua relevância.

A injustiça institucionalizada como pecado social

Em Medellín, a miséria coletiva é fruto de uma “violência institucionalizada” (Med 2,16) e por estar presente na vida da sociedade como um todo, constitui-se num “pecado social”. Este é entendido não como a soma de pecados individuais, que para erradicá-lo bastaria a “conversão do coração” das pessoas, mas como pecados individuais que passaram para as instituições. Para erradicá-lo só com “conversão das estruturas”: “não teremos Continente novo, sem novas e renovadas estruturas” (Med 1,3), sem “o desenvolvimento integral de nossos povos” (Med 1,5), dizem os bispos.

A conversão das estruturas implica o engajamento dos cristãos na sociedade autônoma enquanto cidadãos, consequente com o Evangelho social e suas implicações para a justiça social, que exige uma nova ordem econômica, política e cultural, capaz de criar um mundo onde caibam todos. Daí o imperativo de Medellín da inserção dos cristãos na política, da necessidade da mudança das estruturas de exclusão, assim como da militância na defesa e promoção de direitos individuais e sociais, o posicionamento profético frente a um sistema econômico, que como diz o Papa Francisco, “é injusto em sua raiz” (EG 59), pois promove “uma economia que mata” (EG 53). A “injustiça institucionalizada” como “pecado social”, que se erradica com conversão das estruturas, é outra das intuições arrojadas de Medellín, mais pendentes na ação da Igreja, hoje.

A diakonía histórica como profetismo

Para o Vaticano II, a Igreja precisa exercer uma diakonía histórica, ou seja, um serviço “no” mundo (GS 42), que contribua para o progresso e o desenvolvimento humano e social (GS 43). Medellín, com a opção pelos pobres e seu lugar social, faz da diakonía um serviço profético. Para os bispos, a evangelização “se concretizará na denúncia da injustiça e da opressão” (Med 14,10), um compromisso que pode levar ao martírio, a dar a vida para que outros tenham vida.

Com Medellín surge um novo perfil da vocação à santidade, como expressão da vivência da fé cristã na fidelidade à opção pelos pobres, em uma sociedade injusta e excludente. A missão evangelizadora inevitavelmente torna-se sinal de contradição para os opressores e suas estruturas injustas. E, com isso, a figura do discípulo-missionário de Jesus de Nazaré, associa-se ao testemunho dos “mártires das causas sociais”, que tem em Mons. Romero o primeiro deles a ser canonizado – “não deixem morrer a profecia”, foram uma das últimas palavras de Dom Hélder Câmara, que fazem eco de uma das intuições mais caras de Medellín.

Considerações finais

Nas intuições de Medellín “a esperança dos pobres vive” (J. Comblin). Entretanto, como a esperança cristã é uma esperança ativa, esperar é ir antecipando na concretude da história as aspirações dos pobres, os bem-aventurados de Deus. Entretanto, como diz Aparecida, tem nos faltado “coragem, persistência e docilidade para continuar a renovação iniciada pelo Vaticano II e impulsionada pelas demais Conferências Gerais anteriores, em vista de um rosto latino-americano e caribenho de nossa Igreja” (DAp 100h). Prova disso, são “as tentativas de voltar a uma eclesiologia e espiritualidade contrárias à renovação do Vaticano II” (DAp 100b). Dado o prolongamento da “paixão de Jesus Cristo na paixão do mundo” (L. Boff), não basta que as intuições de Medellín estejam vigentes. É grave que, em grade medida, continuem pendentes, apesar do novo momento eclesial criado pelo pontificado de Francisco. É hora de retomar o caminho e de avançar. No horizonte da libertação, está a liberdade, que nos liberta e nos faz livres.

 

Agenor Brighenti. Doutor em Ciências Teológicas e Religiosas pela Universidade de Louvain/Bélgica, professor de teologia na Pontifícia Universidade Católica de Curitiba, membro da Equipe de Reflexão Teológica do Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM). Foi perito do CELAM na Conferência de Santo Domingo e, da Conferência dos Bispos do Brasil, em Aparecida.

 

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