Pela radicalização da Democracia Pe. Nelito Dornelas

Prosseguimos caminhando e cantando, acreditando nas flores vencendo os canhões, animados pela fé de Jesus Cristo.       O Brasil, em seus 518 anos de história oficial, teve pouco menos de 50 anos de democracia. Através da linguagem  o poder domina as pessoas por dentro. Cuidemos, pois, da linguagem democrática até que ela se transforme em uma cultura democrática.

O cenário político brasileiro está muito escuro, pois uma nuvem densa paira sobre o nosso querido Brasil. Mas, apesar da escuridão, prosseguimos caminhando e cantando, acreditando nas flores vencendo os canhões, animados pela fé de Jesus Cristo que, se manteve fiel ao projeto do reinado de Deus, mesmo passando pela morte e morte de Cruz, e ressuscitado revive no meio de nós, dando-nos lucidez, coragem e ousadia. Inspirados no gesto profético do Papa Francisco ousamos dizer: ninguém pode exigir de nós que releguemos a religião a uma intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos (EG, 183).

               Nesse momento de crise política e de acirramento ideológico, com o ressurgimento de grupos reacionários e retrógrados que, como múmias fossilizadas querem nos assombrar, defendendo a volta do entulho do autoritarismo, para além do que já temos, precisamos, minimamente, abrir uma fresta de luz sobre esta escuridão.

               Passaram-se os 518 anos do chamado “descobrimento” do Brasil, que na verdade foi uma invasão. Outros países latino americanos preferem chamar de encontro entre povos, choques de culturas e até mesmo de colisões de rotas. Para compreender esse episódio, sirvo-me da imagem usada por Rubem Alves sobre a vocação política como a arte da jardinagem. Segundo a questão dos referidos “descobridores”, ao chegar na Pindorama, Terra Brasilis, não encontraram um jardim, mas uma selva. Como selva não é jardim, elas são cruéis e insensíveis, indiferentes ao sofrimento e à morte. Uma selva é uma parte da natureza ainda não tocada pela mão do homem. Aquela selva poderia ter sido transformada num jardim, mas não foi. Os que sobre ela agiram não eram jardineiros, eram lenhadores e madeireiros. E foi assim que aquela selva, que poderia ter se tornado jardim para a felicidade de todos, foi transformada em desertos salpicados de luxuriantes jardins privados, onde uns poucos encontram vida e prazer em detrimento e privação à felicidade da maioria.

               Há “descobrimentos” de origens, porém mais belos são os descobrimentos de destinos. Talvez, então, se os políticos por vocação se apossarem do jardim, poderemos começar a traçar um novo destino. Então, ao invés de desertos e jardins privados, teremos um grande jardim para todos, obra de homens e mulheres que tiveram o amor e a paciência de plantar árvores à cuja sombra nunca se assentariam.

               Tão bonita é a ideia da democracia, melhor não há, embora, na sua origem a democracia grega já fosse excludente, mesmo assim, ainda não foi inventada outra forma de organização da vida em sociedade que a superasse. Somente pela democracia se alcança e se constroi o ideal de uma sociedade com os cidadãos e cidadãs educados, conscientes das suas necessidades, no exercício da sua liberdade, sem compulsões, sem enganos, que, escolhem, por meio do voto, aqueles que serão os seus representantes. Nada mais transparente e mais honesto que este método. Só não podemos nos contentar com isso. Temos que radicalizar e aprofundar a democracia representativa, construindo a democracia participativa e direta.

               E os representantes do povo, dominados por um único ideal devem trabalhar para o bem comum. No ato de se aceitarem como representantes do povo eles deixam de lado a sua vontade, os seus interesses privados, particulares, tornando-se depositários da vontade do povo. Quando pensam e agem não o fazem a partir de seus interesses ou de grupos poderosos e econômicos. Apenas uma pergunta informa o seu pensar e o seu agir: “É do interesse do povo?” É assim que eu quero. É assim que todo mundo quer. Como é linda a democracia quando escrita no papel! O problema é que o que está escrito não é aquilo que é vivido.

               E o Brasil, em seus 518 anos de história oficial, teve pouco menos de 50 anos de democracia. Todo o restante de nossa história foi marcada por ditaduras. Só de escravidão tivemos trezentos anos e sua abolição se deu formalmente a apenas 130 anos. A própria proclamação da República foi um golpe militar. Que pena! Estamos agora num campo de batalha política na área da linguagem. George Orwell percebeu, como ninguém, que o poder é um jogo no qual a peça mais poderosa é a linguagem. É através da linguagem que o poder domina as pessoas por dentro. Cuidemos, pois, da linguagem democrática até que ela se transforme em uma cultura democrática.

Por Nelito Dornelas

Foto: Irenir #cebsdobrasil

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