José Ricardo Wendling: “um padre que apóia Bolsonaro deveria sair da Igreja católica, porque ela não prega isso”

“envolver-se na política é uma obrigação para um cristão. Nós não podemos fazer como Pilatos e lavar as mãos, não podemos” Papa Francisco

José Ricardo Wendling, foi o deputado federal mais votado no estado de Amazonas, com mais de 197.000 votos, na eleição do dia 7 de outubro. Ele se declara cristão e ao longo da sua vida sempre participou e prestou diferentes serviços na Arquidiocese de Manaus. Dele poderíamos dizer que é um católico alinhado com as propostas do Papa Francisco, que é a proposta de Jesus Cristo, estar do lado dos mais pobres.

Brasil está vivendo “uma situação que ninguém esperava”, segundo o deputado federal eleito, “com um discurso efetivamente absurdo para nossa realidade brasileira”, pudendo dizer em sua opinião que “estamos vivendo uma situação surpreendente e diante de um quadro que preocupa a muita gente”. Por isso, como católico, José Ricardo Wendling, diz que a Igreja tem que “denunciar que tem uma candidatura fascista, uma candidatura que lembra o nazismo, uma candidatura que não tem proposta nenhuma e ela estimula a violência inclusive de seus adeptos”, defendendo que a Igreja católica tem que ser mais explícita em sua postura neste momento de particular importância que o Brasil está vivendo.

Ele chega afirmar que um cristão não pode votar em Jair Bolsonaro “porque prega violência, totalmente fora daquilo que o cristão”, deixando claro que Jesus “denunciava a exploração das lideranças religiosas e políticas contra os mais pobres”. Diante disso o deputado afirma que “esse tem que ser o critério da política, já que ela um serviço para a sociedade”. Por isso, critica “as Igrejas evangélicas, principalmente essas neopentecostais e outras, eles têm um projeto de poder. Por isso que eles fazem qualquer negócio para eleger seus membros… desde que possa defender seus interesses”. Junto com isso, denuncia os padres que apóiam esse candidato, “para mim é uma decepção… deveria entregar o seu sacerdócio e sair da Igreja católica, porque ela não prega isso”.

Diante do resultado do primeiro turno, o que espera do decorrer da eleição até o dia 28?

A gente está vendo nesta eleição uma situação que ninguém esperava, de ter uma candidatura que representa as forças de esquerda do país, que é o Haddad, que representa um pouco o legado daquilo que foi o governo do Lula e da Dilma, com a defesa dos programas sociais implantados no Brasil que fizeram a diferença, no sentido de melhorar a qualidade de vida da população e uma candidatura que continua defendendo investimentos prioritários na área de educação.

Do outro lado, uma candidatura de extrema-direita, que os outros partidos de direita ou centro direita não esperavam, que são os partidos que patrocinaram o golpe no país de 2016, eles imaginavam que iriam depois ter a hegemonia da política no Brasil, PMDB, PSDB e mais um dez partidos que participaram desse golpe, não esperavam que de tudo isso ia emergir um candidato de extrema-direita, com um discurso efetivamente absurdo para nossa realidade brasileira e que de forma surpreendente cresceu na opinião pública, sem muita discussão, sem nenhum grande debate sobre as questões nacionais, principalmente ter debate de propostas para solucionar os problemas.

Estamos vivendo uma situação surpreendente e diante de um quadro que preocupa a muita gente. Diante da eleição muita gente está querendo se mobilizar para trabalhar a consciência da população, dos eleitores com vista a analisar bem se vale a pena embarcar numa proposta que prega violência, que prega praticamente perseguições a minorias e a setores da sociedade, como é os negros, homossexuais e outros, ou um projeto que fala de educação de educação, de emprego, de esperança e, por tanto, de perspectivas de um futuro melhor.

Onde a gente poderia encontrar as causas dessa virada política no Brasil, um país onde a extrema-direita nunca apareceu de um jeito tão claro e hoje a gente vê que, primeiro turno, um 46% da população escolheu essa opção política?

Os estudiosos devem se debruçar para poder entender a causa desse quadro, talvez um país onde falta um aprofundamento da reflexão sobre as questões fundo mesmo, um país que vem de 350 anos de escravidão negra e depois que foi libertos os escravos ficara sem direitos, estamos falando da maioria da população, que era negra na época, como continua a maioria da população negra.

Um quadro histórico de discriminações, de exclusões, e que foi minimazada nos 12 anos do governo do Partido dos Trabalhadores, mas os grupos das oligarquias, os grupos mais ricos da sociedade, representados inclusive pelos meios de comunicação, nunca aceitaram um quadro como esse, e agora conseguiram e estão conseguindo tirar governos de esquerda ou progressistas a apoiar situações extremas como essa candidatura. Talvez a história do Brasil possa ajudar a entender o que nós temos latente na sociedade.

Num clima anti-petista e num estado onde o candidato Bolsonaro foi o mais votado no primeiro turno para presidente, o que representa para o senhor o fato de ter sido o deputado federal mais votado no estado de Amazonas? Mesmo sabendo que os políticos devem estar ao serviço do conjunto da população, quem pensa que deve ser prioridade em seu mandato como deputado federal?

Eu vejo que os meios de comunicação, a grande mídia tenta criminalizar os partidos políticos. Por isso, que os candidatos, de modo geral, eles acabam aparecendo mais como indivíduos e não como parte de um coletivo, de um partido. O PT foi duramente atacado e continua até hoje, e ficou no imaginário da população como sinônimo ligado à corrupção, embora que dos 35 partidos no Brasil , quase todos têm gente envolvida em corrupção, mas o trabalho forte da mídia foi para cima de um partido só, que é o PT, que associam a uma coisa ruim.

Como o individualismo está sendo a razão da escolha, então escolhem pessoas. Acredito que no meu caso, mesmo sendo do PT, 23 anos no partido, mas o fato da gente ter uma postura de fiscalização, de cobrança, e também de prestação de contas, as pessoas querem políticos que tenham determinadas condutas, alguns pelo discurso, outros pela prática, um discurso que vai combater corrupção ou prática de prestar contas, acredito que foi isso. Eu tive votos de pessoas que votaram no candidato da extrema-direita e votaram em mim, olhando em mim um deputado, um político que está lá presente, está sempre no dia a dia.

Por tanto, não um olhar partidário, mas um olhar do indivíduo, ele como político, porque acredito que na sociedade está um sentimento assim, as pessoas querem um salvador da pátria, querem alguém perfeito, querem alguém que resolva os problemas, fica nessa ilusão. Da minha parte, eu entendo que é um mandato que vai representar muitos anseios, mas eu pretendo continuar na mesma linha de sempre, ter uma voz para questionar, cobrar as políticas para a população mais pobre, cobrar as políticas de inclusão social, como sempre fiz.

Diferentes meios de comunicação, sobretudo estrangeiros, estão insistindo na importância dos evangélicos nessa eleição. Qual é o papel que as Igrejas evangélicas estão tendo na eleição de 2018 no Brasil?

As Igrejas evangélicas, principalmente essas neopentecostais e outras, eles têm um projeto de poder. Por isso que eles fazem qualquer negocio para eleger seus membros para os parlamentos e fazem qualquer aliança, não importa quem seja o candidato, desde que possa defender seus interesses, que é o projeto de poder gradativamente, procurando cada vez mais espaço nos parlamentos e, na medida do possível, ter candidaturas maioritárias para poder ocupar espaço também no poder executivo.

Então, eles têm esse poder, eles não analisam corrupção, não analisam ética, as lideranças principais não estão preocupadas se o candidato está envolvido em corrupção ou tem condutas imorais ou tudo mais. Eles têm um projeto de poder, que não tem nada a ver com religião, nem nada. Eles usam a religião, na minha avaliação, em busca desse projeto de poder.

O senhor é católico, participa da vida da Igreja católica e já prestou, e continua prestando, diversos serviços na Arquidiocese de Manaus. A Igreja católica oficialmente diz que não defende nenhum partido, mas nesta semana, tanto na entrevista com o Portal UOL como numa nota pública depois do encontro com o candidato Fernando Haddad, o Secretário-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, Dom Leonardo Ulrich Steiner, ofereceu algumas pautas que defendem que os católicos não devem votar em candidatos que pregam a violência e são contra a democracia. O senhor acha que a postura da Igreja católica está sendo suficientemente firme, profética?

A Igreja nos documentos, nas falas, nas orientações, elas sempre foram proféticas, ao menos nestes últimos anos no Brasil. Todos os documentos, e reforçado agora mais com as palavras do Papa, ela quer ser uma voz profética. A questão quando envolve nomes, ela acaba se restringindo, ela não especifica nomes. Talvez muitos fieis precisariam ouvir isso também. Numa situação mais extrema, e eu acho que estamos numa situação mais extrema, aí eu acho que precisaria dar um passo a mais. Nesse momento não cabe mais só o anúncio, tem que ser a denúncia como profeta, denunciar que tem uma candidatura fascista, uma candidatura que lembra o nazismo, uma candidatura que não tem proposta nenhuma e ela estimula a violência inclusive de seus adeptos.

Por tanto, nesse momento agora, mais extremo, na minha avaliação, ela tem que dar nomes, ela tem que dizer claramente de que lado está. Uma coisa coisa é as eleições, trabalho de conscientização, todos os documentos da Igreja estão nessa linha, concordo plenamente. Agora, que nós estamos muito próximos é o momento de falar com mais contundência, porque depois da eleição, depois do dia 28, aí só cabe trabalhar o resultado, e fascismo ninguém argumenta, se enfrenta, se combate, isso no mundo inteiro.

No tempo da campanha, o Arcebispo de Manaus, Dom Sérgio Castriani, apresentou o senhor como uma referência entre outras de político católico, alguém comprometido com as causas dos mais pobres e com o bem da sociedade. Por que não aparecem essas declarações implícitas de parte de muitos bispos, em referência a políticos católicos, comprometidos com a Igreja e com as causas sociais, e essa é uma atitude cada vez mais presente nas Igrejas evangélicas?

É interessante que eu vejo que muitas comunidades, paróquias, na época da eleição se vê o padre apresentando várias opções para seus fiéis. Na sua comunidade tem candidatos e aí promove encontros para que o candidato se apresente, fale, e as vezes o padre recomenda, está aqui esses nomes e vocês fiquem a vontade para escolher o nome nesse universo que se apresentou, que tem um bom perfil, que há sintonia com o que a Igreja prega.

Isso já vi muito, eu já participei de alguns encontros, isso tem tido. Eu acho que isso tem que ser ampliado, porque aí você deixa a liberdade da escolha para o fiel, porem você apresentou algumas opções, você deu espaço para que algumas opções pudessem ter oportunidade de se apresentar, colocar e tudo mais. Eu acho que é um passo importante. Isso, na minha avaliação vale para as lideranças maiores também. Recomendar alguns nomes, e não impor, é importante.

Agora, no caso, no segundo turno, que você só tem dois nomes, ou é um ou é outro, cada um representa um projeto. Aí, na minha avaliação, é dizer qual é o projeto que se apóia, qual é o projeto que gostaria que fosse implantado. É uma questão mais extrema, antes num primeiro turno, onde você tem muitas opções, logicamente, você tem que dizer que tem várias possibilidades, mas agora não tem várias, só tem uma ou outra.

Além da disputa partidária, por que um católico, um cristão, não deveria votar no candidato Jair Bolsonaro?

Por que prega violência, totalmente fora daquilo que o cristão, e aí não é só católico mas evangélico também, deveria prezar. A pergunta é a seguinte, Jesus Cristo iria votar em quem dos dois? Quem é seguidor de Cristo, Cristo questionava a violência. Até quando ele foi preso, Pedro foi querer defende-lo com violência e espada e Jesus diz não, não vamos por esse caminho, não, esse não é o caminho que vai libertar o povo, que vai ajudar a criar uma vida nova. Então é muito simples, ou você é seguidor de Cristo ou você não é. Se for, a pregação dele era outra, Ele denunciava a exploração das lideranças religiosas e políticas contra os mais pobres e o critério era esse. Eu acho que esse tem que ser o critério da política, já que ela é um serviço para a sociedade, nós temos que trabalhar nessa linha.

Independentemente do resultado, a gente vê que tem-se instalado na sociedade brasileira nos últimos meses e tem-se incentivado nas últimas semanas, um clima de violência física e também nas redes sociais. Pensa que essa realidade tem como mudar, independentemente do resultado, ou a eleição pode trazer uma maior acentuação da violência na sociedade brasileira?

Eu espero que não crie, porque nós já vivemos um ambiente de extremas injustiças, desigualdades e impunidade. A impunidade é grande e isso favorece a continuidade da violência e injustiças porque não há punição, seja para os grandes, envolvidos em corrupção, em crimes e outras situações, seja os pequenos. Então as pessoas, talvez se sintam mais a vontade de cometer atos irregulares, de violência, porque sabe que não vai ser punido. Por isso que, independente do resultado da eleição, temos que continuar lutando para melhorar o funcionamento das instituições, por exemplo o próprio judiciário, que ninguém cobra o judiciário, ele é o poder mais injusto que tem na sociedade, ele é distante do povo, é caro. Quantos jovens estão esperando julgamento nas cadeias, nas penitenciárias. Depois o judiciário não cobra que o executivo cuide dessa juventude. Então, é o poder mais omisso e ele favorece a impunidade e favorece as injustiças e a própria violência.

Nesses dias a gente foi surpreendido com umas declarações de Marine Le Pen, líder da ultra direita francesa, dizendo que o aquilo que o candidato Bolsonaro diz não poderia ser dito em outros países, como a França, e querendo mostrar distância de suas posturas. A eleição está degradando a imagem do Brasil no exterior?

No exterior, a imprensa fala mais do Brasil e do que está acontecendo do que no Brasil mesmo. Aqui a grande imprensa omite quase tudo. Imagine que uma candidatura que era do Lula e pré-candidatura dele, que rodava o Brasil, eles não colocavam uma linha. A nossa grande imprensa aqui, ela é anti-esquerda, ela é uma estrutura que sempre se beneficiou do Estado, e aqui para o povo é negado as informações verdadeiras.

No exterior você tem uma visão melhor, você vê a grande imprensa noticiando a realidade do país, é lamentável aqui. Por isso, uma das grandes propostas é aderir a mudança relacionada às comunicações no país. Como está hoje, o povo não recebe as informações verdadeiras. Então você vê que, se uma liderança de direita lá no exterior analisa que o discurso desse nosso candidato não tem nada a ver, aliás seria preso por várias coisas que ele defende, aqui o absurdo é uma pessoa dessas, que certamente tem problemas mentais, é conseguir entender como é que tantas pessoas seguem ele.

Eu li um dos artigos que compara o que aconteceu com a Alemanha, tanta gente dita de bem que acreditou no discurso de um doido e levou o país a uma tragêdia, a uma carnificina, a uma guerra e tudo mais. Por tanto, a gente aqui também se preocupa com isso, no final o discurso dele, que não tem nexo de nada, mas tem adeptos no país e pode acabar sendo eleito como presidente da república. Fala sobre gente de bem que apoiou Hitler, inclusive parte dos bispos alemães da época o apoiaram quando foi eleito.

 

No Brasil, nenhum bispo manifestou publicamente seu apoio a Bolsonaro, mas muitos padres, nas homilias e nas redes sociais estão  apoiando Bolsonaro. Qual é a reação que isso lhe produz?

Para mim é uma decepção. Eu conheço padres assim e é a maior decepção, uma pessoas dessas deveria entregar o seu sacerdócio e sair da Igreja católica, porque ela não prega isso. Ele deveria sair, deveria ter o respeito a si mesmo, ao menos, e dizer eu vou para outra instituição, para outra Igreja, mas não a Igreja católica, já que a Igreja católica não prega isso, e ele está querendo pregar uma mensagem falsa para os fiéis.

Por Luis Miguel Modino.

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