Um martírio político e o momento brasileiro. Marcelo Barros

“a luta social e política de Monsenhor Romero junto a seu povo e o seu testemunho de amor aos pobres o torna para nós Palavra viva de Deus”.

Neste domingo, em Roma, em uma mesma cerimônia, o papa Francisco vai proclamar como santos o papa Paulo VI e Dom Oscar Romero, arcebispo de San Salvador, assassinado em 1980, quando celebrava a eucaristia em uma capela de hospital. Sobre o processo de canonização e o seu estilo, muitos de nós temos críticas e desejamos uma renovação mais de acordo com o evangelho. Antes de tudo, devemos lembrar que São Paulo chama todos os batizados de santos, santificados pela graça. Por isso, é bom sempre repetir: o papa não torna ninguém santo.

Apenas, proclama que tal pessoa (que já está no céu pela graça divina) tem seu nome na lista (no canon) dos santos, por ser reconhecido/a como exemplo de santidade para o povo de Deus. Hoje, qualquer pessoa mais crítica contesta os critérios medievais usados durante o processo, além de que em uma Igreja mais sinodal, se deveria esperar que o método do processo de canonização se torne menos monárquico e, economicamente, mais acessível ao mundo dos pobres. Apesar disso tudo, é certo que, para o mundo inteiro, as canonizações desse domingo são muito significativas.

Paulo VI foi o papa que continuou o Concílio Vaticano II e se tornou responsável pela renovação da Igreja que o Concílio propôs. Foi o papa que foi a Jerusalém, abraçou o patriarca Atenágoras e juntos aboliram os documentos de excomunhão mútua publicados em 1054. Paulo VI é o papa que deu a tiara (tríplice coroa), até então usada por todos os papas. Ele a deu para projetos sociais que beneficiassem os pobres. E assim deu o primeiro passo para o papa deixar de ser chefe de Estado, processo que os papas seguintes não quiseram continuar. Canonizar Paulo VI é um modo claro de valorizar o esforço de renovação e retomá-lo nos ambientes eclesiais nos quais o antigo regime ainda domina.

Proclamar Paulo VI como santo é deixar claro que o trabalho de renovação da Igreja pode ser um belo caminho de santidade.
Quanto à canonização de Oscar Romero, o mundo inteiro sabe que alguns bispos de El Salvador e grupos dentro do Vaticano fizeram de tudo para evitar a canonização. Não vale a pena repetir as intrigas e maledicências inventadas para destruir a honra de Romero. No tempo da beaficação, o papa Francisco chegou a afirmar que ele foi mártir duas vezes: no dia em que perdeu a vida por seu amor aos pobres e depois quando, já morto, foi vítima de calúnias para manchar sua imagem e destruir sua profecia. Agora, ao colocar o nome de Romero na lista dos santos, o papa simplesmente reconhece o fato de que, desde 1980, os pobres da América Latina já chamam Romero de “São Romero de las Américas”.
Essa canonização, além de ter esse significado profundo para a América Latina, é o reconhecimento de um martírio de conteúdo profundamente social e político. O papa e todas as pessoas que conhecem a história sabem que Monsenhor Romero não foi um santo da caridade, no estilo de Madre Teresa de Calcutá, de Charles de Foulcaud ou de Santa Terezinha do Menino Jesus, figuras maravilhosas da Igreja. Romero testemunhou o reino de Deus e deu sua vida, ao tomar partido na luta de libertação do povo de El Salvador e ao enfrentar uma ditadura com a qual os outros bispos, em sua maioria, eram condescendentes. Embora desarmado e sem nenhum vínculo direto com a guerrilha, foi profeta da justiça e do direito do povo e de sua libertação. Romero foi e é um mártir político.

A expressão não é minha. Um dos maiores teólogos cristãos da atualidade, Jungmann Moltmann, pastor evangélico alemão afirmou: “No antigo império romano, os mártires que se negavam a prestar culto ao imperador, contribuíram a propagar a liberdade. (cometeram um ato de subversão política). Assim também em nossos tempos, as Igrejas que esquecem a seus mártires políticos estão em perigo de acomodar-se à religião política da sociedade em que vivem” (do livro La Iglesia, fuerza del Espíritu, Salamanca, 1978, p. 118).

Atualmente, muitos cristãos se perguntam como foi possível que, apesar de uma minoria profética que denunciou isso, a maioria do clero e dos fieis católicos e evangélicos foram coniventes e até colaboradores com a escravidão dos índios e negros. Do mesmo modo, pode ser que, em um futuro próximo, cristãos se perguntem: Como se tornou possível que, no começo do século XXI, no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países, pastores e fieis, católicos e evangélicos, tenham escolhido votar na extrema direita?

Todos sabem que esses seus candidatos conservadores farão tudo para manter as desigualdades sociais. Sempre ficam do lado da elite rica contra os empobrecidos. São adeptos de guerras e violências. No entanto, bispos, pastores, padres e fieis, votam neles. Será porque, no terreno da moral sexual, esses fascistas, embora não vivam, defendem a moral tradicional? Certamente, além desses cristãos fundamentalistas, preocupados obsessivamente com os temas da moral sexual, muitos outros têm no seu DNA uma tendência de apoiar pessoas autoritárias e com tendência totalitária. Por que? As Igrejas assistem a essa tragédia e não se perguntam em que erraram na formação de seus ministros e fieis. E o mundo teria o direito de se perguntar o que, hoje, Jesus diria desse Cristianismo de direita.

Certamente, essa ala tradicional da Igreja, pouco ligará para a canonização de Oscar Romero. Na cerimônia de sua beatificação, um cardeal chegou a pregar que Monsenhor Romero é santo porque tinha uma profunda devoção a Virgem Maria, ao papa e ao Santíssimo Sacramento (nessa ordem). O mundo inteiro sabe que, nesse domingo, em Roma, ao canonizar Romero, não será essa a pregação do papa Francisco. Para usar um termo de Santo Inácio de Antioquia, no começo do Cristianismo, “a luta social e política de Monsenhor Romero junto a seu povo e o seu testemunho de amor aos pobres o torna para nós Palavra viva de Deus”.

Santo Oscar Romero, rogai a Deus por nós e ajudai-nos no caminho da conversão nossa e de nossas Igrejas”.

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