Dom Roque Paloschi: “Precisamos de uma Igreja Comprometida com a Vida e os Sonhos dos pequenos”.

Os pobres desta terra precisam ser ouvidos. A Igreja pode ajudar a criar uma consciência do cuidado com a criação e, sobretudo, do compromisso com os filhos desta terra.

O Brasil é um país onde “a situação dos povos indígenas é lamentável”, afirma Dom Roque Paloschi, presidente do Conselho Indigenista Missionário – CIMI e membro do Conselho Presinodal do Sínodo da Amazônia, onde o governo não respeita de fato aquilo que a Constituição de 1988 reconhece como direitos dos povos originários, negando-lhes os direitos fundamentais e perseguindo-os.

Nesta situação, o Sínodo da Amazônia pode ajudar, de acordo com o arcebispo de Porto Velho, Rondônia, a “ter uma consciência mais regional das alegrias, esperanças, mas também do sofrimento dos povos desta região”, onde a Igreja deve “criar uma consciência do cuidado da criação e, acima de tudo, de compromisso com os filhos desta terra”.

Portanto, devemos aprender com os povos indígenas. Nesse sentido, Dom Roque Paloschi insiste em dois campos, a relação harmoniosa com a criação e a feliz sobriedade. Junto com isso, o respeito aos mais frágeis, crianças e idosos. Não podemos esquecer “que antes de evangelizar tu es evangelizado” nos lembra o presidente da CIMI, “devemos reconhecer a mensagem de Deus presente entre os povos da região amazônica” para o que é necessário “um processo de aprendizado, de valorização, de inculturação, de não ficar apenas no ver nosso… a coragem de nos desnudarmos um pouco e aceitar também perceber que a tradição dos povos indígenas pode nos ajudar também com uma espiritualidade muito mais encarnada”, de acordo com o Presidente do CIMI.

O Arcebispo de Porto Velho reconhece que há “uma atitude de aceitação e, especialmente profunda sintonia” entre o Papa Francisco e os povos amazônicos, que são o ponto de partida da reflexão do Sínodo da Amazônia, uma atitude que está conectada com o Concilio Vaticano II e que ajudará a “perceber os sinais da presença de Deus no meio desses povos”.

O senhor faz parte do Conselho Presinodal do Sínodo da Amazônia, o que pode supor esse sínodo para a Igreja universal e da própria Amazônia?

Primeiro pode nos ajudar a nos ter, uma consciência mais regional das alegrias, da esperanças, mas também dos sofrimentos dos povos desta região Pan-amazônica, uma região bonita, encantadora, porem que vem sendo destruída de maneira violenta. A Igreja pode ajudar a criar uma consciência do cuidado com a criação e, sobretudo, do compromisso com os filhos desta terra.

Segundo, a Igreja também pode dizer para outras partes do mundo, através do Sínodo, que é possível nos olharmos mais particularmente determinadas situações que se vivem em regiões do mundo e pede da Igreja um olhar mais amoroso, um olhar mais misericordioso, um olhar com mais proximidade, de ternura com as pessoas, com a criação e com os sonhos dos povos daqui.

Qual é hoje a situação dos povos indígenas no Brasil?

A situação dos povos indígenas é lamentável, porque não estão só cercados pelo agronegócio, por grandes projetos de infra-estrutura, rodovias, hidrovias, barragens, hidroelétricas, como que estão cercados por tantos projetos de lei que inviabilizam a perspectiva de concretizar os artigos 231 e 232 da Constituição de 1988. A situação dos povos indígenas é desesperadora na medida em que cresce de maneira sistemática uma reação do poder legislativo, do poder executivo, do desmonte, por exemplo, dos órgãos que teriam a missão de concretizar os direitos dos povos originários, e também o próprio poder judiciário com essa grande luta que nós estamos tendo na questão do marco temporário, que é uma questão muito complicada.

A questão do estatuto do índio, que não vai para frente, nem para trás, e tudo isso vai criando uma situação de descrédito e desesperança, mas os povos indígenas têm essas consciência que já proclamaram no ano 2000. As mobilizações deles em âmbito nacional, que de modo especial tem muita incidência em Brasília, nos órgãos do governo, tem ajudado a manter vivo o sonho de um caminho que eles querem fazer e tem o direito de fazer, mas infelizmente a sociedade brasileira lhes impede de fazer o próprio caminho.

A gente pode dizer que a sociedade e o governo brasileiro perseguem a população indígena?

Pode dizer tranquilamente, porque quando se negam os direitos fundamentais, quando se alimenta o ódio através dos meios de comunicação é uma perseguição, quando se procura criar todas as barreiras para que os povos indígenas não realizem seu projeto, não são respeitados, não são consultados, o que vai criando barreiras, impedindo os povos indígenas de poder realizar esse sonho que o estado brasileiro quis com a Constituição de 1988, alimentar o direito deles da autodeterminação e também de educação diferenciada, saúde, e assim por diante. O reconhecimento que as terras deles são deles, que precisam ser respeitadas, não invadidas, loteadas e contaminadas pelo garimpo legal e ilegal, pelos grandes projetos, pelo agrotóxico de suas terras que são arrendadas contra a própria constituição.

O que a sociedade brasileira poderia aprender dos povos indígenas?

A Laudato Si dá para nós uma dica muito importante, primeiro essa relação harmoniosa com a criação, segundo também o caminho de uma sobriedade feliz. Nós vivemos movidos a produzir, produzir, consumir, consumir e vamos entulhando tudo de lixo. As comunidades indígenas podem nos ajudar a isso, sobretudo essa vida também de uma profunda harmonia entre todas as faixas etárias. Numa comunidade indígena você não vê uma criança abandonada, não vê também idosos rejeitados, tem todo um caminho muito mais de harmonia, de respeito e de compromisso com eles.

Como o Conselho Indigenista Missionário está fazendo esse trabalho de apoio, de acompanhamento e de escuta dos povos indígenas?

Em cada regional está se dando passos. Agora na semana passada aconteceu a assembléia do CIMI Rondônia e lá foram ouvidos, a partir dos textos do Sínodo e depois vai se dando passos também na perspectiva das próprias comunidades, aquilo que nós diríamos hoje nas aldeias, aonde também vai se ter essa oportunidade de discussão, com a perspectiva de que realmente eles sejam os protagonistas desse Sínodo. Os pobres desta terra precisam ser ouvidos.

Escutar é a atitude fundamental que o Papa Francisco está propondo para o Sínodo da Amazônia. Até que ponto isso pode mudar o jeito da Igreja, mais acostumada a ensinar, a dizer, a falar do que a escutar?

Esse é o dilema, porque nós temos essa consciência, que é uma estrada de duas mãos. Na prática nos falta essa capacidade, essa humildade de perceber que as visões do outro podem nos ajudar. Eu acho que é um aprendizado que nós vamos ter que fazer, sejamos nós os bispos, seja a Igreja como um todo, os padres, os religiosos, as religiosas, temos que fazer. Mas isso é um processo que os documentos da Igreja mostram isso, que antes de evangelizar tu es evangelizado. E isso, talvez, nós temos que começar a vivenciar de maneira mais eficaz, sabendo da mensagem de Deus presente no meio dos povos desta região amazônica, seja os povos originários, seja também os povos quilombolas, as comunidades ribeirinhas, sejas as comunidades da floresta.

Uma das cobranças que a gente escuta nas comunidades da Amazônia em referência à Igreja é que a presença é muito limitada. Como aprender a andar sem relógio, a não medir o tempo de um jeito ocidental no trabalho pastoral da Igreja católica nas comunidades da Amazônia?

Creio que o Sínodo pode nos ajudar, mais do que tudo, a ter essa certeza de que há um caminho feito e a Igreja precisa também, vamos dizer, a perspectiva de muitos ministérios que podem ser confirmados e podem ser vivenciados nas próprias comunidades, aonde a experiência das primeiras comunidades com Paulo era assim. Então eu acho que nós também temos lideranças nas comunidades que teriam condições de dar passos vivenciando mais essa dinâmica. Quando se fala de Igreja se fala muito da presença do ministro ordenado. Só que nas atuais condições o número de ministros ordenados é muito reduzido. Então não tem milagre. Eu teria essa compreensão de que às vezes é preferível você ir menos vezes e ficar mais tempo do que ir muitas vezes sem tempo.

Fala de ministérios, como trazer os ministérios próprios da espiritualidade indígena, como os benzedores, os pajés, para a espiritualidade cristã, como assimilar esses ministérios, que fazem parte da vida das comunidades, dentro da vida da própria Igreja católica?

Isso exige em nós um processo de aprendizado, de valorização, de inculturação, de não ficar apenas no ver nosso. Preciso ir no ângulo, na alma para podermos também perceber que há toda uma espiritualidade que contribui para a harmonia, para a vida da comunidade, que não passa pelo ministro ordenado mas que é alimentada através das lideranças, como pajés e outras lideranças das comunidades indígenas. E isso talvez é a coragem de nos desnudarmos um pouco e aceitar também perceber que a tradição dos povos indígenas pode nos ajudar também com uma espiritualidade muito mais encarnada.

No seu contato com os povos indígenas, tem percebido qual é a visão dos povos indígenas em referência ao Papa Francisco?

É uma visão profundamente de respeito, porque sentem que o Papa Francisco é alguém que está preocupado com a perspectiva dos povos originários. É uma atitude de acolhida e sobretudo de profunda sintonia com aquilo que o Papa tem apresentado como o processo de uma Igreja que precisa ser em saída, precisa ser uma Igreja comprometida com a vida e com os sonhos dos mais pequenos desta terra.

A maioria dos membros do Conselho Pré-sinodal são latino-americanos. Como conjugar essa visão latino-americana da teologia, da vida, da Igreja, com uma visão vaticana frente ao Sínodo e à exortação sinodal?

Penso que é caminhando que se constrói caminhos, não temos receita pronta. Eu acho que nós temos que ter a coragem de uma busca sincera, de um diálogo aberto, respeitoso, mas acima de tudo não esquecer o ponto de partida, que é aquilo que é também fruto do Vaticano II, os sonhos, as esperanças, as alegrias e tristezas dos homens e das mulheres de hoje são os sonhos, as esperanças, as alegrias e tristezas da Igreja de Jesus.

Nós partimos de um rosto muito concreto, o rosto dos povos amazônicos. Eu acho que o caminho sinodal vai nos ajudar sobretudo a perceber os sinais da presença de Deus no meio desses povos, e também o que Deus pede para a Igreja de Jesus aqui nesta realidade amazônica, com tudo aquilo que de bonito tem, mas tudo aquilo que também nos questiona, nos interpela para dar os passos sinodais, seja no âmbito interno da Igreja, seja também na realidade do mundo que está aí nos circundando.

Luis Miguel Modino

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *