Resta-nos a Frágil Luz de Esperança: Análise das Eleições de 2018

 Resta-nos a frágil luz de esperança em líderes que vivem na justiça e na verdade, sem incoerências éticas. Há muita gente boa em cada recanto do Brasil. Será preciso costurar essa gente resistente para fortalecer o tecido esgarçado. Pode parecer uma colcha de retalhos, mas é o que temos. Tarefa para dez anos de labuta e pelejas.

 O país elegeu aos 28-10-2018, Jair Bolsonaro (PSL) presidente do Brasil. Ele será o 38º presidente, o oitavo eleito após a redemocratização. Com 55,14% dos votos válidos, Bolsonaro venceu Fernando Haddad (PT), com 44,86% da preferência, no segundo turno. Pelo menos 37 milhões de brasileiros se abstiveram, anularam ou votaram em branco, algo como 29% de todo o contingente de eleitores.

Para analisar o cenário pós-apuração, recolhemos a opinião de pesquisadores para analisar o cenário de momento.

Apesar de o novo presidente eleito do país, Jair Bolsonaro, ter obtido 11% de votos em relação a Fernando Haddad, é sintomático que 37 milhões de pessoas sequer fossem às urnas.

Atestamos em cidades de todo Brasil que mais de 30% dos cidadãos não foram votar. No Brasil inteiro foram 43 milhões (entre nulos, brancos e ausentes) somando 29% do colégio de eleitores. Jair Messias Bolsonaro teve 57,7 milhões sobre 147,3 milhões, ou seja, foi eleito por 39% dos eleitores aptos a votar. Os votantes em Fernando Haddad somaram 47 milhões de votos, ou seja, 32% dos eleitores.

Todos as pessoas e grupos sociais que defendem os direitos conquistados e a defesa diuturna das liberdades democráticas serão perseguidos, caluniados e, muitas vezes, eliminados pelos grupos extremistas que apoiaram e irão sustentar o presidente vencedor.

Será preciso resistir e zelar fielmente pela ordem constitucional. Nunca como hoje precisaremos defender a Carta Magna da Nação e a liberdade de pensar e contestar os abusos e ilegalidades.

Será preciso plantar outra semente, para superar a transgênica que se impôs pelo discurso do ódio.

 Não será nada fácil. Exigirá paciência e serenidade.

Temos que avaliar a posição ideológica dos eleitos. Esse dado é importante para as alianças no futuro como janela de possibilidades. Também os primeiros passos do Congresso e novo Senado deverão ser pesados e compreendidos. Nem tudo está claro no momento.

O primeiro desafio do governo eleito é conseguir administrar essa chaga aberta que dividiu o país completamente e vai continuar dividindo, porque a campanha de Bolsonaro foi construída em cima do ódio e da fake news, principalmente no final do primeiro turno, e de ameaças racistas e sexistas. O que ele falou e o que a campanha dele fez não tem como ser apagado, inclusive na última semana tivemos invasões ilegais da polícia em universidades impedindo debates. O Supremo Tribunal Federal – STF teve que intervir dizendo que era ilegal. Foram longe demais.

O segundo problema diz respeito à equipe interna, porque ele tem a equipe econômica liderada pelo economista e banqueiro Paulo Guedes, que é ultraliberal e vai exacerbar o programa levado pelo Temer. Mas de outro lado há militares que sempre foram nacionalistas e com intervenção forte do Estado para unificar o país, a defesa nacional e o desenvolvimento do Brasil. Foi isso no Regime Militar, no Movimento Tenentista de 1924, foi isso desde a briga de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Então ele vai ter que administrar essa divisão interna.

Em terceiro lugar é a crise econômica, que é mundial, e que não vai dar trégua em 2019. O Bolsonaro sabe disso. Com um programa mais restritivo de direitos sociais e a crise econômica, como ele vai driblar esses desafios em país dividido politicamente? Ele tem problemas gravíssimos, tal qual teria Haddad se tivesse sido eleito, que são problemas muito parecidos. Nós vamos pagar pela aventura e pela irresponsabilidade do que estamos vivendo no Brasil desde 2015.

Na opinião de Roberto Romano, O Brasil não aprendeu modos civis e respeito mútuo ao longo de seus 500 anos. A grosseria do trato apenas radicalizou a ética violenta e hedionda que norteia os setores mais próximos à riqueza, a subserviência dos ‘negativamente privilegiados’, a tolice dos que permanecem entre os dois polos, a classe mediana.

Roberto Romano – O pleito de 2018 revelou muito da sociedade e do Estado. O Brasil não aprendeu modos civis e respeito mútuo ao longo de seus 500 anos.

A grosseria do trato apenas radicalizou a ética violenta e hedionda que norteia os setores mais próximos à riqueza, a subserviência dos “negativamente privilegiados”, a tolice dos que permanecem entre os dois polos, a classe mediana.

Pela internet “valentes” sentiram-se à vontade para mentir, caluniar, destruir os outros, ajudados por maquinações robóticas que condensaram ataques às pessoas, em massa. A tecnologia a serviço da boçalidade.

E não digo que tal prática foi limitada apenas ao espectro da direita. Claro que ela mostrou as suas garras e dentes afiados desde o século 20, com os movimentos totalitaristas. Na Guerra Fria, o reacionarismo local foi impulsionado pelos EUA. Hoje ele tem sustentação autônoma, é legítimo produto brasileiro.

Fake news e ódio não foram benéficos ao país. Eles trouxeram à superfície a verdade sobre nosso coletivo: injusto, truculento, persecutório, covarde, eivado de preconceitos.

A histeria exibida com modos grosseiros marcou a “campanha” dos setores reacionários.

O whatsapp serve à pedagogia da servidão: interesses e teses da Fiesp, bancos e outros foram assumidos por massas desvalidas, espalhados por celular. Eles se transformaram em votos aos milhões.

Fernando Altemeyer Junior – Venceu Steve Bannon, o controlador de marionetes e criador das fake news. O Brasil se tornará colônia dos norte-americanos. A soberania será posta em risco permanente.

A cegueira moral imposta aos brasileiros pelos bancos e redes privadas de Televisão destroça a frágil democracia que construíamos desde 1988.

Atestamos em cidades de todo Brasil que mais de 30% dos cidadãos não foram votar. No Brasil inteiro foram 43 milhões (entre nulos, brancos e ausentes) somando 29% do colégio de eleitores. Jair Messias Bolsonaro teve 57,7 milhões sobre 147,3 milhões, ou seja, foi eleito por 39% dos eleitores aptos a votar.

Os votantes em Fernando Haddad somaram 47 milhões de votos, ou seja, 32% dos eleitores.

É evidente que Bolsonaro teve a maioria, mas é sintomático que 42 milhões de pessoas sequer fossem às urnas. Os ricos e a mídia golpista conseguiram inocular pela pregação diuturna o veneno da apatia e da desmobilização.

Mataram a política e a cidadania envenenando as raízes. Os partidos históricos foram aniquilados por corrupção, dinheiro e aparelhismo de empresas.

As articulações sociais foram desfeitas. O Judiciário ficou inerte e cúmplice diante de fake news que grassaram tal qual praga evidente no WhatsApp induzindo ao erro.

O Brasil feito aos pedaços sem ter agora qualquer amálgama conectivo nem claro projeto de futuro. Uma imensa tristeza assistir à vitória do fascismo como réplica da ditadura já vivida por 21 anos entre 1964-1985.

Os apelos do papa Francisco encontraram ouvidos moucos. Como diz o poeta: “Ontem, na ditadura as paredes tinham ouvidos, hoje, os ouvidos tem paredes.”

Resta-nos a frágil luz de esperança em líderes que vivem na justiça e na verdade, sem incoerências éticas. Há muita gente boa em cada recanto do Brasil. Será preciso costurar essa gente resistente para fortalecer o tecido esgarçado. Pode parecer uma colcha de retalhos, mas é o que temos. Tarefa para dez anos de labuta e pelejas.

Diante da crônica da morte anunciada, teremos que rever o papel das Igrejas que fizeram a opção preferencial pelo capitalismo e de pastores e padres adeptos da teologia da prosperidade e discursos segregacionistas contra negros, mulheres e homossexuais.

Os pobres foram abandonados. Assim, lobos famintos fizeram o estrago simbólico.

Rudá Ricci prevê um cenário muito complexo e de desafios profundos para o próximo governo. Há a crise econômica, que é mundial, e que não vai dar trégua em 2019. O Bolsonaro sabe disso. Com um programa mais restritivo de direitos sociais e a crise econômica, como ele vai driblar esses desafios em país dividido politicamente? Ele tem problemas gravíssimos, tal qual teria Haddad se tivesse sido eleito, que são problemas muito parecidos. Nós vamos pagar pela aventura e pela irresponsabilidade do que estamos vivendo no Brasil desde 2015.

Essa eleição é histórica porque é a primeira vez que um discurso de extrema direita vence um pleito no Brasil para o governo federal. Além disso, tem o apoio de cinco governadores eleitos: Distrito Federal, São Paulo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio de Janeiro.

Some a isso um país totalmente dividido, com 46 milhões de votos a favor de Haddad, o que não é qualquer coisa, e mais nove governadores no nordeste o apoiando.

Temos um discurso do vencedor de extrema direita, de violência e ataque. Outro ponto é que tanto a fala de vitorioso quanto do derrotado revelam chagas abertas. Um termina colocando a culpa no PT e o outro diz  “coragem, estamos do lado de vocês”, não fiquem preocupados, não chorem. Então a guerra política está reavivada.

José Geraldo de Souza Junior projeta o futuro com preocupação, sobretudo em relação às disputas internas e externas do próximo governo. Terá o presidente eleito atributos pessoais e institucionais em condições de conduzir essa mediação, num quadro complexo que se expressa numa institucionalidade recortada por tantos antagonismos corporativos, morais, ideológicos que se espraiam em todo o social?

O país sai das eleições tomado pela mesma incerteza que se ofereceu para a sociedade durante todo o processo eleitoral.

Como e por que nos dividimos tanto e nessa divisão o que se liberou em nossa mentalidade que a disputa revelou. Uma sociedade confrontada com o seu passado colonialista, hierárquico, segregacionista, racista, patriarcalista, intolerante.

Uma sociedade que ainda constitui parte de nós e que se acomoda a um perfil político autoritário, elitista, afeito às várias supremacias que se instalam num percurso de acumulação insensível às expectativas do social emergente que reivindica reconhecimento, participação política e direitos.

Henrique Costa. O resultado, apesar de esperado, traz desalento. Todos aqueles que acreditam na democracia, mesmo que divergindo quanto ao seu conteúdo substantivo, e que se engajaram na campanha de Haddad, devem refletir sobre como chegamos ate aqui. É um choque para todos nós, mas a verdade é que este resultado vem sendo construído há pelo menos cinco anos, e não nos preparamos para esse momento, diferentemente daqueles que venceram agora.

Há dois movimentos que explicam o resultado. O significado político das eleições 2018 não pode ser minimizado, pois não se trata apenas de uma derrota eleitoral, mas a consagração eleitoral de uma vitória social.

Primeiro, os militares concluíram que o projeto geiselista, de modernização conservadora, perdeu sua base material com a desindustrialização do país e desde a missão no Haiti vem se preparando para lidar com o colapso econômico e institucional, usando o Rio de Janeiro como laboratório.

Atentos à crise econômica e à devastação do mundo do trabalho que se converte em violência, tanto nas redes sociais como em episódios isolados espalhados pelo país, seus aliados no mundo político, desde junho de 2013, vêm se conectando com a agonia dessa classe trabalhadora e que teve seu ponto de máxima visibilidade na greve dos caminhoneiros.

Evidentemente, resgatam um velho ressentimento contra o intelectualismo, identificado na classe artística, nos estudantes de universidade pública e, sobretudo, no ativismo LGBT, vistos como vencedores da guerra pelos melhores postos do capitalismo contemporâneo e, portanto, adversários a serem abatidos.

Então, o significado político não pode ser minimizado, pois não se trata apenas de uma derrota eleitoral, mas a consagração eleitoral de uma vitória social.

A esquerda, nos últimos anos, acreditou que a política se resumia à gestão da precariedade, enquanto a economia permitia. A direita, por sua vez, fez dela novamente guerra social, apelando aos afetos mais recalcados da sociedade brasileira, que reagiu violentamente escolhendo a autodefesa de seus valores conservadores.

Bolsonaro não enganou ninguém. Ele prometeu a barbárie, e quase 60 milhões de pessoas escolheram acompanhá-lo. Seu discurso de ódio, recalcado na alma do país, teve uma adesão que nossa visão otimista do Brasil, cuja última manifestação foi o lulismo, não estava preparada para ver. Teremos que resistir agora, como minoria.

Roberto Dutra reflete sobre os principais desafios de Bolsonaro como presidente. O maior desafio vai ser adotar uma linha de conduta diferente da assumida na eleição. Vai ter que negociar cargos com políticos, por exemplo. Vai ter que saber aceitar a oposição, senão corre o risco de acumular insatisfações intransponíveis que podem ser perigosas em momentos de crise. Ele será capaz de reeducar a si mesmo e a seus eleitores, ou preferirá refúgio na bolha sectária no primeiro momento de crise?

Trata-se da maior vitória eleitoral da direita na história política brasileira. E não se trata de qualquer direita, mas de uma direita extremada, militarizada e autoritária em todas as esferas da sociedade, na igreja, na escola, no partido, em tudo.

Precisaremos de tempo para fazer uma análise cuidadosa deste resultado e de seu significado político, mas alguns aspectos do processo eleitoral permitem pontuar o seguinte:

1) O sistema político passa por transformações estruturais muito importantes, como a introdução de novos meios de difusão e comunicação, com efeitos que ainda não podemos vislumbrar bem.

A relação entre candidatos, eleitores e organizações políticas muda com isso, mas não sabemos exatamente em que direção.

Aparentemente, organizações e candidatos enraizados nestas organizações perdem protagonismo no sistema.

Quando o jornalismo de massa e a TV se tornaram decisivas para os processos eleitorais, isto produziu mudanças estruturais importantes no sistema político.

As redes sociais parecem provocar mudanças semelhantes no mundo todo, com especificidades locais, como o uso do Whatsapp na campanha brasileira. Mas esta vitória de Bolsonaro e da direita foi impulsionada por, pelo menos, dois outros fatores.

2) O primeiro deles é o processo de demonização da política desencadeado pelo “mensalão” e mais fortemente pela operação Lava Jato e reverberado como antipetismo pelos meios de comunicação, especialmente pela Rede Globo.

A Lava Jato trouxe prejuízos enormes para o sistema político e a democracia. Seus efeitos potencialmente positivos são muito duvidosos.

Não teve efeito estruturante no sentido da redução da corrupção, mas apenas efeito destrutivo sobre as organizações e elites políticas.

Assim como na Operação Mãos Limpas da Itália, na Lava Jato o resultado foi a eleição de um político “antissistema”, com pouco apreço pela democracia.

O nosso bufão, porém, é muito mais perigoso que o Berlusconi. A Lava Jato representa uma visão moralizadora aberrante que destruiu relações de confiança na troca de apoios e no ajuste informal de interesses, bloqueando a capacidade do sistema político em produzir decisões coletivamente vinculantes com o alcance e a eficácia necessários para um combate institucionalizado da corrupção.

3) O segundo fator são os erros do campo progressista. O ex-presidente Lula é o grande derrotado destas eleições. Sua estratégia de transformar a eleição em um plebiscito sobre o PT, e especificamente sobre sua própria condenação, foi ingrediente decisivo para a vitória de Bolsonaro.

No PT, o antipetismo foi subestimado e rechaçado como puramente reacionário. E não é. Existem setores médios e populares que têm razões para não se sentirem representados pelo PT. Não são necessariamente tolos ou imbecis por não gostarem do PT.

Ao ignorar a força do antipetismo, o PT e Lula subestimaram a força potencial de Bolsonaro. A derrota não era necessária. Era difícil, mas era possível. Além disso, setores da esquerda contribuíram para que a disputa presidencial se transformasse em uma “guerra cultural”, o melhor cenário para Bolsonaro, que assim não precisou discutir seu programa ultraliberal na economia e na política social.

A luta contra as desigualdades de gênero e de orientação sexual são, por exemplo, pautas centrais para os progressistas. A questão é a forma de ação política e a visão estratégica envolvida. Neste aspecto, a política identitária, difundida quase sempre a partir dos centros de ciências humanas das universidades, empreende uma moralização duradoura da política, adotando e cultivando o pior da herança da geração de 1968.

A política identitária consiste, basicamente, em poses emocionais e dramatizadas que tomam o lugar da preocupação política em agregar forças. O critério passa a ser quem tem a moral do seu lado, e não quem consegue reunir apoio.

Esta moralização duradoura da política ignora a peculiaridade da política, que é a possibilidade de construir coletividades para além das identidades morais existentes.

A esquerda deveria simplesmente abandonar esta forma de atuação que reduz a política à moral e compromete fortemente as chances de recuperar o terreno perdido para a direita.

Vejo, por exemplo, com muita preocupação o comportamento hipermoralizado de parte da militância petista em não reconhecer devidamente a vitória de Bolsonaro, como se qualidades morais negativas que podemos atribuir ao candidato fossem mais importantes que o rito sagrado do voto, pelo qual ele foi consagrado.

Espero não ver nem ouvir “fora Bolsonaro!” de gente responsável. Rechaçar moralmente este resultado e, pior ainda, os segmentos sociais que deram suporte a ele, é dar continuidade à troca indevida de política por moral, criando o ambiente ideal para que Bolsonaro prossiga com sua “guerra cultural” e encurrale cada vez mais os progressistas.

Ruy Fausto– Um desastre. Foi eleito um candidato que faz o elogio não só da ditadura militar, mas da ala mais violenta dessa ditadura. Ele não porá em prática o que anda dizendo? Uma parte, pelo menos, porá. E, principalmente, os efeitos dessas opiniões já estão aí. Nunca a situação dos LGBT foi tão difícil no Brasil.

Basta isso para mostrar a gravidade do momento atual. O que irrita é o discurso conciliador. E a simetria que se estabeleceu entre os dois candidatos. Bolsonaro é de fato um extremista de direita.

Mas Haddad, muito bom candidato aliás, é um homem de centro-esquerda que não tem nada de extremista. E o PT, dirão? O PT é, na realidade, um partido semipopulista, que cometeu o grave erro de se acomodar à corrupção que domina o Estado brasileiro há muito tempo.

Acomodou-se e se aproveitou dela, combinando esse pecado com uma política social que produziu alguns resultados. Isso implicava para o PT e o seu candidato a exigência de uma autocrítica rigorosa; porém era mais do que insuficiente para fazer desse partido, objetivamente, um grande demônio.

Pois foi o que aconteceu. Agora é mobilizar para a resistência as forças vivas do país, na sua grande maioria radicalmente opostas a Bolsonaro e a tudo o que ele representa. resistência ao populismo de extrema direita que pode ser chamado com suficiente rigor de neofascista em todos os lugares em que a luta for possível, dentro e fora da sociedade civil: no legislativo, no judiciário, sempre que encontrarmos lá algum espaço, nos executivos estaduais e municipais, na universidade, na mídia, nas ruas.

O maior desafio, em termos de governabilidade, é conter os afoitos da privatização absoluta, os saudosos do regime de 1964. Além deles, será preciso cautela com as vivandeiras da política e da economia, sempre aptas a explorar seu prestígio, grande ou pequeno, para lucro próprio.

O episódio Collor é importante. Eleito com a mesma virulência, truques de propaganda e rasteiras antiéticas, ele aglomerou um número similar às hostes que hoje proclamam a vitória do anticomunismo, a recusa da doutrina social da Igreja Católica, os direitos humanos. Mas na arrogância do mando adquirido, foi baixada uma norma suicida para a governabilidade: o confisco das poupanças que, gradativamente, entrou na síntese da péssima governança, com a corrupção larvar.

Uma diferença entretanto: na época, a imprensa vigiava, apesar de suas simpatias pelo “caçador dos marajás“, os atos do poder. Hoje a imprensa escrita, falada e televisionada enfraqueceu muito diante da internet.

No regime de 1964 a censura era exercida para silenciar a imprensa. Hoje, o governo pode usar a própria internet que o elegeu para censurar ou aniquilar a imprensa.

As ameaças em relação às finanças dos jornais e televisões são claras. No mesmo tempo em que privilégios são oferecidos para a imprensa aliada, como é o caso da TV Record e outros.

Aliás, dos desafios a serem enfrentados, a questão teológico-política não é menor. A fome de poder de pastores e bispos pentecostais não tem limites, com resultados danosos para o convívio de crenças religiosas, doutrinas morais conflitantes. É possível prever choques de ordem religiosa para os próximos tempos, com o acobertamento do governo.

A economia entra em estado de choque. Teremos a luta, entre os vitoriosos, do privatismo radical e os elementos estatizantes que ainda operam dentro das Forças Armadas. Enfim, cada setor das políticas públicas será uma caixa de surpresas, muitas delas desagradáveis, a ser aberta pelos novos governantes.

Por Pe. Nelito Dornelas

Fonte: IHU

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