Este é o sentido do Advento: pré-ocupar da esperança.Tratar de ajeitar o mundo para o novo que vem.

Esperamos um bebê para tirar dos “tronos, os poderosos”, “para despedir vazios, os ricos”, “exaltar os humildes”, como nossos irmãos que vivem nas ruas, ou os que trabalham duro, os iletrados, os que recebem “bolsa família”, os que esperam na fila pela “minha casa, minha vida”, os que não “alimentam pensamentos soberbos”

Por isso uma força me leva a cantar
Por isso essa força estranha (no ar)
Por isso é que eu canto, não posso parar
Por isso essa voz tamanha
(“Força Estranha”, de Caetano Veloso)

Todas as vezes em que se aproxima os finais de ano, eu fico pensando nas mulheres que estão grávidas. Se existem pessoas que podem compreender bem o sentido do Advento do Natal são as mulheres que já passaram pela experiência da gravidez e da maternidade. Cada dia é uma novidade. Alguns parecem longos demais. Outros voam. Coisas para preparar não faltam e… “haja coração”! Para tais mulheres, grávidas de alegria e de esperança, desafios e temores não são poucos, mas elas sabem, como diz a canção, que “é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre, pois quem traz no corpo essa marca possui a estranha mania de ter fé na vida”.

Também as pessoas ao redor se mobilizam muito e podem desfrutar do sentido da espera, da esperança, da contagem dos dias. Boa parte dos pais e a maioria dos avós entram no clima, preparam coisas, também se preocupam; contam histórias de outros bebês, como Isabel deve ter contado para Maria no longo tempo em que ela ficou escondida e refugiada em sua casa, conforme nos conta o relato do Evangelho de Lucas (1. 56).

Este é o sentido do Advento: pré-ocupar da esperança. Tratar de ajeitar o mundo para o novo que vem. Com o passar do tempo, dores do parto, expectativas, choros e sorrisos misturados. Assim é a preparação do Natal! Esperamos um bebê para tirar dos “tronos, os poderosos”, “para despedir vazios, os ricos”, “exaltar os humildes”, como nossos irmãos que vivem nas ruas, ou os que trabalham duro, os iletrados, os que recebem “bolsa família”, os que esperam na fila pela “minha casa, minha vida”, os que não “alimentam pensamentos soberbos”, conforme nos ensina a Palavra de Deus. Sim! Está lá, palpitando na canção descrita no primeiro capítulo do Evangelho de Lucas (v. 51-53).

E estamos diante da profecia… da palavra-esperançosa… da visão do profeta bíblico Miquéias (5. 2-5a.), que setecentos anos antes do nascimento de Jesus, sonhava pela paz. Miquéias, corajoso e misericordioso, homem simples do campo, como Amós, outro profeta, muito admirado por Jesus… Profetas com sensibilidade social, defensores dos fracos, dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros. Eles sabiam que Belém-Efrata, lugar de gente pobre e desvalida, “pequena demais para figurar como grupo de milhares de Judá”, seria a fonte a jorrar de esperança. Dela “sairá o que há de reinar em Israel” (v. 2). Belém-Efrata, nos mostra o caminho da salvação, com suas ruas empoeiradas e com suas “casas simples com cadeiras nas calçadas”, como na inesquecível canção. “E aí me dá uma inveja dessa gente, que vai em frente sem nem ter com quem contar… é gente humilde, ai que vontade de chorar…”.

Esta sensação melancólica do Natal, me faz recordar de um final de ano quando fui assistir ao filme “A Hora da Estrela” (1986). Inquietante! Dirigido por Suzana Amaral, a trama baseada no romance de Clarice Lispector, conta a história de Macabéa (Marcélia Cartaxo), uma imigrante nordestina, que vive em São Paulo. Ela trabalha como datilógrafa em uma pequena firma e vive em condições precárias em uma pensão miserável, onde divide o quarto com outras mulheres. Macabéa, que enigmaticamente nos cativa em sua feiura, fragilidade e inexistência, não tem grandes ambições na vida, mas, mesmo assim, sente o desejo por viver e em ter um namorado. Porque não?

Entre sonhos e realidades, entre a crueza da vida e a possibilidade de futuro, entre o encontro e a impossibilidade de viver, o filme nos faz refletir sobre os meandros que estão entre a existência humana e os laços sociais; entre a vida e a morte.
E gosto do Natal fica em nossa boca. É o sonho do bebê que virá, da criança que nos ensinará o caminho, e ele já estava lá atrás… “O Senhor os entregará até ao tempo em que a que está em dores tiver dado à luz” (v. 3). Conflitos nas famílias? Dificuldades no trabalho? Medo do desemprego? Doenças e cirurgias? Estresse e depressão? Amores não correspondidos? Pessoas nas ruas mendigando o pão? Muitas dores nos acompanham… Mas, o amor e a misericórdia, que é coisa do coração, prevalecem.

E o Advento vai reunindo dor e alegria, frustrações e esperanças, balanços de como foi o ano e desejos bons de como será depois no Natal, para nós e para todo mundo. No Brasil, os anos de 2016, 2017 e 2018 foram muito difíceis, com retrocessos políticos e sociais, e marcado por muitos conflitos políticos e ideológicos. Decorrente deles, certa agressividade entre pessoas, grupos e até mesmo entre familiares e amigos. E vimos também atentados ao estado de direito, justiça seletiva, rancor político. O quadro parece não ser esperançoso… E o Advento, então, nos arranca lá de dentro do peito a pergunta: Quem vai ganhar – a frustração ou a esperança? Ou elas são irmãs gêmeas, gestadas na fé, que olham para a realidade da vida, sem fingir, “sem fugir, nem mentir prá si mesmo”? (Sabendo que) “agora, há tanta vida lá fora… como uma onda no mar”, no dizer desta linda canção. Não é verdade?

A visão profética de Miquéias vem lá de trás… As raízes da vida de despojamento, de simplicidade e de humildade estão ancoradas nas primeiras experiências do povo de Israel, escravizado no Egito. Escravos sofridos, mulheres, homens, jovens e crianças, como os negros foram escravizados aqui no Brasil e em outras partes do mundo. Eles que, na busca por dignidade e justiça, nos dão a esperança, como o pastor evangélico Martin Luther King nos dissera décadas atrás: “Eu tenho um sonho…”: Nenhuma barreira entre as pessoas, nenhuma forma de discriminação, muros derrubados, braços irmanados. Sonhos de marias, de macabéias, de pastores como Josias Pereira, de Mahatma Gandhi… Sonho de Jesus. Hoje, nós também temos sonhos. Inspirados nos textos lidos, esperamos a paz. A paz com justiça, garantida nas leis e nos corações humanos. A paz com voz, com firmeza e dignidade, sem nenhum direito a menos. É o que aguardamos em Deus neste tempo de espera do Natal.

O Advento é o tempo de preparar tudo isso… Corações, mentes, braços, corpos, tudo girando pela paz e pela comunhão justa entre as pessoas e os povos. O Advento nos oferece aquele gostinho de saudade e, ao mesmo tempo, de vontade de Natal. É o tempo de seguirmos a estrela… Oportunidade singular de renovarmos os nossos votos. Ah, que saudade da antiga canção da TV: “estrela brasileira no céu azul, iluminando de norte à sul. Mensagem de amor e paz, nasceu Jesus, chegou o Natal.”. E a frágil criança vai crescer, vai aprender a andar, a falar, vai ter os seus sonhos de juvenil… Assim foi com Jesus, nossa luz, nossa paz. Diante de nossas lutas e das dores deste mundo, diante das pontes que atravessamos “quando a vida é frágil”, no meu caso incluindo algumas de safena, não nos esqueçamos: “Ele se manterá firme e apascentará o povo na força do Senhor, seu Deus; e eles [e nós!] habitarão seguros, porque, agora, será ele engrandecido até os confins da terra” (v. 4).

Algumas pessoas acham que os sentimentos que brotam no período do Natal são marcados por falsidade. Como são muitos os problemas ao redor e a vida das pessoas tem muitos conflitos, a esperança por dias melhores passa a ser vista como enganação, a paz como alienação e a alegria como algo artificial. Será isto uma verdade? Talvez sim, em alguns casos. Mas, o Evangelho nos dá sinais ao contrário. Ou seja, ele revela que é possível celebrar autenticamente a esperança, a paz e a alegria. Maria, por exemplo, jovenzinha, experimentou muitas críticas por ter ficado grávida sendo solteira (vindas certamente de pessoas insensíveis e de coração duro). Ela foi alguém que viveu esses três sentimentos: a esperança, a paz e a alegria, e, por isso, cantou: “Meu espírito se alegrou em Deus, meu salvador”. Ela teve o apoio de sua prima Isabel, para se esconder da perseguição que sofria. E lá ficou por três meses… O apoio das pessoas nos traz paz. E quem apoia alguém também sente paz no coração. Esse é o sentido profundo do Advento: esperar que todos tenham paz. Paz com justiça!

Claudio Oliveira Ribeiro.

Imagem. Luis Henrique

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