Conrado Dalmonego: “O diálogo com os indígenas nos ajuda a descobrir a essência de nossa fé, encoberta por enfeites e tradições culturais”.

Nós temos uma mentalidade que muitas vezes é exclusivista, tem que aceitar uma coisa, e para aceitar “a” tem que eliminar, excluir “b”. Eles tendem a juntar as coisas, eu vi isso com os yanomami, uma coisa e a outra. Por que não fazer esse exercício também como Igreja, essas experimentações? Isso que, por um lado, pode ser acusado de sincretismo, relativismo, mas nós não somos donos da verdade.

A Missão Catrimani pode ser descrita como, uma missão especial diferente, com características definidas ao longo de mais de cinquenta anos de presença, que é o que realmente define a missão dos Missionários da Consolata com o povo Yanomami.

Atualmente, junto com três irmãs da Consolata, na missão vive Corrado Dalmolego, religioso nascido na Itália, que depois de onze anos aprendeu a viver, falar e pensar como um Yanomami, assumindo a sua cultura e visão de mundo através do diálogo, fundamento de uma missão em que nenhum indígena foi batizado, algo que vai além de um testemunho silencioso, porque quando você dialoga, você fala, quando você fala, você se anuncia.

Isso, para muitos dentro da Igreja Católica, é algo surpreendente, mas tem o reconhecimento de Davi Kopenawa, líder Yanomami conhecido mundialmente quem afirma que os missionários fizeram as coisas direito, sem machucar seu povo, sem destruir sua cultura.

Frente ao Sínodo para a Amazônia, o Papa Francisco pede para escutar os povos indígenas, elemento essencial segundo o Padre Dalmonego, porque eles poderiam nos ajudar a viver a nossa própria religiosidade e espiritualidade, ajudar a Igreja a se limpar, talvez de esquemas, de estruturas mentais, que podem ter se tornado obsoletas ou inadequadas.

O que é a missão Catrimani?

A Missão Catrimani é uma presença da Igreja de Roraima junto ao povo yanomami, uma presença que iniciou em 1965 com a chegada dos primeiros dois missionários que estabeleceram uma missão junto ao povo yanomami. Já na década anterior tinham ocorrido os primeiros encontros com as comunidades yanomami nos rios Ayarai, Apiau, Catrimani, em Roraima, mas em 1965 iniciou-se essa presença estável, que por tanto hoje conta com mais de 50 anos.

É uma presença da Igreja junto a um povo, que é considerado pelo órgão indigenista oficial, FUNAI (Fundação Nacional do Índio) como um povo de recente contato, que tem muito orgulho, muita força, para com a sua língua, sua cultura, seus costumes, é uma presença missionária que foi se definindo desde os primeiros anos de estabelecimento e que ficou caracterizada, eu diria, pela permanência estável, pela presença junto às comunidades, pelo respeito profundo para com a cultura, a religião do povo.

Portanto, uma presença missionária que sempre tentou apoiar a vida, a defesa do povo, a demarcação da terra, a defesa e implementação da saúde, a luta contra as invasões da terra yanomami e as agressões aos direitos desse povo.

O que define hoje a Missão Catrimani?

A Missão Catrimani é uma presença que hoje se caracteriza em seu projeto missionário por seis áreas de atuação, que são apoio a uma educação diferenciada e fortalecimento dos conhecimentos tradicionais a traves de formação, cursos, pesquisas, apoio à formação dos jovens, mantendo sempre uma atenção particular à valorização dos conhecimentos tradicionais.

Segunda área de atuação a área da saúde, embora hoje as ações sejam desenvolvidas pelo órgão competente do governo, existe um apoio na região da Missão Catrimani, das comunidades que moram lá, para a formação de agentes indígenas de saúde e controle social das ações de saúde, e muitas vezes um pouco a mediação entre os yanomami e os agentes não indígenas que são responsáveis pelas ações e assistência sanitária.

A terceira área de atuação é aquela que diz respeito à gestão territorial e a relação dos yanomami com a sociedade envolvente, tudo o que diz a respeito à proteção da terra, à formação política, à implementação de ações autóctones de gestão do território e a refletir com os mesmos yanomami sobre as relações com a sociedade envolvente, que desperta um atrativo grande de toda forma, sobretudo sobre os jovens. Lembremos que a sociedade yanomami é uma sociedade muito nova, que está vivendo uma evolução demográfica, mais ou menos o sessenta por cento da população tem menos de 14 anos. Por tanto, é uma população muito jovem.

Uma outra área, a quarta, é o diálogo inter-religioso, intercultural, convivendo com as comunidades, uma vida próxima, aprendendo a língua, é possível realizar aquilo que a Igreja chama de diálogo inter-religioso, que acho que é uma fronteira pouco explorada, à qual se dá também pouca atenção no âmbito missionário, no âmbito da Igreja. Parece uma coisa que aparece como anexo normalmente nos documentos, uma coisa que se aceita, se tolera, sobretudo se tolera o diálogo em relação às consideradas grandes religiões, pelo número de adeptos ou pela cultura forte dos países grandes, das economias grandes, onde essas religiões são vivenciadas. Veja na Índia, na Coreia, sobretudo na Ásia.

Mas o diálogo é pouco realizado junto a pequenas populações, populações indígenas com um número relativamente pequeno de membros. O diálogo é um componente essencial da atuação da Igreja, daquilo que a evangelização, e portanto nos ajuda a não confundir o que é o anuncio com aquilo que se considera conversão. O dialogo criado nas ocasiões cotidianas, nos momentos fortes dos rituais, e até nas pesquisas que se realizam sobre xamanismo, sobre mitologias, sobre saberes diferentes, sobre visões do mundo, sobre visões sobre Deus, a confiança, a amizade, construir momentos fortes de diálogo, que para a mesma Igreja são muito enriquecedores, pois nos ajudam a descobrir a essência de nossa fé, muitas vezes encoberta por enfeites, por tradições culturais.

Esse âmbito do diálogo inter-religioso e intercultural junto a uma sociedade indígena, uma sociedade daquelas das quais o Documento Preparatório ao Sínodo dos Bispos diz estabelecer pontes entre os conhecimentos tradicionais e os conhecimentos modernos, ecológicos, da sociedade ocidental. Como o Papa Francisco nos lembra, é apenas no encontro, no diálogo entre conhecimentos diferentes que é possível, seja defender esse mundo, construir uma ecologia integral, seja também descobrir os caminhos do Reino, no diálogo, escutando os anseios de povos, de sociedades diferentes. Não é sozinho que se encontram soluções aos problemas, mas no diálogo com outras sociedades, e sociedades indígenas, em particular, aqui na Amazônia.

Uma outra área de atuação é o apoio à formação de mulheres, conhecendo a liderança das mulheres e a sua importância para a vida de um povo, de uma sociedade. O último aspecto é a informação, comunicação, seja interna, entre as diversas comunidades yanomami, comunicação que se realiza através de instrumentos como radiofonia, mensagens, ou pequenos jornais informativos, mas também encontros, assembleias, nas quais lideranças de várias comunidades se encontram e traçam linhas comuns de vida, de defesa do território, promoção da própria vida.

Também comunicação externa, nas ocasiões que nos permitem levar a mensagem desse povo para instâncias diferentes ou acompanhar lideranças para deixar seus testemunhos, suas mensagens. Estas são um pouco as seis áreas de atuação nas quais se formula o projeto missionário da equipe que trabalha no Catrimani, que hoje é composta por três missionárias da Consolata, e eu, missionário da Consolata.

Quanto tempo faz que está morando no Catrimani?

Eu moro lá faz 11 anos.

O que é que tem apreendido nesse tempo com o povo yanomami?

Na convivência se aprendem muitas coisas. Se eu tivesse que destacar alguns aspectos, bom a aprendizagem da língua é muito importante, muito bonito, que abre horizontes, perspectivas, visões diferentes, como citava antes. A questão da fé, um aprofundamento pessoal, encontro com outra religião, com outra espiritualidade, vai também enriquecendo a nossa espiritualidade. Depois se aprende a importância da comunidade, da vida comunitária, quando a gente foi participar de uma comunidade um pouco longe, cinco dias de caminho da missão, fui acompanhar um grupo de 40 yanomami que foram participar de uma festa na região onde mora Davi Kopenawa, fomos ao longo de cinco dias, e quando chegamos na comunidade, a festa durou depois quatorze dias.

Quando a gente chega na comunidade, depois de cinco dias de caminho, eu fiquei tirando um sossego, um respiro, e depois fiquei pensando porque a gente tira um fôlego, o que é que tem de diferente entre o caminho e aqui, tem o conforto da tecnologia? Não. Tem luz? Não. Tem água encanada? Não. Se come a comida como a gente está acostumado? Não. Tem as próprias leituras? Não. Tem um trabalho que nos dá satisfação, nos edifica? Não. Qual é a diferença? É chegar numa comunidade, chegar no meio de um povo, é a festa, é o encontro, é a amizade. Esta experiência me despertou um pouquinho a uma coisa que se aprende, que é o valor da vida comunitária. Não que seja isento isso de dificuldades, de conflitos, mas vi o valor que isso tem. Aí os yanomami são para nós testemunhas para poder apreciar esse valor da vida comunitária.

Depois se aprende o valor de uma cultura, de costumes, de conhecimentos tradicionais, quanto isso garante a sobrevivência de um povo e constitui um alicerce sobre o qual se constrói uma sociedade, e vindo a faltar isso, a cultura, a visão das festas, da mitologia, xamanismo, como tudo poderia se derrubar, uma ameaça muito grande, a gente aprende isso também.

Quais são os desafios que o povo yanomami enfrenta hoje?

Se nós prestamos ouvido aos anseios, às lutas que estão enfrentando, às ameaças que eles reconhecem, o ideal seria ouvir, como diz o Papa Francisco, como o Documento Preparatório ao Sínodo coloca, precisamos ouvir o que dizem. Entre parêntesis, às vezes não ouvimos muito, porque a gente se encontra e pouco se ouve, pouco se chama, pouco se consulta às pessoas. Se nós ouvimos, e a gente convivendo pode prestar atenção, eles reconhecem como ameaças as agressões ao território, por parte de garimpeiros, sempre presentes, madeireiros, e outros exploradores dos recursos da floresta, e isso é presentes hoje.

Depois as ameaças talvez que podem parecer mais longínquas, grandes projetos de mineração em terras indígenas, e a legislação está toda direcionada a isso, dizem de regulamentar a exploração mineral, mas é uma liberalização da exploração mineral se formos olhar um pouco a legislação. Até projetos de hidroelétricas, aqui em Roraima, vão afetar o território e as comunidades yanomami. Isso tal e como aconteceu nos anos setenta com a construção da estrada Perimetral Norte e como ocorreu na explosão da busca do ouro, que trouxe quarenta mil garimpeiros na terra yanomami, cuia população se estimava em dez mil yanomami, entre 1987 e 1990, antes da demarcação e homologação da terra yanomami. Essa ameaça permanece muito forte.

As desatenções e desorganização do sistema de saúde, que não consegue atender como deveria por dificuldades de desorganização ou problemas graves na administração, nos cuidados. Outra coisa que eu colocaria, desde minha visão, são as políticas da sociedade envolvente para com os yanomami, e o desafio que uma sociedade assim, tão jovem, é chamada a enfrentar entre os conhecimentos tradicionais e o perigo de relativizar isso, fragilizar isso, perante tudo quanto vem da sociedade circundante.

Como o povo yanomami cuida dessas tradições, o que faz para preserva-las?

O povo yanomami tem muito orgulho da própria língua, da própria identidade, uma palavra criticada hoje pela antropologia. Eles tem uma forte consciência, nós somos yanomami de verdade, eles dizem, yanomami mesmo, eles tem esta força. Para cultivar, conservar, defender, isso, eles tem todo o sistema das festas, dos rituais. Eles foram chamados também de povo da festa, festa areaju, que é uma grande cerimônia que pode durar vários dias e até duas semanas, a mais longa que eu participei. Uma festa que sepultam, se enterram as cinzas dos falecidos, mas é um pouco o centro da vida yanomami, pois envolve relações de alianças, parentesco, amizade, mas também cantos, festas, danças, diálogos rituais entre lideranças e comunidades diferentes. É um pouco um resumo da vida dos yanomami.

Como os povos indígenas, a partir de seu conhecimento e seu convívio com os yanomami, podem ajudar para que realmente o Sínodo da Amazônia possa construir esses novos caminhos?

No Documento Preparatório se fala disso, de prestar ouvido para encontrar os caminhos, construir as pontes, construir o diálogo para tentar dar uma resposta aos problemas, às ameaças globais à ecologia, ao mundo, às culturas. Primeiro precisa criar durante o Sínodo os espaços de escuta, essas instâncias, não só através de mediadores, mas talvez, em ocasiões, através de encontros diretos.

Os povos indígenas poderiam ajudar com a vivência da própria religiosidade, da própria espiritualidade, ajudam à mesma Igreja a se limpar, talvez de esquemas, de estruturas mentais, que podem ter ficado desatualizadas ou não adequadas. Prestar ouvido a como os povos indígenas vivem a vivência comunitária, como eles vivem as relações sociais, a organização da liderança, por exemplo. Isso pode também ser dialogado com a Igreja para ver como a Igreja pode se organizar, como se organiza a comunidade, qual é o papel da liderança, quais são os instrumentos que as lideranças têm para corrigir os erros de algumas pessoas, para convencer.

É a palavra, é o diálogo ritual, é o testemunho, uma liderança é na medida em que suas palavras forem seguidas, não tem um autoritarismo, não tem um controle de cima, mas existe a construção de um consenso. Por que isso não pode iluminar também à Igreja quando se pensa a si mesma? Como construir o consenso, como construir caminhos? Olhamos para uma comunidade indígena e a comunidade nos mostra os próprios modos, as próprias formas. A vivência do ritual que não é algo isolado, mas é um tempo especial dentro do tempo comum. Você pergunta quando começou a festa? A festa começou quando plantei a roça de bananeiras para ter comida para os hóspedes, ou seja, oito meses antes do momento chave da festa ocorrer. E depois, como se realiza a festa? Tem um momento de acolhida, tem a dança, tem os diálogos rituais, de reconciliação, que coloca em pauta as questões.

Eu vejo também que junto a um povo indígena a gente aprende a se relacionar com os outros, organizar o nosso tempo, o exercício da liderança, da autoridade, as implicâncias espirituais. Olhando para como vivem, tem coisas que podem dizer à Igreja e à sociedade. Todo mundo sabe que as terras indígenas são as unidades de conservação melhor protegidas no Brasil. Por tanto, todo mundo vê que os povos indígenas têm práticas que levam a cuidar do território, apesar de viver de seus recursos.

Além dessa questão ecológica, também a organização social, podemos aprender o exercício da liderança, o diálogo. Os yanomami têm ao outro, a conhecer o outro, a apropriar-se do outro, a tornar o outro alguém parecido com eles mesmos, ensinando, aceitam, acolhem o outro, aceitam uma coisa sem renunciar a outra. Nós temos uma mentalidade que muitas vezes é exclusivista, tem que aceitar uma coisa, e para aceitar “a” tem que eliminar, excluir “b”. Eles tendem a juntar as coisas, eu vi isso com os yanomami, uma coisa e a outra. Nas perguntas sobre questões religiosas, eu posso comunicar-me com Deus, o Deus dos brancos, posso rezar? Pode. Posso invoca-lo para curar meu filho doente? Para nós são questões que nos deixam um pouco perplexos, perguntando, você renuncia a algo para apropriar-se de outro? Não, não se renúncia, não é necessário renunciar, simplesmente e apropriar-se de algo a mais.

Por que não fazer esse exercício também como Igreja, essas experimentações? Isso que, por um lado, pode ser acusado de sincretismo, relativismo, mas nós não somos donos da verdade. Ninguém reconhece isso. Tem documentos da Igreja, documentos do Concilio, que afirmam que todos colocamo-nos debaixo dessa luz, desse mistério que ninguém controla. Tentamos fazer isso efetivamente, praticamente, mas quando se trata de colocar na prática ficamos com receio, pode, não pode. Quais são os pauzinhos que indicam o caminho para superar essa fronteira?

Aquilo que você fala nos leva a muitas atitudes e palavras do Papa Francisco, esse jeito dos povos indígenas o ajuda nas orientações que dá. Você pensa que a Igreja está preparada, disposta, a assumir de fato esse jeito de viver essa relação com Deus?

Creio que seja um desafio muito grande para a Igreja. Não que não existam pessoas ou grupos que tenham essa abertura, mas se olharmos a Igreja desde o ponto de vista institucional, vejo muito de receio, de medo, de abrir-se com coração sincero a oferecer. Uma palavra que o yanomami diz, que significa por que você está sovinando algo? Até escutei isso em relação a essa questão de fé. É um povo indígena chamado de recente contato, que vive sua religião tradicional, a legislação brasileira também é muito rigorosa com povos de recente contato.

Existe esse receio, seja na Igreja, seja na sociedade como um todo, olhar para as ações missionárias, olhar para as ações de evangelização com muita desconfiança, porque a história foi marcada pela Igreja como instrumento de colonização, de negação cultural, de negação da diferença, foi uma ação violenta, da qual a Igreja também participou. Tem matéria para despertar essa suspeita, se trata de talvez mudar mesmo de uma atitude de arrogância para agir com a atitude daquele livro de dois missiologos verbitas, “Diálogo profético”, que achei muito pertinente para o trabalho que temos na Missão Catrimani, dois aspectos a se complementarem na ação evangelizadora da Igreja, que em certos momentos pode se realizar mais como diálogo, animado por aquilo que os autores chamam “humilde coragem” ou “humildade corajosa”.

O diálogo profético é isso, em certos momentos, você realiza mais o diálogo, no respeito, na valorização da cultura do outro, em outros momentos é chamado a um anuncio profético, na defesa dos direitos, na defesa da vida e apontar caminhos. Sempre no diálogo profético, nesse jogo entre esses dois aspectos complementares da evangelização.

Você fala dessa tentativa de posicionamento, mas você mesmo vive numa missão onde depois de mais de cinquenta anos ninguém foi batizado, uma missão de presença e de diálogo.

Sim, mas é uma expressão minoritária, e muitas vezes acusada.

Qual é a reação que você sente dentro da Igreja católica, da sua própria congregação diante dessa atitude?

Todos os que eu conheço que trabalharam lá, eles admiram esse jeito, participaram, foram parte, dedicaram sua vida, seus anos, seu trabalho, valorizam essa forma de atuação, que eu não reduziria a um testemunho silencioso, porque quando tem diálogo você fala, quando você fala, você anuncia. Não adianta pensar que diálogo é um pré-anúncio, já é anúncio, se você está conversando com uma pessoa, você está anunciando o que você crê. Tem pessoas que defendem essa forma e a valorizam, até bispos, que conhecem, valorizam e começam a dizer. Eu lembro um bispo no Equador que depois que eu falei, logo questionou, vocês estão se omitindo como missionários, mas depois, cada dia me cruzava no corredor, sacudindo um pouco a cabeça, e no último dia disse para outro missionário, agora estou começando um pouco a entender. Se entende dando valor.

Tem pessoas que entendem, que valorizam, mas mesmo dentro da Igreja tem pessoas que criticam, que afirmam que seja uma omissão.

Frente ao Sínodo e a esses novos caminhos que a Igreja quer encontrar, a gente poderia dizer que a Missão Catrimani pode ser uma referência para esses novos caminhos? A Igreja precisa de mais missões Catrimani?

Eu penso que essa presença na Missão Catrimani, junto com muitas outras, é uma presença profética para a Igreja, que se pus à escuta dos povos, uma presença que não deixa de ser criticada ou mal entendida, acusada de omissão. Isso doe bastante, porque dentro da Igreja se recebem críticas por incompreensões, pessoas que não conhecem, também não tiveram a oportunidade de participar dessa caminhada. Não é que se pode acusar a essas pessoas por causa da incompreensão. Eu acho que se alguém nunca teve uma experiência como aquela que se vivencia numa missão como a Missão Catrimani, não se pode pretender um entendimento.

Eu creio que mais experiências como esta, difundiriam uma nova visão do serviço da Igreja, da presença da Igreja. Agora, escutar um Davi Kopenawa yanomami, liderança indígena deste povo, que diz que a Missão Catrimani fez certo, que não machucou os yanomami, que não destruiu a cultura, que não condenou o xamanismo, e por tanto, ele diz que essa aí é a mensagem que vocês têm que trazer do Deus que vos mandou. Se o mesmo Davi Kopenawa diz assim, afirmando que a Missão Catrimani pode continuar trabalhando, porque faz um trabalho bom de apoio, de sustento, de alianças com os yanomami, acho que é uma coisa muito importante, ouvir isso é uma apreciação que alimenta o coração, dá ânimo, significa que estamos indo ao encontro daqueles que são os anseios do povo, das comunidades. Por tanto, se tivesse mais experiências como essas a Igreja se enriqueceria fortemente.

Esse momento do Sínodo é um momento no qual toda a Igreja, e também talvez fora da Igreja os olhos sejam direcionados sobre a Amazônia. Portanto, é um momento importante, valioso, para que a Igreja possa refletir sobre sua atuação junto aos povos indígenas, não apenas pensando nos povos indígenas, mas creio que essa reflexão possa apontar para a Igreja como um todo, também um paradigma missionário, uma vivência do Evangelho. Eu utilizo essa experiência na Missão Catrimani, nunca trabalhei em outras missões, então a minha visão pode ser um pouco limitada, mas eu creio que, sem querer implantar em outros lugares essa forma de atuação, tem aspectos, tem estímulos, elementos que podem ser inculturados em outros lugares.

Por exemplo, eu trabalho lá e estudei e aprendi a língua, se eu for trabalhar com outro povo indígena, a prioridade para mim seria começar a aprender a língua, para poder construir pontes, para poder conhecer o coração, conhecer o profundo das pessoas. Se alguém me diz, não, mas eles já falam português ou já falam a língua nacional daquele país. Isso não tira a importância em querer aprender também a língua, pois se nós queremos ajudar um pouco, tanto quanto é importante a terra, é importante a língua. Por tanto, se na Missão Catrimani a gente aprende a língua, também em outras missões o essencial é aprender a língua, para poder ter uma troca profunda de diálogo com as pessoas, sem cobrar que eles venham a nosso encontro tentando traduzir para nós certas coisas, que na hora em que são traduzidas, as mensagens são traídas, são transformadas. Pego o exemplo da língua para dizer um pouco todo o conjunto. Eu acho que isso é importante, que poderia ser trabalhado em outras presenças missionárias.

Por Luis Miguel Modino

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