O Natal subversivo de Jesus de Nazaré

“Enquanto estavam lá, chegou o tempo de nascer o bebê, e ela deu à luz o seu primogênito. Envolveu-o em panos e o colocou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.” (V6-7).

Texto Base: Lucas. 2. 1- 40

Foi na periferia, em uma pequena cidade da Judeia que nasceu o menino pobre, refugiado, libertador, vítima da opressão do império romano, filho de José e Maria, desprovido de propriedade privada, pois não tinha onde reclinar a cabeça. Foi levado por seus pais de Nazaré da Galileia para a Judeia, para uma pequena cidade chamada Belém, pois seu pai era da casa de Davi, de linhagem real. Era tempo de alistamento em sua terra natal, uma obrigação para o seu pai José. Jesus Nasceu em um lugar simples, entre os pobres, sem as regalias de um rei, sem grandes estruturas, sem ostentação e sem luxo. Maria deu a luz em um estábulo, lugar que abrigava animais, pois apesar de vir de muito longe, gravida de uma criança, no tempo de dar a luz, não achou lugar na cidade para acolher-los.

O nascimento de Jesus foi marcado por simplicidade, mas também por muitas dificuldades, devido a longa viagem que seus pais tiveram que fazer, e o abrigo em um lugar não muito confortável para se estar.

Nascimento de Jesus também foi marcado pela visita de pastores que estevam com seus rebanhos nas proximidades da cidade. Os pastores foram avisados por um anjo que anunciaram o nascimento do Jesus Libertador, Deus dos pobres e dos oprimidos. Os pastores ao ver o anjo, ficaram aterrorizados, mas logo confortados quando receberam a notícia de boas novas de alegria para o povo que estava sob opressão do império romano em um contexto de pobreza, exploração, exclusão e desigualdade. “Hoje, na cidade de Davi, lhes nasceu o salvador, que é o Cristo, o Senhor” (v.11). Após a aparição de uma grande multidão de anjos, os pastores vão até Belém para ver o menino. Logo depois da visita divulgaram a notícia ao povo e retornaram para cuidar de seus rebanhos glorificando a Deus. Maria, preferiu refletir em silencio, em seu coração com sabedoria e serenidade sobre estas coisas.

celebração do Natal segundo o Evangelho tem implicações profundas e práticas. O Natal é amor subversivo e revolucionário. O Natal Não é um momento para nos lambuzarmos no consumismo, de lotar os shoppings para comprar presentes caros, de fazer votos de prosperidade financeira, de celebrações com mesas fartas em detrimento da fome de milhões. O papai noel com sua roupa vermelha e seu saco de presentes é a figura de marketing do capitalismo que tem levado milhões de pessoas às lojas para satisfazer o desejo de uma sociedade consumista e egoísta. Ao contrário, celebrar o Natal é ter encontros libertários de amor com o outro, em subversão e resistência a toda manifestação capitalista-excludente. Natal, é ver o menino Jesus no rosto do pobre, do favelado, dos moradores de rua, dos sem teto, dos que não tem terra, dos refugiados, dos negros e LGBTs, dos meninos das favelas e das mulheres pobres vítimas de violência. Natal é o anuncio das boas novas de libertação, no menino pobre da manjedoura que viveu e cresceu entre os pobres, em subversão ao sistema econômico-político-religioso opressor de sua época.

Por isso não devemos silenciar nossas vozes neste Natal. Perguntar é preciso. Porque as lojas de alimentos e presentes nos grandes centros urbanos estão lotadas por consumidores enquanto a pobreza extrema cresce no Brasil? Porque na noite de Natal famílias por tradição se reúnem em suas casas suntuosas enquanto milhões, ao exemplo do menino de Belém, no qual se comemora seu nascimento não tem onde repousar a cabeça? Porque a ceia nas igrejas tem mesa farta para seus pares, distribuição de presentes, enquanto uma multidão de milhares não tem o que comer neste Natal? Tudo isso se faz em nome do menino Jesus, mas no fundo, sabemos que tudo se realiza em nome da tradição, do deus mamom, que estimula o consumo e o egoismo entre as pessoas, tudo isso em nome de si mesmo, em detrimento de se fazer em comunidade.

O Natal é uma denúncia a todo tipo de opressão e exclusão aos pobres. O Natal é a profecia da parte de Javé, que fala em nome dos pobres e dos excluídos. Natal é tempo de libertação, de levar a mensagem de amor e esperança do menino de Belém. Camponês, refugiado, sem teto, perseguido pelo império romano, que na idade adulta foi preso, torturado e assassinado como um maldito desobediente e subversivo aos poderes da religião e do império, isso por se unir aos miseráveis da periferia da Galileia em resistência a esses poderes. É o Natal das ruas empoeiradas onde caminham o povo, dos becos das favelas onde se encontram os excluídos, das praças públicas que é lugar de liberdade, das calçadas onde estão os moradores de rua, dos campos onde plantam e semeiam os camponeses, das praias e rios onde os pescadores lançam suas redes, das comunidades indígenas onde se cuida da mãe terra. Jamais o Natal do menino pobre será no templo ou no palácio.

O Natal de Jesus é amor subversivo e revolucionário, é um contra ponto aos moldes dominantes de uma sociedade pautada pelo individualismo. Por isso, o Natal de Jesus é a celebração da partilhar para que todos/as se assentem à mesa com alegria no Espírito, em fraternidade, de forma plural e diversa, sem preconceito. O Natal de Jesus é comunitário pois revela o Cristo das comunidades, da caminhada libertária, do povo, na luta por igualdade e justiça. O Natal de Jesus é paz e alegria, pois Ele é amor que acolhe em entranhas de compaixão. O Natal do menino libertador é a celebração da vida, dos encontros subversivos, de esperança e de fé, das reconciliações, de arrependimento e perdão. É Natal, é tempo de revolução, de ações motivadas e pautadas por utopias, de serviço mútuo, de dar graças, não pelas conquistas pessoais, mas pela caminhada comunitária com todas/os. Por uma sociedade mais justa, por um mundo mais humano e fraterno.

Texto de Marcos Aurélio dos Santos é teólogo e ativista social. É colaborador do Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, facilitador da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito em Natal/RN e coordenador do Espaço Comunitário Pé no Chão.

Fonte: CEBI

Imagens: Arquivo Web

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