A restrição crescente à migração legal escancara as feridas e cicatrizes da mobilidade humana

“É importante resgatar a dignidade do migrante, não só sanar as feridas sociais, mas fazer com que a cura também aconteça diante das feridas pessoais”

No dia 11 de janeiro de 2019, o sacerdote scalabrino, Pe. Alfredo J. Gonçalves, apresentou no auditório do teatro Tuca da PUC-SP a segunda parte de sua conferência com o tema “Migrantes: feridas e cicatrizes – panorama nacional e internacional das migrações”. Destacou que existe um binômio entre urbanização e migração, principalmente quando o impacto migratório se acentua e gera uma urbanização acelerada e periférica. Segundo ele “Não se trata de um crescimento urbano programado, mas sim, de cidades que incham, sem infraestrutura e extremamente acelerada”.

De acordo com os dados do último Censo Demográfico de 2010, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), houve um aumento de 84,4% do ingresso de quase 23 milhões de pessoas nas áreas urbanas do país, informou Pe. Alfredo. Este processo ainda em avanço e com tendências de caminhar para um mundo cada vez mais urbanizado gera impactos diretos: cidades marcadas pela extrema pobreza e as pessoas que nelas vivem se tornam uma “multidão solitária”, um “deserto moderno”. Enfatiza que “hoje a maior solidão se passa nas cidades”.

A observação fundamental apresentada pelo assessor, diante desse processo de migração interna ou regional, é que “mais do que um conceito geográfico, estamos diante de um conceito antropológico e cultural”, ou seja, devemos ter a capacidade de entender que o universo urbano não coincide com a cidade, assim como o universo rural também não coincide com o campo. Alfredo explica que é necessária uma grande flexibilidade cultural, porque encontramos no mundo urbano “ilhas” rurais, e no meio do campo, linguagem totalmente urbana. Deste modo, a sociedade moderna torna-se cada vez mais urbana, mesmo no campo.

Essa constatação do assessor parte do princípio de que tanto na cidade como no campo existem modos de ver cultural. “É importante que tenhamos capacidade de perceber a simbologia rural diante do mundo urbano”, afirma Pe. Alfredo, ao constatar que os valores urbanos se formam num universo cheio de possibilidades, por isso, as pessoas necessitam criar uma personalidade madura ou irão entrar num “beco sem saída”.

O grande desafio está em encontrar meios adequados para acolher, no mundo urbano, estas pessoas que chegam fragmentadas e com perdas de personalidades. “Por isso é importante resgatar a dignidade do migrante, não só sanar as feridas sociais, mas fazer com que a cura também aconteça diante das feridas pessoais”.

No dia 8 de janeiro, o presidente Jair Bolsonaro retirou o Brasil do Pacto Mundial de Migração da ONU. Esta atitude tem causado um mal-estar no país por sinalizar possíveis retaliações comerciais com países árabes e possíveis dificuldades de os mais de 3 milhões de migrantes brasileiros permanecerem em determinados países. Pe. Alfredo destaca que o mundo se fecha diante da urbanização acelerada e da economia globalizada. O outro se torna ameaça, inimigo, perigo. Criam-se fronteiras, muros visíveis e invisíveis entre os “bons” e os “maus”, gerando intolerância, discriminação, xenofobia. Afirma também que “o terreno da crise é o terreno mais forte para que se tenha medo do outro. Os políticos manipulam e instrumentalizam este medo. Vimos principalmente nestas últimas eleições o quanto se enfatizou esta instrumentalização do medo do migrante”.

Diante da globalização econômica, abandona-se a concepção de patriotismo para assumir o nacionalismo. O primeiro está aberto, não há medo e sim diálogo, já o segundo é fechado, causa temor e dominação. Neste modelo as fronteiras se fecham e com isso geram movimentos totalitários, impedindo assim, os canais legais da migração.

O sacerdote encerra sua temática explicando que a restrição crescente à migração legal escancara as feridas e cicatrizes mais vivas da mobilidade humana. Por isso, o trabalho sócio-pastoral só se tornará efetivo se atendermos de forma distinta e complementar as três dimensões do conceito de fronteira: a) Geográfica-territorial (presente nas fronteiras com diversos países e que necessita de visto para poder entrar; nessa situação determinados serviços pastorais podem ser feitos); b) Jurídica-política (leis migratórias de cada país, passa pelo Congresso, dependem de decisões políticas, pacto global); e c) Cultural-religiosa (mentalidades, expressões, visões do mundo e costumes diversos. Observar como a comunidade recebe quem chega. Se ela está mais sensível em lidar com o nível de aceitação do diferente).

Frei Zeca / Comunicação / CV2019

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