A identidade do laicato no Vaticano II (O laicato na Igreja e no mundo – 7) Agenor Brighenti]

“ao negligenciar os seus deveres temporais, o cristão negligencia os seus deveres para com o próximo e o próprio Deus e coloca em perigo a sua salvação eterna” (GS 43).

Em grande medida, as mudanças do Vaticano II se deram antes dele, nos movimentos inovadores que o prepararam, entre eles, o movimento do laicato, em especial a Ação Católica. O Concílio, praticamente assumiu a teologia do laicato elaborada na década de 1950, situando-a na concepção da Igreja como “Povo de Deus”.

A Lumen Gentium caracteriza de forma clara e concisa a identidade do laicato: “os leigos são fiéis que pelo batismo foram incorporados a Cristo, constituídos no povo de Deus e, a seu modo, feitos partícipes do múnus sacerdotal, profético e régio de Cristo, pelo que exercem sua parte na missão de todo o povo cristão na Igreja e no mundo” (LG 31).

Três aspectos principais da identidade do leigo são mencionados pelo Concílio: a relação com Cristo, com a Igreja e com o mundo. É desta tríplice relação que nasce a vocação e a missão do laicato.

Identidade que se funda na relação com Jesus Cristo

Como com todos os cristãos, pelo batismo os leigos e leigas são enxertados em Cristo. Este sacramento da iniciação cristã incorpora o fiel a Jesus e à sua missão -missão da Igreja, que consiste em continuar sua obra, que é o Reino de Deus, por ele inaugurado e tornado presente em sua pessoa. É do batismo de onde derivam todos os ministérios, incluídos os ministérios ordenados, o que faz de todos os fiéis “sujeitos” na Igreja, dada a “radical igualdade em dignidade de todos os ministérios”, diz o Concílio.

Consequentemente, o “apostolado” do leigo não se remete a um “mandato da hierarquia”, mas ao “mandato de Cristo”, uma vez enxertado Nele pelo batismo. A missão dos leigos não é a de “colaborar” ou “cooperar” com o clero, mas de continuar a obra de Jesus na Igreja, numa relação de igualdade e corresponsabilidade entre todos os batizados.

Identidade que se funda na relação com a Igreja

Como o seguimento do Mestre consiste em continuar sua obra na comunidade dos discípulos, a identidade do laicato, além de fundar-se em Cristo, também está relacionada à Igreja. Pelo batismo, através de Cristo, todos os fiéis são profetas, sacerdotes e reis, no seio do Povo de Deus, que é a Igreja, um povo todo ele profético (LG 35), sacerdotal (LG 34) e régio (LG 36).

Consequentemente, é o sacerdócio ministerial que está fundado no sacerdócio comum dos fiéis, a base laical da Igreja, e não o contrário. O leigo, numa Igreja como “comunidade de iguais”, tem uma identidade, não assentada sobre o binômio “clero-leigos”, mas sobre “comunidade-ministérios”, uma Igreja toda ela ministerial, em decorrência do tríplice múnus que todo fiel recebe no batismo.

A relação, pois, entre os membros da Igreja não é de superioridade ou inferioridade, mas de complementariedade, no serviço à causa do Reino de Deus.

Identidade que se funda na relação com o mundo

Finalmente, a identidade do laicato, além da relação com Jesus e sua Igreja, deriva também de sua relação com o mundo. Todo cristão, pelo batismo, tem uma missão a realizar na Igreja e no mundo. É Jesus que envia o cristão ao mundo, seja ele membro do laicato ou do clero. Portanto, a missão dos leigos no mundo, não se dá pelo “mandato”, delegação ou envio por parte da hierarquia.

Frisa o Concílio Vaticano II que ela se dá pelo fato da Igreja estar no mundo e existir para a salvação do mundo, compromisso de todo batizado, incluídos os ministros ordenados. Tanto o clero como os leigos são depositários de uma missão a ser desempenhada na Igreja e no mundo. Antes do Vaticano II, se tendia a pensar que o lugar e a missão do clero é no interior da Igreja e o lugar e a missão dos leigos é no mundo.

A Constituição Gaudium et Spes é clara em relação à missão de todo batizado no mundo: “a esperança de uma Nova-terra, longe de atenuar, antes deve impulsionar a solicitude pelo aperfeiçoamento desta terra” (GS 39). E continua: “afastam-se da verdade os que sabendo não termos aqui morada permanente, mas buscamos a futura julgam, por conseguinte, poderem negligenciar os seus deveres terrestres, sem perceberem que estão mais obrigados a cumpri-los, por causa da própria fé, de acordo com a vocação à qual cada um foi chamado”. E adverte: “não erram menos aqueles que, ao contrário, pensam que podem entregar-se de tal maneira às atividades terrestres, como se elas fossem absolutamente alheias à vida religiosa, julgando que esta consiste somente em atos de culto e ao cumprimento de alguns deveres morais.

Este divórcio entre fé professada e a vida cotidiana de muitos deve ser enumerado entre os erros mais graves de nosso tempo”. E conclui: “ao negligenciar os seus deveres temporais, o cristão negligencia os seus deveres para com o próximo e o próprio Deus e coloca em perigo a sua salvação eterna” (GS 43).

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