REPAM: construindo uma Igreja que supera fronteiras

Uma Igreja que denuncia ameaças, migrante, itinerante, com rosto amável, que cuida da natureza, atraente, com o diálogo inter-religioso, que acompanha as pessoas em suas lutas e incide nas políticas públicas, aliando-se com os outros, que construa uma eclesiologia própria e uma teologia indígena e amazônica.

A Igreja está além das fronteiras, seu trabalho excede os limites que a história estabeleceu em uma tentativa de separar os povos, inclusive os irmãos. Em uma reunião na qual  participaram povos indígenas, um tikuna disse que ele é  brasileiro, seu irmão, que vive rio acima, é  colombiana, e seu pai, que mora do outro lado do rio, é peruano, mas na realidade, são  tikunas, um povo de cerca de 40.000 habitantes que tradicionalmente ocupa um grande território naquilo que os portugueses e espanhóis decidiram que seriam três países diferentes.

A Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM, nasceu com o objetivo de superar fronteiras e realizar trabalhos comuns nos nove países da Pan Amazônia. Um dos eixos que fazem parte do REPAM é o eixo Igreja nas fronteiras, que se reuniu em Tabatinga, onde Brasil, Colômbia e Peru se encontraram, de 11 a 13 de fevereiro, com mais ou menos 50 representantes de todas as regiões de fronteira na Amazônia, realizar um trabalho de escuta para o Sínodo da Amazônia, e buscar uma proposta de trabalho que dê continuidade ao caminho percorrido até agora, a partir dos desafios reconhecidos pelos participantes, que em cada fronteira são diferentes, mas que sempre se referem a problemas comuns.

Entre esses desafios está o clericalismo e o sacramentalismo, que impedem um trabalho contínuo nas comunidades, que veem a Igreja como algo distante. Há uma necessidade urgente de mais formação para as comunidades, um processo que deve ser acompanhado. Nesse sentido, os participantes do encontro insistem que os líderes indígenas e camponeses devem ser formados para que possam defender seus direitos, constantemente ameaçados por governos e grandes empresas.

A Amazônia sofre dores comuns, especialmente nas regiões de fronteira, onde se incrementa o abandono dos estados, mineração legal e ilegal, extração de madeira, destruição ambiental, migração forçada, falta de políticas públicas e qualidade de vida, violência, tráfico de pessoas, perda de identidade cultural, divisão de povos indígenas, cultivo de coca para tráfico de drogas, corrupção institucionalizada e igrejas cristãs fundamentalistas, o que gerou feridas históricas difíceis de superar.

Diante dessa realidade, a presença da Igreja na Pan-Amazônia gera esperança, porque, como observou uma das participantes indígenas, “o rio não nos separa, nos une”, um símile que deve assumir a Igreja, que está avançando nesse sentido, como mostrou a celebração deste encontro,  oportunizando  a  convivência de diferentes povos e culturas, gerando uma capacidade de resistência coletiva. A Igreja é uma presença missionária, servidora através da Cáritas, promotora da educação, incentivando um outro mundo possível, portadora de fé e alegria.

Um sinal de esperança é o fortalecimento dos movimentos sociais, manifestado nas mobilizações indígenas, a educação indígena diferenciada ou o fato de que no Brasil a primeira deputada indígena, Joênia Wapichana, foi eleita na última eleição. Junto com isso, tem havido um aumento na luta pela defesa e aplicabilidade dos direitos humanos, o fortalecimento das culturas, o atendimento aos migrantes e vítimas do tráfico humano, o aumento das reservas ecológicas e a formação de redes, que tem sido retomada a partir da criação do REPAM.

Os participantes reconhecem que há situações que tem sido fortalecidas pela presença da Igreja na região, que tem respondido nas comunidades às dores dos povos, apoiando indígenas, camponeses e migrantes. Também tem se avançado no trabalho transfronteiriço. Ao mesmo tempo, a dependência dos missionários de fora da região é reconhecida, sugerindo a ordenação de padres casados, a criação de escolas de formação para missionários e planos para ajudar a conhecer, respeitar e acompanhar os povos indígenas.

Tudo isso mostra, tal como foi falado na reunião,  a necessidade de diálogo entre as Igrejas de fronteira, que dinamize as estruturas e quebre e integre fronteiras eclesiais, respeitar a cultura e os costumes dos povos indígenas, deixar ser evangelizados, em vez de impor o Evangelho, promovendo um diálogo intercultural, acompanhando as lutas sociais e os direitos do povo, deixando para trás o que é conhecido para aprender e acompanhar desde o cotidiano, tornando o Evangelho uma experiência de vida.

Portanto, é necessário aprofundar o trabalho em rede, se unir para defender todas as formas de vida, acolher, ser uma igreja hospitaleira, que dialoga e escuta, formar os missionários em temas socioambientais e questões interculturais, gerando um encontro de culturas. Uma Igreja que denuncia ameaças, migrante, itinerante, com rosto amável, que cuida da natureza, atraente, com o diálogo inter-religioso, que acompanha as pessoas em suas lutas e incide nas políticas públicas, aliando-se com os outros, que construa uma eclesiologia própria e uma teologia indígena e amazônica.

Isso requer, reconhecer o papel de liderança e protagonismo das mulheres, o diaconato permanente, o sacerdócio de homens casados, a participação ativa dos leigos através da diversidade de ministérios, curar feridas e se reconciliar com a vida e história da Amazônia, uma vida religiosa que promova a intercongregacionalidade, quebre padrões e fronteiras, trabalhe em rede, profética, ouvinte, guardiã da vida e dos direitos do povo e itinerante.

Nesse sentido, a vida religiosa presente no encontro sugeriu para a Conferencia Caribenha e Latino-Americana de Religiosas e Religiosos – CLAR, desenvolver um projeto comum para a Amazônia, promovendo uma formação dos religiosos com identidade amazônica para continuar a ser um sinal de esperança.

Tudo isto tem que se concretizar em um rosto amazônico da Igreja que trabalha nas fronteiras, em saída, próxima dos marginalizados e afastados da Igreja, que defende a vida em todas as suas formas, que promove as vozes e ações dos povos, respeitando as culturas e com disposição para aprender com a vida e a cultura dos povos, de onde as celebrações devem nascer.

Luis Miguel Modino

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